Este texto, agora com pequenas alterações, foi publicado no Estrolabio em 7 de Junho de 2011
Para quem aspira a uma democracia plena, o cenário da vida da «nossa democracia», não podia ser mais desolador. Quando o ar está abafado dentro de casa, abre-se a janela e aspira-se ar puro. Porém, abrindo a janela, olhando globalmente o planeta, o ar é mais sufocante e o panorama é ainda mais assustador. Como num pesadelo ou num quadro de Dalí, num labirinto soturno, seres humanos sonâmbulos, errantes, incaracterísticos, vagueiam, enquanto um animal mutante e híbrido os persegue, devora e logo os regurgita devidamente educados, transformados em humanóides-socializados, em membros indiferenciados de uma gigantesca colmeia com milhares de milhões de corações, pulsando ao mesmo ritmo. Um a um, os seres vão sendo agarrados. Mas não fogem, oferecem-se aos dentes da fera com a indiferença de quem nada quer fazer para o evitar. Porque ser devorados e regurgitados, convertidos em peças da máquina global, parece ser o principal objectivo das suas vidas. E chamam a essa transmutação perversa «originalidade»!
Herbert Marcuse (1898-1979), o filósofo norte-americano de origem alemã, um dos mais importantes pensadores da Escola de Francoforte, explica-nos como o sistema, através de um marketing sofisticado, e utilizando os seus dispositivos de controlo, consegue que o «homem-unidemensional» assuma como seus os objectivos do sistema e como suas as necessidades do sistema (confundindo as formas de satisfação socialmente exigidas com as formas de satisfação genuinamente individuais – formas que, numa sociedade saudável, deveriam estar em dialéctico conflito). «Deste modo», conclui Marcuse, «a sociedade estabelecida assenta nos próprios pensamentos, nos próprios sentimentos e inclusivamente nos próprios corpos da maioria dos indivíduos».
Seria interessante que alguém estudasse a intertextualidade entre os conceitos de homem-massa, de Ortega y Gasset (a que já aqui aludi en passant) e o de homem unidimensional, de Marcuse. Ambos se parecem referir ao homem resultante da sociedade industrial – embora os modelos de um e de outro possam estar separados por duas ou três décadas e, portanto, algo desfasados. O pressuposto de Engels, segundo o qual é a vida que determina a consciência e não o contrário, é claramente assumido por Marcuse. A sociedade unidimensional, orientada pelo marketing, a sociedade de consumo como mais habitualmente dizemos, impõe um padrão de vida, esse padrão arrasta consigo uma ideologia de vida e essa ideologia molda a consciência do homem. Resulta no homem unidimensional.
Todos sabemos como, por exemplo, os adolescentes, na sua ânsia de se afirmarem como seres únicos e diferenciados, adoptam os hábitos da maioria com a insolência e a agressividade de quem está a inovar. Cabelos compridos, ou curtos, saias idem, piercings, tatuagens – coisas vulgares e vulgarizadas, massificadas – são usadas pelos jovens com a sensação de que estão a participar numa revolução. Como as variáveis não são muitas, a novidade de hoje pode ter sido a velharia de há oitenta anos e vice-versa Na realidade não chocam ninguém, não revolucionam nada – enriquecem os velhos das multinacionais que lhes impingem a tralha com que se ataviam e fazem a vida negra aos pais.
Refiro o exemplo dos adolescentes porque neles é mais visível o alinhamento numa massificação de usos, roupas, músicas, com essa falsíssima sensação de corajosa originalidade.
Na realidade, nos adultos, a massificação é semelhante, embora não tão evidente. Porque o adulto vai tendo tempo para cultivar uma capa de personalidade única e invulgar, sob a qual esconde a sua massificada vulgaridade. As modas que os jovens e os menos jovens adoptam com a convicção de que estão a definir uma personalidade única, são estudadas meticulosamente por gabinetes de marketing. O mercado é dividido em grupos-alvo, segmentados sócio-demograficamente, em classes, segundo o sexo e a faixa etária, considerando o habitat, se urbano, se rural. Nós a levarmos uma vida cultivando o mito de que temos uma personalidade única e irrepetível e os sacanas dos copywriters e dos accounts a arrumarem-nos em meia-dúzia de categorias, a espetarem-nos no peito, como insectos no álbum de um entomólogo, um alfinete com um rótulo do género – Mulher, 43 anos, classe C1, habitat urbano. Tal como os adolescentes que, com a ideia estulta de que estão a ser rebeldes, estão a proceder como mansos cordeirinhos, os adultos compram os carros (escolhendo quase todos a mesma cor – desde há anos o cinzento metalizado), as roupas, os dentífricos, que o marketing lhes dita, sempre com a ilusão de que são uns gajos cheios de personalidade. E tal como acontece com as roupas e carros, as ideias políticas também são postas ao dispor dos «cidadãos – eleitores» já pensadas. Como se comer comida mastigada por outros fosse uma vantagem. Toda a gente protesta, mas depois, no momento de votar, uma larga maioria vota num dos dois partidos do poder.
