Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Uma Alemanha « off shore »
Jean-Luc Gréau
Texto enviado por Philippe Murer, Membro du bureau du Forum Démocratique,
Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange
13 de Maio de 2013
O discurso retórico assola a França entre os dois campos que se formaram, uma vez que o euro se tornou uma obra-prima em risco. Apresentemos-los ainda em boa forma. De um lado, estão aqueles que reclamam ser colocados sob perfusão constante dos ladrões e dos desonestos do sistema através de uma transferência permanente de recursos da Alemanha para seu benefício, como se não se tratasse de um saque indecente. Do outro lado, estão aqueles que apelam de boa fé para uma “germanização” dos parceiros da Alemanha, incluindo naturalmente a França, que veria assim aumentar a sua produtividade, a redução dos seus custos de trabalho, veria assim equilibrarem-se as suas contas internas e externas, como se fosse possível mudar os povos e as suas culturas.
Estas duas “soluções” do desastre europeu estão enraizadas em duas visões opostas, que continuam a mobilizar as pessoas sobre todas as questões económicas: a visão keynesista, que subordina a prosperidade e o progresso a um apoio incondicional da procura (façamos a transfusão do sangue da Alemanha para a anémica zona euro) e a visão neoliberal de que a competitividade é a lei e os profetas (que os seres inferiores, ‘untermen’, da Europa se coloquem ao nível dos “super-humanos”« übermenschen » ). E desde há trinta anos que estas visões, cristalizadas como esmaltes, fizeram como reféns os espíritos que abrigam estas ideias. E, como tal, os dois discursos opostos interceptam-se no infinito, às custas do debate tornado necessário pelas dificuldades da época actual.
O julgamento simulado: a mesquinhez alemã
No entanto, o discurso dos “keynesistas” é acompanhado por um julgamento moral e um discurso retórico, de uma lenga-lenga. A Alemanha seria sujeita a uma obrigação de apoio aos seus parceiros, de tipo alimentar digamos, no mesmo espírito que os pais resgatam os seus filhos ou que o Estado social, protege as pessoas deficientes. Os sacrifícios que ela reclama em troca da sua ajuda são desprovidos de base jurídica e política. As exigências alemãs são indignas.
O discurso moralista desempenha o seu papel habitual de interferência com os dados objectivos de um problema que exige uma compreensão rigorosa dos seus dados e do seu calendário. Já o dissemos, a Alemanha não pode pagar [1]: os oitenta milhões de cidadãos da República Federal têm as suas despesas, têm as suas responsabilidades e devem enfrentar as exigências da globalização, que eles identificaram e decidiram resolver em conformidade com a sua mentalidade, com a sua capacidade e a sua visão da económica. Pior ainda: a taxa sobre a sua riqueza reclamada para salvar a zona euro, pelo menos 100 mil milhões de euros por ano, precipitá-los-ia numa depressão económica.
Eles estão também fortemente envolvidos com a participação de seu Estado no Mecanismo Europeu de Estabilidade : 170 mil milhões de euros antes da escroqueria de Chipre! E eles sabem que as somas assim consentidas no calor da falência dos países do Sul devem passar por lucros e perdas [2]. A perspectiva de um compromisso por tempo indeterminado, com a finalidade exclusiva de proteger um projecto idealista, aterroriza-os.
O verdadeiro julgamento: o cavaleiro económico solitário
Isto a dizer que é a rota da Alemanha desde o início do novo século, não reclama apenas o louvor dos seus muito fervorosos adeptos e sempre cada vez mais numerosos no seio da nossa esfera mediática e política? Não é bem assim. O sucesso industrial da Alemanha, que está enraizado num passado já secular de trabalho e de expansão ao longe, acentuou-se recentemente através de escolhas económicas que têm, na verdade, desfeito a solidariedade da economia alemã para com as economias dos seus parceiros. O seu único piloto é económico, não financeiro.
A estratégia de expansão da Alemanha não data da globalização recente, nem mesmo do pós-guerra, quando a nova República Federal se atirou de forma precipitada para um desenvolvimento económico que poderia fazê-lo esquecer as suas desgraças e aquelas que ela tinha infligido ao mundo. Ela começou esta estratégia no final do século XIX. Na ausência de um Império colonial, como a França ou a Inglaterra, então escolhe conquistar o mundo, graças a qualidade de “Made in Germany” [3]. Ela consegue ter sucesso nesta estratégia aí instalando, de passagem, colónias de cidadãos de nacionalidade alemã [4]. É suficiente dizer que a globalização à moda de Schröder e de Merkel é o herdeiro longínquo da Alemanha de Bismarck.
Todas as dificuldades de compreensão da verdadeira vocação da Alemanha de hoje vêm do compromisso europeu da República Federal após a última guerra. Não há europeu mais fervoroso do que Konrad Adenauer, o chanceler mais francófilo. E o par que formou com o general de Gaulle tem impressionado tanto os espíritos que os seus herdeiros miseráveis se esforçam por ironizar sobre as boas relações entre eles e sobre a cooperação havida. Mas as pantominas de um Sarkozy ou de um Hollande com a chanceler de Berlim não poderia resultar. A Alemanha mudou, a Europa mudou, o mundo mudou.
