A LÍNGUA DO “PAS COMPRIS”*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 II

Um rancheiro entra numa locanda duma cidadezinha da nuca, logo à retaguarda do front. Uma velha madame ao balcão.

ELE – Bonjour, madama. Compris panela oficier manger?

ELA – Non compris panela.

O nosso amigo relanceia o olhar pela loja onde se amontoam todas as cousas que se podem vender, desde o sabão para a barba até aos saca-rolhas e, não vendo uma panela, descreve no ar com um gesto a forma do recipiente que lhe mandaram comprar. A velhota acaba por exclamar: ― Ah! Compris ― e vai buscar uma bacia de mãos.

― Panela! Manger! ― insiste o outro, berrando já.

Ela, então, sorrindo e tendo compreendido afinal, vai a uma prateleira e traz uma lata de conserva de pêssego. O rancheiro, não podendo triunfar pela sugestão e pela pantomina daquela estupidez irredutível, tendo já imitado o som duma panela fervendo e feito os gestos de abanar o lume, de provar caldo com uma colher, etc., tem uma ideia luminosa: pega num lápis e pinta uma panela num rolo de papel higiénico para W. C. que está em exposição na montra, ao lado de uns suspensórios cor de rosa:

― Ah! ― descobre enfim a madama. ― Une marmite!

Yess! Compris marmite! Bonne! ― conclui o rancheiro, radiante.

…Um soldado vai doutra vez comprar refrescos para uma mess de oficiais. Volta com uma garrafa de grenadine, que é acolhida com imprecações, pois cada copinho virá a custar os olhos da cara, tal é o preço que por ela pediram ao faxina.

― Não faz mal ― explica este, todo sebhor de si. ― A mulher aceita-a outra vez.

― Tens a certeza?

― Ora essa! Eu cá disse-lhe logo: “Se mon oficier dizê grenadine pas bonne, moi venir à vous e vous donner monny à moi tout de suite ».

― Ela o que disse? perguntamos nós ainda hesitantes.

― Disse. Compris.

Trata-se evidentemente de um moço com excepcional pendor para os idiomas estrangeiros; mas havia muitos assim.

 *IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

1 Comment

  1. Um génio da literatura nacional. Foi perseguido pelo sídonismo e, tanto quanto sei – retido em Portugal – foi privado de comandar a única unidade militar (o 23 de infantaria) que entrou vitorioso no território do império alemão.. A leitura da “Malta das trincheiras” é um monumento que devia ser lido por todos os portugueses. O episódio do 9 de Abril, com todo o horror duma carnificina humana, é um retrato que só um mestre das letras podia ter feito e que, só por si, daria o melhor dos filmes. O André Brun fez parte importante das minhas leituras juvenis e, tantos anos passados, continuo a impressionar-me – comover-me -vivamente, seja com o seu humor inigualável, seja com as descrições dos horrores da frente de batalha.CLV

Leave a Reply