A POESIA, A LIBERDADE E O AMOR – quadro de Dorindo Carvalho inspirado no poema de Adolfo Casais Monteiro


Passai, asas fulgurantcs da noite…
Deixai cair o orvalho do desejo
sobre os corpos prostrados de insatisfação,
semeai os sonhos impossíveis
para amanhã, no despertar de cada um,
tremeluzir ainda o calor do que não foi
e os sonhos pareceram memória de corpos abraçados…
Vinde, fantasmas das formas impossíveis,
dizei-nos que é verdade o amor,
fingi-nos a cena ideal do Paraíso,
passai, asas da noite, sombras do que somos,
asas vitoriosas do nosso corpo liberto…
Mas em vão os fantasmas acenam,
em vão a imaginação corre e transfigura…
Os homens ficam sonhando e contemplando as sombras,
mortos na paz medíocre do seu frio,
medrosos de lerem nos seus traços
a verdadeira face do possível.
Em vão os poetas cantam o amor,
que nem eles próprios sabem ler a música dos seus cantos,
nem eles próprios ouvem palpitar no ritmo
em que se embalam
o mar da própria vida nos búzios dos ouvidos.
Para nada sopram os sonhos visões à alma adormecida
— a grandeza não cabe nas formas frustes da comédia,
nenhum vento sopra na sala sem janelas
e as aves da noite acenam em vão, lá fora,
os sinais luminosos da outra aurora.