O que importa o nome da rosa? – a rose by any other name would smell as sweet – l’important c’est la rose – por Carlos Loures

 

(Publicado em Estrolabio)

 

 

 

 

 

  

 

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

Para quem aspira a uma democracia plena, o cenário da vida política portuguesa, da nossa «democracia», não podia ser mais desolador. Quando o ar está abafado dentro de casa, abre-se a janela e aspira-se ar puro. Porém, abrindo a janela, olhando globalmente o planeta, o ar é mais sufocante e o panorama é ainda mais assustador.

 

Como num pesadelo ou num quadro de Dalí, num labirinto soturno, seres humanos sonâmbulos, errantes, incaracterísticos, vagueiam, enquanto um animal mutante e híbrido os persegue, devora e logo os regurgita devidamente educados, transformados em humanóides-socializados, em membros indiferenciados de uma gigantesca colmeia com milhares de milhões de corações, pulsando ao mesmo ritmo. Um a um, os seres vão sendo agarrados. Mas não fogem, oferecem-se aos dentes da fera com a indiferença de quem nada quer fazer para o evitar. Porque ser devorados e regurgitados, convertidos em peças da máquina global, parece ser o principal objectivo das suas vidas.

 

E chamam a essa transmutação perversa «originalidade»! Herbert Marcuse (1898-1979), o filósofo norte-americano de origem alemã, um dos mais importantes pensadores da Escola de Francoforte, explica-nos como o sistema, através de um marketing sofisticado, e utilizando os seus dispositivos de controlo, consegue que o «homem-unidemensional» assuma como seus os objectivos do sistema e como suas as necessidades do sistema (confundindo as formas de satisfação socialmente exigidas com as formas de satisfação genuinamente individuais – formas que, numa sociedade saudável, deveriam estar em dialéctico conflito). «Deste modo», conclui Marcuse, «a sociedade estabelecida assenta nos próprios pensamentos, nos próprios sentimentos e inclusivamente nos próprios corpos da maioria dos indivíduos».

 

Seria interessante que alguém estudasse a intertextualidade entre os conceitos de homem-massa, de Ortega y Gasset (a que já aqui aludi en passant) e o de homem unidimensional, de Marcuse. Ambos se parecem referir ao homem resultante da sociedade industrial – embora os modelos de um e de outro possam estar separados por duas ou três décadas e, portanto, algo desfasados. O pressuposto de Engels, segundo o qual é a vida que determina a consciência e não o contrário, é claramente assumido por Marcuse. A sociedade unidimensional, orientada pelo marketing, a sociedade de consumo como mais habitualmente dizemos, impõe um padrão de vida, esse padrão arrasta consigo uma ideologia de vida e essa ideologia molda a consciência do homem. Resulta no homem unidimensional. Todos sabemos como, por exemplo, os adolescentes, na sua ânsia de se afirmarem como seres únicos e diferenciados, adoptam os hábitos da maioria com a insolência e a agressividade de quem está a inovar. Cabelos compridos, ou curtos, saias idem, piercings, tatuagens – coisas vulgares e vulgarizadas, massificadas – são usadas pelos jovens com a sensação de que estão a participar numa revolução. Como as variáveis não são muitas, a novidade de hoje pode ter sido a velharia de há oitenta anos e vice-versa Na realidade não chocam ninguém, não revolucionam nada – enriquecem os velhos das multinacionais que lhes impingem a tralha com que se ataviam e chateiam os pais.

 

Os avós não se sentem incomodados, porque já viram este filme diversas vezes. Refiro o exemplo dos adolescentes porque neles é mais visível o alinhamento numa massificação de usos, roupas, músicas, com essa falsíssima sensação de corajosa originalidade. Na realidade, nos adultos, a massificação é semelhante, embora não tão evidente. Porque o adulto vai tendo tempo para cultivar uma capa de personalidade única e invulgar, sob a qual esconde a sua massificada vulgaridade. As modas que os jovens e os menos jovens adoptam com a convicção de que estão a definir uma personalidade única, são estudadas meticulosamente por gabinetes de marketing. O mercado é dividido em grupos-alvo, segmentados sócio-demograficamente, em classes, segundo o sexo e a faixa etária, considerando o habitat, se urbano, se rural. Nós a levarmos uma vida cultivando o mito de que temos uma personalidade única e irrepetível e os sacanas dos copywriters e dos accounts a arrumarem-nos em meia-dúzia de categorias, a espetarem-nos no peito, como insectos no álbum de um entomólogo, um alfinete com um rótulo do género – Mulher, 43 anos, classe C1, habitat urbano. Tal como os adolescentes que, com a ideia estulta de que estão a ser rebeldes, estão a proceder como mansos cordeirinhos, os adultos compram os carros (escolhendo quase todos a mesma cor – desde há anos o cinzento metalizado), as roupas, os dentífricos, que o marketing lhes dita, sempre com a ilusão de que são uns gajos cheios de personalidade.

