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RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O extravagante excedente alemão

 Daniel Cohen L’extravagant excédent allemandLE MONDE | 18.11.2013

Ao apresentar as suas previsões económicas, a Comissão Europeia colocou em destaque um valor  extraordinário que  alguns dirão ser  extravagante: o saldo da  balança de pagamentos alemãs. Em 2012 e 2013, ele atingiu o nível recorde de 7% do produto interno bruto. Acima do valor limite de  6% exigido nos termos dos tratados, a Comissão tem de  iniciar um processo de excedente excessivo! Perguntamo-com com alguma ansiedade o que é  que o Comissário Olli Rehn, agora  bem conhecido pelos seus apelos à ordem para com  os países deficitários, poderá   obter do governo alemão nesta  matéria. É mais fácil culpar a cigarra do que atacar a formiga ….

O excedente alemão agora é hoje o  maior do mundo, mesmo à frente da China, muito à  frente da Arábia Saudita. O Tesouro dos EUA emitiu, no início de Novembro, um relatório muito severo, acusando a Alemanha de prejudicar o crescimento europeu. O relatório adopta um raciocínio que tem estado  desde há muito no cerne dos debates sobre a organização do sistema monetário internacional. Keynes, principalmente ele,  tinha feito esta observação, na conferência de Bretton Woods em 1944: se se espera dos países em défice que ajustem sem nada exigir em troca  dos países que estão em excedente  então o resultado é a deflação.

Ironicamente, Keynes acreditava que uma moeda supranacional resolveria o problema. Quando dois países partilham a mesma moeda, explicou ele, os países deficitários são  automaticamente refinanciados pelo país em excedente . Na verdade é o que está a acontecer,  em parte, dentro da área do euro. Os bancos alemães depositam a sua liquidez em excedente  no Banco Central Europeu (BCE), liquidez esta que, através do sistema de pagamento conhecido sob o nome do TARGET2, é depois  empresta aos  países do Sul. Mas a reciclagem é muito mais frágil do que o que era previsto por Keynes. Os bancos espanhóis, por exemplo, na verdade são refinanciados, mas, por causa do risco soberano, emprestam   às suas  PME a taxas bem superiores aquelas  de que dispõem as  PME alemãs.

Os maus resultados no terceiro trimestre na zona euro (0,1% de crescimento) mostra que esta não está fora do problema, é uma ilustração do exposto por Keynes.  Agora, a inflação é de 0,7%, bem longe da meta de 2%. Uma baixa taxa de inflação certamente tem uma vantagem a curto prazo: repõe  o poder de compra dos trabalhadores. O ano de 2013  traduzir-se-á assim, contra todas as expectativas,   num  aumento do poder de compra das famílias francesas (baixo). Mas excepto se somos  envolvidos   numa  uma espiral contínua à baixa,  este mecanismo atinge rapidamente os seus limites. Uma taxa de inflação demasiado baixa aumenta o peso da dívida, tanto dos Estados como das  empresas e torna também muito mais difícil a reposição das diferenças salariais entre os  países.

Como escapar ao  risco de uma espiral deflacionista ? Idealmente, se houvesse um botão para o fazer,  seria necessário que os salários  alemãs subissem  mais rapidamente   que os dos  outros  países  para corrigir as diferenças  de competitividade entre a Alemanha e o resto da zona euro. Esta proposta tem o dom de exasperar o Bundesbank, que rejeitou categoricamente a ideia. Não cabe à Alemanha colocar em perigo o seu modelo mas sim  aos outros países seguirem o seu exemplo.

Taxas negativas

“Não se pede ao  Bayern  para perder os seus jogos “, acrescenta também Wolfgang Schäuble, ministro alemão das finanças. Só que um país não é como uma empresa ou como uma equipa de futebol .  Num regime de taxa de câmbio flutuante, a moeda do país em  excedente aprecia-se  para desta maneira   corrigir os desequilíbrios sem que ninguém grite que isso é escandaloso . Num regime de taxa de câmbio fixa, deverão  ser os preços e salários que se de ajustar para corrigir o referido desequilíbrio comercial. David Hume no século XVIII já fazia    o seguinte raciocínio: um país excedentário  sujeita-se a um aumento na sua taxa de  inflação  o que acaba por  anular a sua vantagem. Hume baseou-se na ideia de que o ouro proveniente  dos países em situação  excedentária  provocaria este caminho para o equilíbrio. A sua  ideia central permanece  justa : um páis mais produtivo do que um outro país ganha certamente mais, mas isso condu-lo a gastar  mais, não a entesourar os seus excedentes.

O processo de convergência está, pelo menos parcialmente,  agora a funcionar. Os salários alemães  crescem mais rapidamente do que em outros lugares, e da grande coligação entre Angela Merkel e o SPD deve vir  a introduzir-se  um salário mínimo. Mas o  processo  está a marcar passo : a variação  salarial tem sido abaixo de 2% entre Julho de 2012 e Julho de 2013, contra 3% no ano anterior . A crise chama a crise… É aqui que o BCE deve intervir no debate. Como é que este pode atingir a  sua meta de inflação? A baixa das  taxas de 0,25% anunciada na  quinta-feira, 7 de Novembro é uma coisa boa, mas deve-se  ir mais longe. Parece-me difícil oferecer taxas negativas, mas ainda é possível, por exemplo, tributar  o excesso das  reservas excedentárias dos bancos. Poder-se-ia   também actuar directamente no crédito por uma política que vise  corrigir a diferença nas taxa de juros que se alargou  entre os mutuários privados da zona (as PME de Espanha versus as PME alemãs).

Corrigir   o enviesamento deflacionário que ameaça a Europa necessita de um diagnóstico claro e de medidas resolutas. Isso também esta a razão pela qual a ida de Olli Rehn a Berlim deve ser politicamente e intelectualmente  apoiada…

dcohen.lemonde@gmail.com

Daniel Cohen L’extravagant excédent allemandLE MONDE | 18.11.2013

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