A CANETA MÁGICA – POLÍTICOS E MANIPULAÇÃO – por Carlos Loures
carlosloures
O papel revolucionário das massas é um dos pressupostos que herdámos do século XIX. No entanto, não me ocorre o nome de qualquer líder revolucionário oriundo do proletariado – Lenine nasceu numa família da classe alta, Estaline foi um seminarista, Mao um bibliotecário filho de camponeses abastados, Fidel um advogado proveniente de uma família importante de Havana, «Che» um médico… As massas não produzem os seus líderes, eles vêm da aristocracia ou das instituições escolares da burguesia, onde recebem a formação e ganham, inclusive, a consciência de que é necessário extinguir a injustiça social que os beneficiou. Mas as massas são sempre invocadas – Não disse, por enquanto, manipuladas, usadas. Mas é sempre em seu nome que as revoluções se fazem. Não foi este passe de prestidigitação inventado no século XIX. Vem de trás.
Com a sua linguagem vivaz, colorida, Fernão Lopes conta-nos como, num dia de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis e o seu partido (aliás liderado por Álvaro Pais, um burguês – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o Andeiro, tentaram manipular o povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem que fosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim.» Como se vê, o papel distribuído aos mesteirais e arraia-miúda na conjura foi o de comparsas, o de figurantes. Sabia-se que a multidão, supondo o Mestre em perigo, acorreria ao paço, impedindo que sobre ele se exercessem represálias pela morte do conde de Andeiro. (Se fosse hoje, o Mestre esperaria pela hora dos jornais televisivos para fazer a comunicação). Assim aconteceu, o povo acorreu de todos os lados, ameaçou incendiar as portas e só se aquietou quando D. João surgiu a uma janela, agradecendo as delirantes aclamações da multidão e pedindo aos populares que regressassem a suas casas, pois «não havia deles mais mister», ou seja, cumprido o seu papel, podiam abandonar a cena. Foi a partir daqui que o plano tão bem urdido por Álvaro Pais falhou – a população amotinou-se, linchou o bispo de Lisboa que, recusando-se a mandar tocar a rebate os sinos da Sé, foi considerado implicado na suposta conspiração contra a vida do Mestre. A insurreição alastrou e dificilmente se conseguiu evitar o assalto às casas dos judeus e dos ricos da cidade. Como um grande incêndio começado por uma brincadeira com fósforos, a intriga palaciana deu lugar a uma Revolução difícil de controlar.
Mais próxima de nós, a Revolução Francesa mostra-nos igualmente como a burguesia ilustrada, impaciente por tomar o lugar da moribunda aristocracia, se serviu das massas populares, envolvendo-as numa trama onde esperavam ser protagonistas, reservando ao povo o habitual lugar de figurante. Sob o barrete frígio da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ocultavam-se interesses económicos e ambições políticas da emergente burguesia. Sabemos o que aconteceu. O animal tomou o freio nos dentes e muitos dos que esperavam tomar o poder, ficaram com a cabeça cortada. Só Napoleão conseguiu domar a fera enraivecida. Quando se envolve o povo, as massas, numa revolução e se diz que ele é o protagonista, existe sempre o perigo de que ele acredite.
Em Portugal em 25 de Abril, os feiticeiros das diversas tribos convocaram também o grande Manitu, o povo. Este acreditou que ia mesmo tomar o poder e durante 18 meses foi o que se viu – Manifes todos os dias, greves, saneamentos… Em 25 de Novembro, lá veio o Jaime Neves e as suas chaimites, «restabelecer a ordem» e repor a «normalidade». Contudo, o axioma de que a História se repete, tem que se lhe diga. É pouco ou mesmo nada científico. Porque quem defende esta tese, se refere aos pormenores e aí dificilmente terá razão. Mas este truque de invocar o povo não é um pormenor. E aí, sim, a história repete-se. Sempre que o povo acredita que estão a falar com ele e não apenas em seu nome, avança e derruba os tronozinhos dos santos que encontra pelo caminho. Como os actores que representam sem ter estudado o papel, é gente que, não tendo lido os manuais, os teóricos, os grandes filósofos, não sabe como comportar-se em cena e às vezes até dá cabo dos cenários. Ignora o que deve fazer nas revoluções, mesmo naquelas em que supostamente é protagonista – o papel destinado às massas tem sido o de seguir os grandes líderes, quer eles se chamem Bolívar ou Fidel, D. Pedro de Bragança ou Robespierre, Lenine, Mestre de Avis ou Hugo Chávez. E não há maneira de o povo aprender…
Querendo evitar-se a balbúrdia de verões quentes, a chamada «democracia representativa» foi criada para impedir que as massas intervenham na cousa pública, metendo o nariz onde não são chamadas. A democracia representativa é uma espécie de democracia asséptica – ama o povo, mas não lhe suporta o cheiro. Portanto, cidadãos, «metam lá o papelinho dobrado em quatro quando nós dissermos, mantenham os impostos em dia, e deixem o resto connosco. Deixem a política para os políticos», como dizia Tito de Morais.