O PATO ALGEMADO – XXXV – por Sérgio Madeira

O Pato, o Professor, o Ministro e o Inspector (o resto são figurantes)Imagem2

Marília foi buscar a cadeira almofadada destinada às visitas. O ministro, do alto da sua insignificância, olhou o conclave. O olhar deteve-se no Pato:

– Um pato?

O Pato aclarou a voz e esclareceu:

– Saiba Vossa Serenidade que sou o agente de confiança do Professor.

O Professor resmungou:

– De confiança, de confiança… – O ministro sentou-se. Voltou-se para o Professor:

– Então o senhor é que foi o mestre do Álvaro…

O Pato apressou-se a intervir:

– Mestre, mas só de Economia! … As malandrices neoliberais, aprendeu-as com as más companhias.

O inspector Pais, em aparte, comentou:

– Embrulha!

O ministro olhou para ele:

– O senhor, quem é?

– Inspector Pais da Polícia Judiciária, tenente Pais na 3ª Companhia de Caçadores Especiais, às ordens de V.Exª, senhor ministro! –  Pôs-se de pé e fez uma garbosa continência.

O Gaspar estava com aquele ar de alucinado que constitui a sua imagem de marca, parecendo permanentemente deslumbrado com a própria inteligência. Inteligência que somente na sua gasparina imaginação, é uma lenda. O Pais continuou as apresentações:

– O Dr. Filipe Marlove e a D. Marília, sua secretária; o escritor Sérgio Madeira, Sr. Esteves, agente de primeira classe da polícia Judiciária, o Professor e o galináceo…

O Pato engasgou-se indignado:

– Galináceo? Hom’essa! Sou um pato-marinho, da família dos anatídeos, da ordem dos anseriformes – corrigiu o Pato

O Pais ironizou:

 –  Tem graça, eu conheço é o Dr. Marinho, da família dos Pintos, da ordem dos Advogados…

O ministro pigarreou, tentando interromper as picardias:

– Mas foi o senhor Professor que me pediu para aqui vir…- o Pato grasnou:

– Fui eu que lhe dei a ideia…

O Professor, entre dentes:

– Ou te calas ou conto-lhe do milho painço – voltou-se para Gaspar – É verdade, senhor ministro… – Todos o olharam com curiosidade e surpresa o Prof continuou – Tenho uma prenda para Vossa Excelência… O Pato voltou a intrometer-se:

– Posso dar a minha prenda, primeiro? – o Professor  acenou que sim, resignado.

O Pato tirou um terceiro envelope do bolso da gabardina – por fora a inscrição KwaImagem1

O Pais arriscou:

– Outra gaja nua?

O Pato titubeou:

– Desculpe, Vossa grandeza, mas não encontrei nenhuma com eles nus…

– Não faz mal. Milton Friedman e Augusto Pinochet. Dois grandes homens. Obrigado. – voltou-se para o Professor:

E a sua prenda, Professor? – O ministro parecia um menino pobre na noite de Natal.

O Professor estendeu um dossiê e o Pais que estava ao lado de Gaspar passou-lho. Insistiu:

_ Gajas nuas? – perguntou o Pais.

 – Não, uma obra importante e muito valiosa.

O rosto de Vítor Gaspar animou-se. Ansioso, questionou:

– Vale quanto no mercado dos produtos derivados, como colateral, como garantia, quanto vale  nos mercados financeiros?.

O dossiê dizia na capa: Does High Public Debt Consistently Stifle  Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff.

O ministro pegou nas folhas do documento e começou a ler. À medida que avançava na leitura ia ficando cada vez mais pálido. A certa altura levou as mãos à cabeça e caiu inanimado. Eez-se um grande  silêncio. O Pato grasnou:

– Ó Professor, então o senhor matou o homem?

O Pais comentou:

– Estrordinário!

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