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A CANETA MÁGICA – AINDA GRAMSCI – por Carlos Loures

 O artigo anterior, publicado na passada sexta-feira,  foi afectado pelo problema técnico que nos prejudicou as edições durante três dias, saiu ainda na fase de rascunho, sem revisão, com numerosas “gralhas” e faltas de texto. Vou repetir o essencial e completar o raciocínio que tentei estabelecer.

Nessa artigo lembrava que Gramsci em Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura explica como cada grupo social organiza a formação de intelectuais em função das suas necessidades específicas, dando como exemplo a Idade Média, período de grandes assimetrias sociais. A “justificação” religiosa dessa injustiça era fundamental para manter camponeses e artífices em laboração, permitindo que a aristocracia vivesse tranquilamente e gozasse dos seus privilégios. Os eclesiásticos explicavam a «ordem natural das coisas». Sem eles, camponeses e artífices até poderiam pensar em revoltar-se! Gramsci coloca os médicos, pois as pestes eram uma ameaça constante. A carreira religiosa ou o estudo da Medicina, constituíam forma quase única de equiparação à aristocracia fundiária. Pedro Julião (ou Pedro Hispano), filho de um médico de Lisboa, seguiu as duas carreiras, estudando na escola catedralícia da Sé de Lisboa e depois em universidades europeias, foi médico e eclesiástico, vindo a ser o papa João XXI.

Referia depois o facto de, em plena democracia e aproveitando o espírito de tolerância para «liberdades» intoleráveis que o pensamento único vais impondo, termos no Portugal de hoje uma estrutura social dominada pelos interesses económicos de uma minoria que impõe as suas prioridades de acumulação rápida e fraudulenta de riqueza.

Uma oligarquia onde, como no mundo feudal, a política de casamentos desempenha um papel fulcral. E citava um texto de um professor que, ao ajudar o filho num trabalho de História, se deu conta da teia que no pós 25 de Abril os «rapazes» dos partidos do bloco central teceram, casando as filhas de uns com os filhos de outros (e dava uma série de curiosos exemplos que não vou repetir. Acrescento que, sempre observando as regras do politicamente correcto, um exemplo futuro terá de contemplar a possibilidade de o filho do ministro A casar com o filho do administrador do banco B e a filha do secretário de Estado X se consorciar com a filha do financeiro Y…

A questão final era sobre se as tricas em torno das licenciaturas de Relvas ou de Sócrates terão tocado o âmago da questão. Tanto um como outro não teriam tido problemas em obter de forma regular os diplomas que lhes vieram pela porta do cavalo. Relvas com uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento seria mais honesto e um Sócrates se tivesse ido às aulas de inglês teria mentido menos? Um Ensino Superior que, a par das Ciências, difundisse os princípios da Ética e do respeito pelos direitos da maiorias com o mesmo empenho com que a sociedade medieval respeitava o direito das minorias, talvez fosse mais útil.

Os casos de Relvas e de Sócrates são exemplos menores – afinal não temos um supremo magistrado da Nação que, desprezando ostensivamente a cultura, se mantém na área do poder há quase quatro décadas. Iletrado, de raciocínio trôpego, tão democrata que até com a polícia política da ditadura colaborou? Mas colaborou «por motivos académicos», ou seja, para obter o diploma que lhe permite, sendo uma negação viva do esforço intelectual e do sentido de ética, ocupar um cargo que só devia ser acessível a alguém cultural e moralmente superior. O primeiro presidente da República, Teófilo Braga, correspondia plenamente a essa exigência – um século depois é o que se vê. Mas o sistema “democrático” é assim que funciona – maiorias, acéfalas e condicionadas pela comunicação social ao serviço dos interesses oligárquicos, legitimam a violação do espírito democrático e, tal como na Idade Média, os interesses de uma aristocracia prevaleçam sobre os interesses daqueles que produzem. A Universidade ao mesmo tempo que forma médicos, engenheiros, biólogos… indispensáveis à comunidade, fabrica “intelectuais” indispensáveis ao  tipo de sociedade em que vivemos. Com a mesmíssima função que os clérigos tinham – manter os barões no poleiro e os trabalhadores trabalhando.

A escola catedralícia é substituída pela militância numa das jotas. E enquanto os padres, às vezes, produziam milagres estes apóstolos produzem fait-divers.

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