A CANETA MÁGICA – DE GRAMSCI A RELVAS, PASSANDO POR SÓCRATES – por Carlos Loures

Antonio Gramsci, em Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura, explica-nos, com o rigor que lhe era peculiar, como cada grupo social dominante organiza a formação de intelectuais em função das suas necessidades específicas; ou seja, são as necessidades, de carácter social ou de produção, que determinam o tipo de especialização mais requerido.

A Idade Média é bem esclarecedora – numa estrutura social enformada pela Igreja,  os eclesiásticos eram os intelectuais adequados. Num plano secundário, Gramsci coloca os médicos pelo prestígio que a cura de doenças implicava. Muitos clérigos e médicos eram de origem campesina. Embora frequentemente depreciados pelos barões feudais, que consideravam a cultura como coisa efeminada, a ascensão de camponeses tinha na carreira eclesiástica forma quase única de equiparação à aristocracia fundiária. A batina, o crucifixo, o breviário, eram bilhetes de entrada no círculo do poder.

A actual estrutura social portuguesa, muito dominada pelo mundo das finanças, assenta num círculo fechado por muralhas cimentadas por interesses comuns, reforçadas por uma política de casamentos á boa maneira medieval. Há tempos atrás, circulou na internet um trabalho muito interessante escrita por José Ricardo Costa. Ao ajudar o filho num teste de História, recordou que na Idade Média, «a nobreza vivia fechada sobre si própria», usufruindo dos privilégios que criava, os nobres «relacionavam-se e casavam-se entre si, frequentavam os mesmos castelos, participavam nas mesmas festas e banquetes». E concluiu que em Portugal, há décadas dominado pelo PS e pelo PSD, se verifica uma feudalização da sociedade e uma organização cada vez mais endogâmica. Dava como exemplo o casamento entre a filha de Dias Loureiro, amigo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues, amigo de Paulo Pedroso, amigo de Edite Estrela que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, licenciado pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, amigo de José Sócrates… A cadeia de acasos citados era mais extensa. Mas os exemplos que refiro parecem-me suficientes para ilustrar a tese da endogamia. A política de casamentos semelhante à praticada pela nobreza feudal praticava, faz que a elite governante, seja quais forem os resultados eleitorais, nunca mude no que é essencial – mudam e trocam-se alguns nomes, mas a nova aristocracia vai cimentando o seu poder.

A discussão em torno da licenciatura de Miguel Relvas teve o seu quê de estéril. Se tivesse ido às aulas seria muito mais sábio? Afinal, muitas licenciaturas regulares redundam num grau de conhecimento muito modesto. O objectivo de Relvas não era o saber. O objectivo de Relvas era obter um diploma que lhe permitisse fazer parte da elite política..   Tal como um sacerdote que nunca tivesse adquirido conhecimentos teológicos e mesmo assim recebesse a prima tonsura. O que já na Idade Moderna, e com uma mentalidade aberta ao pragmatismo mercantil, foi moeda corrente. César Bórgia, sem carreira religiosa, foi nomeado cardeal – o pai era o papa Alexandre VI…

O mal  maior não está nem nos créditos que Relvas terá obtido fraudulentamente, nem nas aulas de inglês falsamente averbadas a Sócrates – está num Ensino que não tem como fim a aquisição de saber, mas a obtenção de um passe para outro patamar social. Muito do nosso Ensino Superior está orientado nesse sentido.

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