Viva o povo brasileiro
Os “irmãos do outro lado do mar” beneficiavam de uma imagem positiva: havia o Jorge Amado na literatura, “O Meu Pé de Laranja Lima” na televisão, a bossa nova na telefonia, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Maria Betânia… Aprendíamos o “Pardalzinho” na escola e, não obstante as proibições, líamos às vezes o “Tio Patinhas” que, ameaçavam os pais, nos tornaria idiotas mas, sabíamos nós melhor do que eles, não merecia tal alarme.
Esta imagem deteriorou-se um tanto com as telenovelas. A primeira, “Gabriela, Cravo e Canela”, metia exotismo e linguagem castiça, coronéis, jagunços, cafejestes, a Sónia Braga, uns cafunés pelo meio, quilo e meio de cenas cómicas, duas colheres de feminismo, perlimpimpins de crítica social… Portugal atravessava o pós-25 de abril, o povo aderiu sem restrições, os intelectuais improvisaram desculpas e as miúdas cortaram o cabelo “à Malvina”. As posteriores telenovelas não passavam de melodrama. Começámos a ouvir:
– Isso é português?!
Fiz a seguir uma viagem pelo Brasil. Descobri um país com muitos analfabetos e poucas livrarias. Com violência urbana: um branco da classe média não podia deambular – a pé – sem ser agredido. Com demasiada poluição: eu apontava a espuma amarela, os meus interlocutores exclamavam: isso é o mar! Com diferenças abissais; pessoas mais descarnadas, miséria mais extrema do que na Índia. Nunca me senti tão europeia como no Brasil e, quando regressei a França, quando voltava a Portugal, não conseguia aderir aos estereótipos que corriam: a alegria, o hedonismo, a fraternidade, a descontração dos brasileiros.
A certa altura percebi que em França a imagem mudava: os homossexuais que se prostituíam no Bosque de Boulogne vinham do Brasil. E depois fui acompanhando em Portugal as diferentes fases. Primeira: apareceram os criadores brasileiros e com eles um português esquisito na publicidade. Segunda: vieram os dentistas, criticados pela Ordem dos Médicos; os portugueses apreciavam os preços e os serviços. Terceira: chegaram os imigrantes pobres. Esta fase culminou com a manifestação das “mães” trasmontanas exigindo a expulsão das brasileiras que enchiam as “casas de alterne”: as damas “cheirosinhas” (como estas se qualificavam). Agora, em Lisboa, no bairro onde vivo, o brasileiro de chinelo no pé dispensa o passaporte, tal como a jovem casada com o português de sessenta anos – este tão rude aliás como ela. Muitos brasileiros são empregados das obras, empregadas domésticas, empregados de café, mas vêm de um Brasil onde – dizem eles – por cinquenta euros se manda matar um inimigo. Surgiu a imagem do drogado, do delinquente… Do brasileiro capaz de tudo. Do que busca a falha no sistema social: desencadeando restrições para todos os utentes. Do que, vivendo com subsídios ou práticas ilegais, faz todas as noites festas, impedindo os vizinhos – que trabalham – de descansar. Em contrapartida alguns brasileiros têm dois empregos, numerosos aceitam tarefas que os portugueses, com ou sem crise, não querem desempenhar, outros conseguiram criar empresas; não incomodam o quarteirão e por conseguinte ninguém repara neles.
O que valem estas imagens? Os brasileiros, como os portugueses, como os franceses, não são estereótipos: são indivíduos. Cada caso é único. Não costumo olhar para o rancho pois nada de conclusivo distingo. Todavia agora – de súbito – saem multidões verdes e amarelas dos nossos ecrãs. Enchem-nos a casa e a cabeça… Quem são os que vemos protestar contra despesas sumptuárias – isto recorda-me qualquer coisa – e reclamar mais para a saúde, a educação, os transportes, o urbanismo?… Haverá um povo capaz de resistir à receita romana – panemcircensesque – Pão e Distrações? Os políticos detêm o poder, conhecem as artimanhas, controlam os meios de comunicação, dominam o sistema eleitoral: não largarão qualquer privilégio. E não renunciam à corrupção. Mas esta luta – só por si – dignifica o povo brasileiro.