Falemos de nomenclatura. Que raio de nome havemos de dar a isto que tenho estado para aqui a defender? Temos de ir um pouco atrás. Quando critico os partidos do chamado «bloco central», faço-o tendo em conta as diferenças de índole programática entre os dois. O PS cada vez é menos socialista e não chega sequer a ser social-democrata. Quanto ao PSD, menos do que neo-liberal, não sei no que estava aquela gente a pensar quando crismou o PPD (embora os termos «popular» e «democrático» constituíssem já um monumental embuste). Agora, Partido Social-Democrata? Então ninguém, naquela casa sabe o que é a Social-Democracia? Nem Pacheco Pereira? O Partido de Lenine era o Partido Social-Democrata Russo, inspirava-se em Marx e em Engels, e esteve na génese do PCUS. Social-Democracia ou Democracia-Social é a antítese da «democracia» neo-liberal. Mas enfim, a demagogia conduz a estes «equívocos». O Partido Socialista, parecia não se ter equivocado no nome, pois provém da Acção Socialista Portuguesa, constituída na sua maioria por gente formada na «cantera» (acho graça a este estúpido termo futeboleiro) do Partido Comunista. Era mesmo socialista que eles queriam dizer. Apenas porque dizer e fazer são coisas diferentes. Nem para todos, claro, houve e há socialistas honestos e que procuram ser coerentes com os seus ideais.
No fundo, o que era preciso era realinhar as pessoas em novos partidos, digo eu e os que gostavam de ver a situação clarificada. Seria necessário um deus ex machina que viesse pôr-nos o leque político na ordem, como quem ordena uma mão antes da partida de bisca ou de sueca. Porém, embora para os políticos, esta simulação de luta ideológica seja útil, bem como a maioria dos seus mais destacados seguidores, deveriam estar todos no mesmo partido. São a mesma gente ambiciosa de poder e sem ideologia definida.
A questão central deste texto – a da ideologia que os media e o mercado impõem, através da televisão e da imprensa, ao homem comum, «unidimensional» ou «massa» que paga para ver o espectáculo e não para nele participar. Por isso, voltemos a Herbert Marcuse – há um opúsculo com um discurso que ele fez em Março de 1969 no aeroporto de Vancouver. De notar que as autoridades canadianas o tinham intimado, à sua chegada, na véspera a abandonar o país no dia seguinte – democracia, sim, mas devagar – Por isso ele fez uma palestra para estudantes que foram ao aeroporto. «Exigir o Impossível» foi o título dado ao livrinho onde a palestra foi registada. Título que retirou de um graffiti nas paredes da Sorbonne, no escaldante Maio do ano anterior: «Sejamos realistas, exijamos o impossível!» Porque só exigindo o impossível, sendo radicais (ou seja, indo à raiz dos problemas) é que podemos contrariar a manipulação que é feita às consciências de milhares de milhões de pessoas. Já não falo de socialismo, pois o termo está conspurcado pelas experiências históricas que conhecemos e por partidos bastardos como o nosso PS. Nem faz sentido invocar Marx.
Devemos sempre exigir o impossível. E o impossível é ser dado a cada pessoa, apenas por ter nascido, aquilo a que tem direito, prover as suas necessidades físicas e intelectuais. Redesenhar a sociedade e construir um modelo voltado para as necessidades da família humana e não para a usura, para a ganância do lucro a todo o custo. Montar os dispositivos que permitam distribuir a riqueza existente de forma racional, dando a cada um a sua parte (porque não estamos a falar de a cada um segundo as suas capacidades ou segundo as suas necessidades – ou mesmo de acordo com a suas rapacidades. As necessidades são iguais – alimentação, vestuário e tratamento na doença. As outras necessidades, as de carácter intelectual – a educação, a cultura, a informação – podem ser satisfeitos de forma maciça, através das novas tecnologias, as que existem e as que vão existir. Tendo sempre em consideração a grande diversidade de opções que neste campo os seres humanos manifestam.
E podem pôr a este sistema, subversivo da ordem estabelecida, o nome que quiserem – socialismo, comunismo, cristianismo, anarquismo, o que queiram – até podem chamar-lhe social-democracia. Percebem onde queria chegar com o título trilingue: O que importa o nome da rosa? – a rose by any other name would smell as sweet – l’important c’est la rose.
