
Já aqui falei, por mais de uma vez, em Castoriadis e na sua famosa dicotomia “socialismo ou barbárie” – expressão criada por Rosa Luxemburgo que o filósofo francês de origem grega converteu em tese política. A primeira vez que ouvi falar em Castoriadis foi no Outono de 1959. Fenómeno curioso é o de que um termo, um nome, que ouçamos uma primeira vez de forma consciente, passa, a partir de então, a sair-nos ao caminho a cada momento. A primeira vez que ouvi falar de Castoriadis foi em Paris, no Albergue de Juventude de La Chapelle onde estava instalado. Havia umas dezenas de jovens de ambos os sexos e de diversas nacionalidades em dois dormitórios. O refeitório era comum e a cozinha onde preparávamos as refeições também.
Foi no refeitório do albergue, num final de tarde, que um sueco que me queria vender uns sapatos, me abordou perguntando-me num cómico espanhol:
– Quieres comprar zapatos?
Calço 40/41 e o tipo com quase dois metros de altura, calçava 46 ou 47.Expliquei-lhe que, por todas as razões, o negócio não era viável. Sentou-se desanimado, pousou os sapatos, grandes como porta-aviões. E falou-me no Socialisme ou Barbarie e em Castoriadis. Isto passou-se, como disse, no Outono de 1959. Regressei antes do Natal e, volta que não volta, o jornal Socialisme ou Barbarie e o Castoriadis apareciam-me em citações, transcrições, referências. Foi quando li (em edições brasileiras) a obra de Gramsci. Não concordava com o rigor autocrático do leninismo, mas não tinha argumentos para opor ao leninismo reinante, mesmo fora do PC. Gramsci, Pannekoek e Castoriadis forneceram-me esses argumentos.
A certa altura, já depois de ter estado envolvido num partido saído de uma cisão no PC (a FAP), por altura de 1966 ou 1967, comecei a interessar-me pelas teses de Anton Pannekoek, teórico marxista holandês que propugnava a prevalência dos conselhos operários sobre os partidos políticos e os sindicatos como os pilares de uma sociedade comunista. Estas eram, segundo ele, organizações típicas do século XIX e que se revelavam disfuncionais na prática política de um século depois. Mas nem tudo o que vem de trás está desactualizado. Voltemos á minha viagem pela filosofia política – a tese básica de Pannekoek fora formulada a partir de Marx: “A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores” e os conselhos operários eram pensados como órgãos do processo revolucionário e de uma nova sociedade fundada na autogestão.
Depois, nas minhas leituras. lá me surgiu o Pannekoek a entrar em rota de colisão com o Castoriadis de que falara o sueco. Eu estava desfasado no tempo. Lia isto em 1970 ou 1971 e o Pannekoek morrera em 1960. A seguir a Abril de 1974, muita gente, me falava de Castoriadis e de Pannekoek. Até que em 1979, a editora Regra do Jogo, dirigida editorialmente pelo meu amigo Fernando Pereira Marques, lançou numa magnífica tradução de Miguel Serras Pereira uma colectânea de ensaios de Castoriadis «A Experiência do Movimento Operário» que li e reli e copiei e citei e se transformou num livro de cabeceira.
(
