“PALAVRAS MAL DITAS” OU “PALAVRAS MALDITAS”? – 4 – por Álvaro José Ferreira
BALADA DO DESESPERO
Porque nasceste, vives;
Porque vivias, cresceste;
Porque cresceste, tiveste
A sorte que não previas;
Porque estudaste, aprendeste
As coisas de se saber,
E outras, inúteis de sobra
As coisas para se esquecer
As coisas para se esquecer.
Porque cumpriste, fizeste
O que mandaram fazer
Os padres, o pai, a mãe
O professor, o mais velho
O sargento, o comandante
O senhorio, a porteira
O ministro, o governante
O cobrador, o pedreiro
– Esteja cá na terça-feira! –
O bancário, o carpinteiro
O homem do gás, da luz
Da água, do pão, do leite
E acabaste cumprindo
Cumprindo tudo a preceito.
Encomendaste gravatas
Fatos novos e sapatos
Dedicaste-te ao chinquilho
Ou, se for noutro horizonte,
Talvez ao king, à canasta
Fizeste um filho, e outro filho
E nas horas livres, às vezes,
Em havendo futebol
Sentiste-te homem de tasca
Sentiste que eras uma besta
E puseste um cachecol
Mas segunda-feira cedo
Bem cedo, bem matinal
De novo te achaste pronto
Partindo para o mesmo emprego
Comprando o mesmo jornal.
E sempre, todos os dias
Cobiçaste a secretária
Do teu chefe, o Sr. Lima
Cobiçaste o horário do Saavedra
E a mini-saia da Lina
Ah! Para à noite, corpo cansado
Tomares o trinta e sete
O carrito, a bicicleta
E regressares, esgotado
Do trabalho e da ausência
Para te sentires confortado
Da solidão na indolência
De um canapé, recostado
Aquecedor, televisão
Tudo muito bem ligado
Pijama posto, chinelos
Conforto que traz descanso
E uma certa sonolência
Concordância e anuência.
Nas férias redecoraste-te
Bizarro na concepção
E arriscaste um figurino
Compraste um chapéu assim
Foste às compras de calção
E sorriste aos teus parceiros
De barraquinha na praia
E à senhora vizinha
Que nunca tirou a saia
Agosto inteiro com saia
Calculem só os senhores
Agosto inteiro com saia.
E aturaste a pequenada
Brigas, birras, fraldas, caca
Apreciaste o traseiro
Da amiga do teu amigo
Rechonchudinha, mulata
Quase nua, fio dental
– Já é preciso ter lata!
Por decoro, viras a cara
Não vão os putos ver isto;
Assobias, disfarçando
Espalhas óleo pelas espaldas
Enquanto a tua mulher
Um pouco desconfiada
Desabrida e despeitada
Te exigiu:
– Ó Silva! Tu muda as fraldas!
Depois à noite, porreiro
Caminhaste na avenida
Muito fresco e prazenteiro
Com a pança bem comida
Às vezes um frango inteiro
(Que não és homem dos fracos
Dos fracos não reza a História
E o Silva é alguém na vida
Homem de bem, de memória
Contabilista da firma
Tal e tal, Rua da Glória
– Sempre que quiser já sabe
Uma casa às suas ordens…)
E depois, pelo caminho
Regressas, gritas, dás ordens
Recuas, gritas, dás ordens
E ameaças o outro
Que guinou para este lado
– Se calhar querias, coitado!
E o camião chateado
De se ver ultrapassado
– Viste aquele? Tu viste aquele?
Regressas mais bronzeado
Mais gordo, talvez mais magro
Mais velho um mês e, quem sabe?,
Mais cansado que à partida.
Regressas ao rame-rame
Enquanto suspirarás
Todo o ano, por um mês
Todo o mês, por outra vida
Toda a vida, por viver
Algo que te valha a pena
Ou então, tu já nem sentes
E mentes-te enquanto mentes
E mentes e já não sentes
E já não sentes, mas mentes.
Ano a ano te esfolharam
Te roubaram prestações
Letras, fantasmas, viagens
Cromos, selos, colecções
Hálito fresco e saudável
Graxa, sabão, brilhantina.
Mudaste a cor do salão
De azul para um verde marinho
Do castanho para um branquinho
E depois, por fim, como a Lurdinhas,
Para uma espécie de lilás
– O que é que tu achas, Gertrudes, meu amor?
– Eu escolhia… mais clarinho…
E ao fim de tanto trocares
Baralhares e confundires
Acabas por rebentar
– Evitando, pelo menos
Teres enfim de destruir
Tudo o que creste ser belo
Ser lindo, ser valioso…
Acabaste confundindo
Viver com reeducar-te
Passaste o tempo calcando
O que podias ter sido tu
Nu, inteiro e pessoal
Pois que assim, afinal
Foste um entre milhões
Que de morte natural
Tem uma cruz, lega uns tostões
E cai podre numa cova,
No funeral.
Não te ficou nem um gesto
Que não façam mais milhares
Não te ficou nem um risco
Um grito para espalhares;
Não te ficou nem uma sobra
Uma intenção, uma diferença
Isto é caso p’ra dizer
Parvo, incapaz e castrado
Rastejante e cumpridor
Rastejante e tão honrado
Foste um escravo do dever
Sem glória, nem recompensa.
Repousa em paz, meu rapaz,
Que a cova te seja leve
Como a vida te foi breve,
Oca e breve, sem ofensa.