Q. G. 3. * POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

A madame Faës, très chère amie.

Sessenta e cinco por cento dos que andam na guerra regressarão à paz sem terem posto os pés nas trincheiras dos da malta, poucos conhecerão as bases; muitos de nós andarão anos por aqui sem se encontrarem. Não haverá, porém, um oficial português que, tendo estado em França, não conheça o Q. G. 3.

Na cidade para nós histórica de Aire-sur-la-Lys, à direita da Grande Place olhando para o Hotel de Ville, no quarteirão que torneja para a rua de Arras com a linda casa do tempo das pequeninas guerras da Flandres, há uma loja de cinco metros quadrados, à qual dão acesso dois degraus debruçados sobre um passeio de lajedo. Uma porta ao meio, uma montra em cada ilharga. Uma tabuleta sobre a porta. É a papelaria de madame Faës- Flageollet – Faës é ela, Flageollet era seu esposo, chefe que foi da gare da localidade. É o Q. G. 3, quartel-general da terceira divisão dum corpo expedicionário que tem apenas duas.

Se todos os caminhos levam a Roma, todas as estradas do sector português passam pelo Aire e levam àquela loja.

Todos nós guardaremos amáveis recordações do acolhimento que tivemos nesta terra de França. Sobre todas as saudades sobrelevará a da amizade com que os uniformes pardos de papel mata-borrão eram acolhidos nesta casa sobre a qual o governo português deveria mandar colocar uma lápide comemorativa da nossa passagem, pois que  ̶  como disse  ̶  nem todos saberão contar do vento que açoitava as primeiras linhas de Neuve Chapelle ou da brisa que acariciava os chalets à beira-mar de Ambleteuse, mas todos, desde os generais até aos simples alferes, se lembrarão daquele Q. G. 3. acolhedor, onde cada bilhete postal comprado dava direito a um sorriso amigo e cada bloco de cartes-lettres a uma enternecedora gentileza.

Atrás do seu balcão, Madame Faës pontifica, imponente na sua estatura, na sua corpulência, nos seus cabelos sal e pimenta. Ao peito, uma roseta de fita com as cores portuguesas. Cada um que entra é saudado pelo seu nome, e ali sabe-se melhor que na Repartição de Estatística a situação de nós todos. Para o que vem das trincheiras há um abraço ou um demorado aperto de mão, uma felicitação por ter escapado e um bom desejo que breve tenhamos um descanso. Para o que está longe das regiões insalubres e não tem empenho de as conhecer, há uma amável comiseração pelos incómodos que esta terrível guerra dá aos desgraçados sempre agarrados aos malditos papéis. Para os que se eternizam nas escolas, há o encorajamento para persistir na tarefa admirável de incutir aos outros os ensinamentos úteis de que resultará a vitória de todos.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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