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DEUS E A CRISE DO EURO? Por GEORGES VIGNAUX

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Dois textos serão aqui apresentados relativamente a `crise europeia e a Deus. Por onde andará Deus nesta crise, é a pergunta que muita criança fará do que se está a passar. Duas ilustrações desta pergunta, aqui apresentam a segunda, com a leitura dos homens sobre Deus na crise, mas agora a leitura feita por aqueles que decidem Além-Reno.

Júlio Marques Mota

Texto nº 2.

Deus e a crise do euro?

Na crise do euro, de acordo com Alain Frachon, especialistas e políticos  negligenciam um factor: Deus. Mais especificamente, a religião e, neste caso, o protestantismo luterano. Angela Merkel, filha de um pastor, tem o sentido do pecado, como muitos dos  seus compatriotas. Há uma maneira alemã de falar sobre o euro, que faz lembrar a influência do Templo.  [1]

Com razão, Berlim entende  que a zona euro  deve deixar  de ser  a  máquina de  fabricar dívida  como o tem  sido nos estes últimos dez anos. Nenhuma questão quanto  aos ricos  (os países do norte da Europa) garantirem as dívidas dos pobres (os países sul da Europa): não ser assim  seria encorajá-los ao  vicio  da dívida.

Mas o discurso que vem de além-Reno   ultrapassa o que os economistas chamam de “risco moral”: os efeitos perversos de uma solidariedade que incentivaria  os Estados da zona euro  a  comportamentos dispendiosos. Neste discurso passa uma vontade de punir e em que se realça a dialéctica do pecado e da sua expiação (2).

Numa  União monetária vacilante, mal construida, como   é  na verdade a zona  euro, o mal  é a dívida e  esta  é o resultado de uma gestão desenvolta e nada cuidadosa das finanças públicas. Acumulado ao longo dos anos, a situação desacredita a moeda: mina a confiança em toda a zona euro.

A sanção existe para que isso continue assim. Ela deve ser pesada para retirar ao pecador o desejo de começar de novo. Ela exprime-se através de um mecanismo maravilhoso, disse o chefe do Bundesbank, Jens Weidmann: através das  taxas de juros – a punição pelos mercados.

O New York Times relata as observações defendidas no mês passado  pelo Presidente do “Buba”  numa  reunião em Berlim. “Seria fatal apagar completamente o impacto disciplinar das taxas de juros à alta,”  avisava  Weidmann, acrescentando: ” quando os estados começam a ter que pagar mais  caro, cada vez mais caro, para  obter um crédito de modo a poder cumprir seus prazos, ou seja, quando um estado precisa de um crédito de modo a poder refinanciar-se , então endividar-se  torna-se muito menos atraente para eles.”

O primeiro passo na punição é a degradação pelas agências de rating. Segue-se depois um aumento das taxas de juro a que um Estado precisa de vender a sua dívida no mercado. Se está com muitas dificuldades, a remuneração  solicitada pelo investidores  para subscreverem os empréstimos do estado chega a atingir   níveis insuportáveis: é o caso  da Grécia, da Irlanda, de Portugal, que já não conseguem refinanciar-se indo aos  mercados.

Se estiver  um pouco melhor, um pouco mais solvável, um Estado  encontra  tomador  para os seus títulos do tesouro  mas sobretudos a custos  tanto mais elevados quanto a  sua dívida é pesada: a Espanha e a Itália devem pagar juros de mais de 6% para colocarem os seus empréstimos nos mercados. Estes países entram pois num círculo infernal: para garantir os pagamentos nas datas de vencimento das suas dívidas, têm necessidade de ir aos mercados levantar dinheiro, mas eles só o  podem fazer a custos que virão aumentar  ainda mais a sua dívida total.

Jens Weidmann conclui o seu sermão ao Ministro  das Finanças: “A boa política fiscal deve ser recompensada através do baixo custo do crédito e a má política deve ser  punida   pelo mesmo meio.” Esta ginástica  das taxas gratifica o bem e castiga o mal.

Por outras palavras, é  tanto ao nível da  moral  como da memória do trauma deixado pela inflação na Alemanha do período dos anos 20  que  Berlim se recusa a utilizar  a arma que tem dado as suas provas  nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha: a monetarização da dívida.

Proprietário da rotativa de produzir notas  o Banco Central pode comprar directamente e em quantidades infinitas os títulos de Tesouro emitidos por um estado em  dificuldade. O Banco Central pesa também sobre as taxas de obrigações do Estado e leva a que estas possam ficar níveis  suportáveis.

Mas, diz o chefe do ‘Bundesbank’, esta é uma prática duplamente condenável: primeiro, é inflacionista; em seguida torna-se  um incentivo a fazer mais  dívida porque modera a sanção (o aumento das taxas de juro). Visto de Berlim, a crise do euro só pode ter como remédio: a austeridade orçamental para pagar as dívidas.

Assim, está fora de   questão  forçar o Banco Central Europeu (BCE), a fazer  o que os  seus estatutos proíbem: monetarizar  a dívida; mas, ainda aqui, a proibição não é baseada em considerações económicas. A proibição não é uma questão de ordem económica mas sim uma questão de ordem política e moral. A renovação do patriotismo alemão passa pela exaltação do Estado de direito, pelo “patriotismo da Constituição”, o  respeito pela Lei  – neste caso, os textos fundadores do BCE.

É por isso que  Jens Weidmann  afirma ainda : “não se conseguirá certamente  ultrapassar  a actual crise de confiança violando  a lei. A Europa não é apenas uma moeda única, é também um respeito comum pelo Estado de direito. (…) É necessário ter cuidado, na procura de uma solução para a crise da dívida em não dar a impressão de que estamos a pisar estes valores. “

É por  resta razão que   Berlim se recusa a desempenhar um papel mais activo no BCE e a aumentar a solidariedade financeira entre os países da zona euro. E propõe-se  resolver a crise pela  entrada em funcionamento de  regras do Tratado de uma  rigorosa disciplina orçamental. E não contempla sequer  o apuramento d as dívidas dos membros da União  que não seja através da única forma por Berlim admissível: a austeridade.

Precisão final: os Estados Unidos e uma massa crítica de economistas consideram que a receita alemã levará a uma terrível recessão – da qual  o euro não conseguirá  recuperar.

______

[1] Alain Frachon, Le Monde, 22.12.2011.

[2] No entanto,  “a dialéctica do pecado e da sua expiação”  não é realmente um conceito do protestantismo, em todo o caso  do protestantismo  reformado ou  do protestantismo luterano.  Este conceito faria  parte da  dialéctica do pecado e da graça. É verdade que esta dialéctica se abre  sobre uma  ética da responsabilidade pessoal, mas o pecado não apela à   expiação uma vez que Deus perdoa (pela graça).   O pecado tem , no entanto, consequências concretas,  ele   provoca a infelicidade.

Georges Vignaux, 2011

          http://reperesetfragments.com/2011/12/27/dieu-et-la-crise-de-leuro/

International|Chronique

Et Dieu, dans la crise de l’euro?

Artigo aparecido na edição de 23.12.11

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