Começa hoje o Inverno. No hemisfério Norte, teremos hoje a noite mais longa do ano. Para quem esteja no hemisfério Sul, começa o Verão e será o dia mais longo do ano. Porém, no sentido metafórico, diríamos que o nosso Inverno começou há muito tempo e que a noite caiu há muito sobre as nossas cabeças. Não que antes houvesse uma metafórica Primavera com passarinhos a chilrear…
Vai fazer quarenta anos no próximo Abril, dissemos convictamente que a “longa noite do fascismo” terminara. De facto, como que por milagre, os fascistas desapareceram de um dia para o outro e, de repente, neste país todos eram democratas. De várias maneiras, mas todos eram democratas e todos invocavam a democracia, mesmo quando defendiam as mais abstrusas ideias ou tentavam impor princípios de duvidosa limpidez.
A longa noite do fascismo talvez tenha terminado, pois não é crível que alguém queira ressuscitar a parafernália de símbolos com que a assunção de uma filosofia tortuosa era exibida. Os neo-nazismos e neo-fascismos são hoje coisa de atrasados mentais e não faltará muito para que não haja parques temáticos reconstituindo essas hediondas formas de pesadelo. Mas o fascismo foi apenas a forma que a exploração assumiu num dado momento histórico, a pantomima que pretendeu fundir o socialismo com a sua antítese. E uma das fragilidades por onde se infiltrou, foi na inconsistência tecida de contradições, que a democracia apresentava.
A democracia era, naquele primeiro quarto do século XX, uma exibição de desigualdades, uma escada feita pelos corpos dos menos aptos por onde trepavam os mais hábeis – Mussolini e Hitler aproveitaram amplamente as contradições dos sistemas ditos democráticos para implantarem as suas operetas sinistras. Aqui pela nossa Península, um beirão e um galego, fizeram as coisas de outra maneira e conseguiram sobreviver por três décadas aos seus congéneres italiano e germânico.
Há muitas formas de a noite se apresentar. Hoje teremos a noite mais longa. Outros terão o dia mais longo. Para uns começa o Verão, para outros começa o Inverno. Para todos, a exploração continua. Nem a Norte, nem a Sul se poderá dizer como na fala da primeira cena do primeiro acto de Ricardo III: O Inverno do nosso descontentamento transformou-se agora num glorioso Verão (…), e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas na mais profunda zona do oceano.
As nuvens aí estão. E a esperança que tivemos numa eterna Primavera, essas sim, estão prisioneiras no profundo oceano da estúpida crueldade de quem faz da opressão e do roubo uma profissão de fé.