Site icon A Viagem dos Argonautas

O MEDO*, POR ANDRÉ BRUN

(1881 - 1926)

(1881 – 1926)
(1881 – 1926)

 

III

Os valentes guardam-se para ter medo nas ocasiões. Não faltam – as ocasiões, entenda-se. Normalmente, o valente, convencido como está, cônscia ou inconscientemente, de que tudo depende do Azar, pensa apenas que pode morrer no momento em que um porco lhe rebenta a trinta metros dos cotovelos e a choradeira dos estilhaços lhe canta em torno das orelhas. Também deita contas à vida no momento em que um aeroplano de bombardeamento, que paira a trezentos e cinquenta pés na vertical, pára de súbito o motor. Cisma em várias disposições de carácter grave quando o nomeiam para um raid a casa de Fritz. Fora disso dorme se pode, fuma se tem tabaco, lê ou ouve ler os jornais atrasados chegados nesse dia, e entretém-se conforme as suas habilidades, rimando versos, escrevendo crónicas, desenhando mapas, arranjando castões de bengala, saboreando romances, dizendo mal do general ou do capitão, ou não fazendo nada.

Não altera os seus itinerários. Gira pela trincha e descasca o seu serviço como se nada fosse. Mira os astros, aventa previsões meteorológicas sempre erradas e tem a miúdo uma cousa para fazer no dia seguinte, o que é um excelente sintoma de serenidade de espírito. Às vezes traz o seu idílio organizado cá fora, e a trincheira faz-lhe um grande transtorno por não poder falar ao namoro.

O valente é, em resumo, aquele que, despidas as curiosidades e as incertezas das primeiras horas, se habituou a esta vida que tem seu quê de charco de rãs, de buraco de toupeiras, de tremor de terra, de queijo amanteigado, de cuja miséria moral nem todos podem entender a grandeza. Há quem consiga ser alegre e ter o espírito preso a pequenos nadas cheios de encanto. Há mesmo casos estupendos: – o do Madruga, aquele soldado da primeira, que dorme sempre nas covas que os outros desdenham e que, quando vai para as patrulhas de escuta na terra de ninguém, tem de ser acordado ao bofetão porque chega lá, instala-se numa cratera pequena, põe a espingarda para o lado e, puxando o impermeável para o nariz, só lhe falta soprar a luz antes de adormecer. Seria uma barbaridade acordá-lo, senão dependesse da sua vigilância a segurança da linha. Não se faz ideia da expressão com que ele responde a quem o agride pela sua sonolência incurável e lhe mostra os perigos a que se arrisca: – «Ora! Se calhar, não tinha de calhar.» Com efeito. Se tiver de calhar, que adianta ter medo? E, se não tiver de calhar, para que serve tê-lo?

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

Exit mobile version