A Alemanha mudou devido à sua reunificação. Este país, de que alguns reclamam que subsidie a Europa, este país reunificou-se numa situação de emergência, suportando a quase totalidade dos encargos financeiros, ou seja, 1500 mil milhões sobre dez anos, num contexto felizmente mais favorável que este, debilitante, saído das duas crises recentes, a americana e a europeia . Ela tem acima de tudo, superado o conflito ideológico, saído da sua divisão em duas Alemanhas, e reaprendeu a viver como uma só nação. É o legado irreversível para o nosso vizinho, da queda do muro de Berlim.
A Europa mudou por causa do seu alargamento a leste. Os novos Estados-membros da Europa Central tornaram-se parceiros económicos de primeiro nível da indústria alemã. As empresas da RFA encontram às suas portas, uma força de trabalho competente e de baixo custo, que é também uma clientela apropriada para os seus produtos. No exacto momento onde a escolha da globalização, promulgada pelos acordos da OMC, assinado em Marraquexe na Primavera de 1994, impôs uma difícil equação económica às nossas indústrias europeias, a inclusão da Europa Central permitiu uma redução efectiva dos custos na Alemanha através da subcontratação local. A Alemanha combinou assim os recursos da Mittelstand [5] e as vantagens da Mitteleuropa. Mas este sucesso tem tido como resultado a descentralização da Alemanha rumo a uma outra Europa, uma outra Europa diferente e bem diferente da Europa de partida e, mais ainda, bem diferente da Europa do Sul, vinda mais tarde para o quadro da construção europeia, com excepção para a Itália.
E o mundo mudou muito devido à entrada em força da China na economia mundial, em que se tornou a segunda potência económica do mundo no espaço de trinta anos. Entrada em força, o que proporcionou grandes negócios para as empresas alemãs, colocadas na vanguarda pelo seu fornecimento de bens de equipamento e destes carros de luxo, tão valorizados pelos novos ricos da China [6]. O apelo do mundo que é um dado bem mais do que centenário da grande expansão alemã ressoou muito mais alto ainda, depois da inclusão da China na OMC.
Gerhardt Schröder, que nunca acreditou no euro, e Angela Merkel aprovaram as lições sucessivas da reunificação, as da Europa alargada e da nova globalização. Eles estão, portanto, de profundo acordo com os patrões e os sindicatos alemães, e com esse acordo abriram o caminho para uma outra Alemanha. É mais do que nunca uma Alemanha industrial, mas agora trata-se agora também de uma Alemanha que procura mais clientes para além das fronteiras da Europa Ocidental, que serviu como o berço da CEE. A Alemanha aplica uma política estritamente mercantilista que consiste em procurar constantemente alcançar ganhos de quotas de mercado. Ela encarna assim uma espécie de cavaleiro económico isolado que vai até ao ponto de procurar produzir formas de acção desleais. Aproveitando-se da crise nos países vizinhos, as empresas alemãs contratam assim um número crescente de engenheiros franceses ou espanhóis, que colocam a trabalhar sobretudo na Alemanha em vez de ser nos centros de investigação locais, o que aumenta a produção e o consumo na Alemanha e as receitas do Tesouro em Berlim [7].
É, portanto, uma outra Alemanha que se tem estado a modelar nestes últimos vinte e três anos em que o muro de Berlim caiu. Um olhar distanciado e frio, no-la faria aparecer sob a forma de uma grande plataforma industrial “off shore” onde se activa um exército de engenheiros e de trabalhadores altamente qualificados, a trabalharem para todo o mundo. Mas nós somos constantemente tentados a recusar essa realidade para vantagem de uma imaginária Alemanha, uma espécie de vaca leiteira desta Europa falida ou a Alemanha modelo que permitiria que os europeus se juntem no Panteão do sucesso económico. O abandono destas visões fantasmagóricas da Alemanha é a única coisa que reclamamos.
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[1] « Bundes republik über alles » Causeur Numéro 53 Novembro 2012.
[2] O que separa os alemães dos franceses: a sua amarga tomada de consciência da realidade económica europeia à qual os nossos compatriotas se recusam ainda.
[3] Um paradoxo mas apenas na aparência: esta conquista efectua-se a partir de uma economia nacional protegida .
[4] Que desempenharão um grande papel de informadores do Segundo e Terceiro Reich dirante os conflitos mundiais .
[5] Mittelstand : sistema de empresas médias de grande nível de eficiência que forma o coração da economia alemã.
[6] Ilustrado pelo belo filme de Wang Chao « Voiture de luxe ».
[7] Sobre a estratégia alemã, veja-se Jean-Michel Quatrepoint : « Comment l’Allemagne a gagné la paix » Revue Le Débat Numéro 168 Janvier Février 2012

