Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Dois textos serão aqui apresentados relativamente a `crise europeia e a Deus. Por onde andará Deus nesta crise, é a pergunta que muita criança fará do que se está a passar. Duas ilustrações desta pergunta, aqui apresentam a segunda, com a leitura dos homens sobre Deus na crise, mas agora a leitura feita por aqueles que decidem Além-Reno.
Júlio Marques Mota
Texto nº 2.
Deus e a crise do euro?
Na crise do euro, de acordo com Alain Frachon, especialistas e políticos negligenciam um factor: Deus. Mais especificamente, a religião e, neste caso, o protestantismo luterano. Angela Merkel, filha de um pastor, tem o sentido do pecado, como muitos dos seus compatriotas. Há uma maneira alemã de falar sobre o euro, que faz lembrar a influência do Templo. [1]
Com razão, Berlim entende que a zona euro deve deixar de ser a máquina de fabricar dívida como o tem sido nos estes últimos dez anos. Nenhuma questão quanto aos ricos (os países do norte da Europa) garantirem as dívidas dos pobres (os países sul da Europa): não ser assim seria encorajá-los ao vicio da dívida.
Mas o discurso que vem de além-Reno ultrapassa o que os economistas chamam de “risco moral”: os efeitos perversos de uma solidariedade que incentivaria os Estados da zona euro a comportamentos dispendiosos. Neste discurso passa uma vontade de punir e em que se realça a dialéctica do pecado e da sua expiação (2).
Numa União monetária vacilante, mal construida, como é na verdade a zona euro, o mal é a dívida e esta é o resultado de uma gestão desenvolta e nada cuidadosa das finanças públicas. Acumulado ao longo dos anos, a situação desacredita a moeda: mina a confiança em toda a zona euro.
A sanção existe para que isso continue assim. Ela deve ser pesada para retirar ao pecador o desejo de começar de novo. Ela exprime-se através de um mecanismo maravilhoso, disse o chefe do Bundesbank, Jens Weidmann: através das taxas de juros – a punição pelos mercados.
O New York Times relata as observações defendidas no mês passado pelo Presidente do “Buba” numa reunião em Berlim. “Seria fatal apagar completamente o impacto disciplinar das taxas de juros à alta,” avisava Weidmann, acrescentando: ” quando os estados começam a ter que pagar mais caro, cada vez mais caro, para obter um crédito de modo a poder cumprir seus prazos, ou seja, quando um estado precisa de um crédito de modo a poder refinanciar-se , então endividar-se torna-se muito menos atraente para eles.”
O primeiro passo na punição é a degradação pelas agências de rating. Segue-se depois um aumento das taxas de juro a que um Estado precisa de vender a sua dívida no mercado. Se está com muitas dificuldades, a remuneração solicitada pelo investidores para subscreverem os empréstimos do estado chega a atingir níveis insuportáveis: é o caso da Grécia, da Irlanda, de Portugal, que já não conseguem refinanciar-se indo aos mercados.
Se estiver um pouco melhor, um pouco mais solvável, um Estado encontra tomador para os seus títulos do tesouro mas sobretudos a custos tanto mais elevados quanto a sua dívida é pesada: a Espanha e a Itália devem pagar juros de mais de 6% para colocarem os seus empréstimos nos mercados. Estes países entram pois num círculo infernal: para garantir os pagamentos nas datas de vencimento das suas dívidas, têm necessidade de ir aos mercados levantar dinheiro, mas eles só o podem fazer a custos que virão aumentar ainda mais a sua dívida total.
Jens Weidmann conclui o seu sermão ao Ministro das Finanças: “A boa política fiscal deve ser recompensada através do baixo custo do crédito e a má política deve ser punida pelo mesmo meio.” Esta ginástica das taxas gratifica o bem e castiga o mal.
Por outras palavras, é tanto ao nível da moral como da memória do trauma deixado pela inflação na Alemanha do período dos anos 20 que Berlim se recusa a utilizar a arma que tem dado as suas provas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha: a monetarização da dívida.
Proprietário da rotativa de produzir notas o Banco Central pode comprar directamente e em quantidades infinitas os títulos de Tesouro emitidos por um estado em dificuldade. O Banco Central pesa também sobre as taxas de obrigações do Estado e leva a que estas possam ficar níveis suportáveis.
Mas, diz o chefe do ‘Bundesbank’, esta é uma prática duplamente condenável: primeiro, é inflacionista; em seguida torna-se um incentivo a fazer mais dívida porque modera a sanção (o aumento das taxas de juro). Visto de Berlim, a crise do euro só pode ter como remédio: a austeridade orçamental para pagar as dívidas.
Assim, está fora de questão forçar o Banco Central Europeu (BCE), a fazer o que os seus estatutos proíbem: monetarizar a dívida; mas, ainda aqui, a proibição não é baseada em considerações económicas. A proibição não é uma questão de ordem económica mas sim uma questão de ordem política e moral. A renovação do patriotismo alemão passa pela exaltação do Estado de direito, pelo “patriotismo da Constituição”, o respeito pela Lei – neste caso, os textos fundadores do BCE.
É por isso que Jens Weidmann afirma ainda : “não se conseguirá certamente ultrapassar a actual crise de confiança violando a lei. A Europa não é apenas uma moeda única, é também um respeito comum pelo Estado de direito. (…) É necessário ter cuidado, na procura de uma solução para a crise da dívida em não dar a impressão de que estamos a pisar estes valores. “
É por resta razão que Berlim se recusa a desempenhar um papel mais activo no BCE e a aumentar a solidariedade financeira entre os países da zona euro. E propõe-se resolver a crise pela entrada em funcionamento de regras do Tratado de uma rigorosa disciplina orçamental. E não contempla sequer o apuramento d as dívidas dos membros da União que não seja através da única forma por Berlim admissível: a austeridade.
Precisão final: os Estados Unidos e uma massa crítica de economistas consideram que a receita alemã levará a uma terrível recessão – da qual o euro não conseguirá recuperar.
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[1] Alain Frachon, Le Monde, 22.12.2011.
[2] No entanto, “a dialéctica do pecado e da sua expiação” não é realmente um conceito do protestantismo, em todo o caso do protestantismo reformado ou do protestantismo luterano. Este conceito faria parte da dialéctica do pecado e da graça. É verdade que esta dialéctica se abre sobre uma ética da responsabilidade pessoal, mas o pecado não apela à expiação uma vez que Deus perdoa (pela graça). O pecado tem , no entanto, consequências concretas, ele provoca a infelicidade.
Georges Vignaux, 2011
http://reperesetfragments.com/2011/12/27/dieu-et-la-crise-de-leuro/
International|Chronique
Et Dieu, dans la crise de l’euro?
Artigo aparecido na edição de 23.12.11