 

E tal como acontece com as roupas e carros, as ideias políticas também são postas ao dispor dos «cidadãos – eleitores» já pensadas. Como se comer comida mastigada fosse uma vantagem. Toda a gente protesta, mas depois, no momento de votar, uma larga maioria vota num dos dois partidos do poder – comida super -mastigada! Falemos de nomenclatura. Que raio de nome havemos de dar a isto que tenho estado para aqui a defender? Temos de ir um pouco atrás. Quando critico os partidos do chamado «bloco central», faço-o tendo em conta as diferenças de índole programática entre os dois. O PS cada vez é menos socialista e não chega sequer a ser social-democrata. Quanto ao PSD, menos do que neo-liberal, não sei no que estava aquela gente a pensar quando crismou o PPD (embora os termos «popular» e «democrático» constituíssem já um monumental embuste). Agora, Partido Social-Democrata? Mas então ninguém, naquela casa sabe o que é a Social-Democracia? Nem o Pacheco Pereira? Nem o professor Marcelo? O Partido de Lenine era o Partido Social-Democrata Russo, inspirava-se em Marx e em Engels, e esteve na génese do PCUS. Social-Democracia ou Democracia-Social é a antítese da «democracia» neo-liberal.

 

Mas enfim, a demagogia conduz a estes «equívocos». O Partido Socialista, parecia não se ter equivocado no nome, pois provém da Acção Socialista Portuguesa, constituída na sua maioria por gente formada na «cantera» (acho graça a este estúpido termo futeboleiro) do Partido Comunista. Era mesmo socialista que eles queriam dizer. Apenas porque dizer e fazer são coisas diferentes. Nem para todos, claro, houve e há socialistas honestos e que procuram ser coerentes com os seus ideais. No fundo, o que era preciso era realinhar as pessoas em novos partidos, digo eu e os que gostavam de ver a situação clarificada. Já noutra crónica lamentei a ausência de um deus ex machina que viesse pôr-nos o leque político na ordem, como quem ordena uma mão antes da partida de bisca ou de sueca. Porém, embora para os políticos, esta simulação de luta ideológica seja útil, Sócrates e Manuela Ferreira Leite, bem como a maioria dos seus mais destacados seguidores, deveriam estar todos no mesmo partido. São a mesma gente ambiciosa de poder, mas de ideologia pindérica. A questão central deste texto – a da ideologia que os media e o mercado impõem, através da televisão e da imprensa, ao homem comum, «unidimensional» ou «massa» – o artolas que paga o circo, mas que não tem direito a ir para o redondel. Paga para ver o espectáculo e não para nele participar.

 

Por isso, voltemos ao tio Herbert: há um opusculozinho de Marcuse com um discurso que ele fez em Março de 1969 no aeroporto de Vancouver. De notar que as autoridades canadianas o tinham intimado, à sua chegada, na véspera a abandonar o país no dia seguinte – democracia, sim, mas devagar – Por isso ele fez uma palestra para estudantes que foram ao aeroporto. «Exigir o Impossível» foi o título dado ao livrinho onde a palestra foi registada. Título que retirou de um graffiti nas paredes da Sorbonne, no escaldante Maio do ano anterior: «Sejamos realistas, exijamos o impossível!» Porque só exigindo o impossível, sendo radicais (ou seja, indo à raiz dos problemas) é que podemos contrariar a manipulação que é feita às consciências de milhares de milhões de pessoas. Já não falo de socialismo, pois o termo está conspurcado pelas experiências históricas que conhecemos e por partidos bastardos como o nosso PS. Nem faz sentido invocar Marx (embora se lhe reconheça toda o saber e inteligência e o carácter científico que deu ao exercício da política).

 

Devemos sempre exigir o impossível. E o impossível é ser dado a cada pessoa, apenas por ter nascido, aquilo a que tem direito, prover as suas necessidades físicas e intelectuais. Redesenhar a sociedade e construir um modelo voltado para as necessidades da família humana e não para a usura, para a ganância do lucro a todo o custo. Montar os dispositivos que permitam distribuir a riqueza existente de forma racional, dando a cada um a sua parte (porque não estamos a falar de a cada um segundo as suas capacidades ou segundo as suas necessidades – ou mesmo de acordo com a suas rapacidades. As necessidades são iguais – alimentação, vestuário e tratamento na doença.

 

As outras necessidades, as de carácter intelectual – a educação, a cultura, a informação – podem ser satisfeitos de forma maciça, através das novas tecnologias, as que existem e as que vão existir. Tendo sempre em consideração a grande diversidade de opções que neste campo os seres humanos manifestam. E podem pôr a este sistema, assumidamente subversivo da ordem estabelecida, o nome que quiserem – socialismo, comunismo, cristianismo, anarquismo, o que queiram – até podem chamar-lhe social-democracia. Agora já percebem onde queria chegar com o título trilingue:

 

O que importa o nome da rosa? – a rose by any other name would smell as sweet – l’important c’est la rose.

 

 

 

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