
II
Um rancheiro entra numa locanda duma cidadezinha da nuca, logo à retaguarda do front. Uma velha madame ao balcão.
ELE – Bonjour, madama. Compris panela oficier manger?
ELA – Non compris panela.
O nosso amigo relanceia o olhar pela loja onde se amontoam todas as cousas que se podem vender, desde o sabão para a barba até aos saca-rolhas e, não vendo uma panela, descreve no ar com um gesto a forma do recipiente que lhe mandaram comprar. A velhota acaba por exclamar: ― Ah! Compris ― e vai buscar uma bacia de mãos.
― Panela! Manger! ― insiste o outro, berrando já.
Ela, então, sorrindo e tendo compreendido afinal, vai a uma prateleira e traz uma lata de conserva de pêssego. O rancheiro, não podendo triunfar pela sugestão e pela pantomina daquela estupidez irredutível, tendo já imitado o som duma panela fervendo e feito os gestos de abanar o lume, de provar caldo com uma colher, etc., tem uma ideia luminosa: pega num lápis e pinta uma panela num rolo de papel higiénico para W. C. que está em exposição na montra, ao lado de uns suspensórios cor de rosa:
― Ah! ― descobre enfim a madama. ― Une marmite!
― Yess! Compris marmite! Bonne! ― conclui o rancheiro, radiante.
…Um soldado vai doutra vez comprar refrescos para uma mess de oficiais. Volta com uma garrafa de grenadine, que é acolhida com imprecações, pois cada copinho virá a custar os olhos da cara, tal é o preço que por ela pediram ao faxina.
― Não faz mal ― explica este, todo sebhor de si. ― A mulher aceita-a outra vez.
― Tens a certeza?
― Ora essa! Eu cá disse-lhe logo: “Se mon oficier dizê grenadine pas bonne, moi venir à vous e vous donner monny à moi tout de suite ».
― Ela o que disse? perguntamos nós ainda hesitantes.
― Disse. Compris.
Trata-se evidentemente de um moço com excepcional pendor para os idiomas estrangeiros; mas havia muitos assim.

