POESIA AO AMANHECER – 215 – por Manuel Simões

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ADOLFO CASAIS MONTEIRO

(1908 – 1972)

“EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS”

(fragmento)

Eu falo das casas e dos homens,

dos vivos e dos mortos:

do que  passa e não volta nunca mais…

Não me venham dizer que estava materialmente previsto,

ah, não me venham com teorias!

Eu vejo a desolação e a fome,

as angústias sem nome,

os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

Eu sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,

uma insignificante parcela da tragédia,

eu, se visse, não acreditava.

Se visse, dava em louco ou em profeta,

dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,

– mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.

Olho num pasmo sem limites,

e fico sem palavras,

na dor de serem homens que fizeram tudo isto:

esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,

esta lama de sangue e alma,

de coisa e ser,

e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,

se o ódio sequer servirá para alguma coisa…

(…)

(de “Europa”)

Foi um dos animadores da revista “Presença”. Emigrou para o Brasil, onde veio a falecer. É notável a sua obra como ensaísta e crítico literário. Como poeta publicou, entre outros, os volumes “Poemas do Tempo Incerto” (1932), “Sempre e sem Fim” (1937), “Canto da nossa Agonia” (1941), “Versos” (1944), “Europa” (1946), “Simples Canções da Terra” (1948), “Voo sem Pássaro dentro” (1954).

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