Diário de bordo de 22 de Dezembro de 2011

Hoje é o primeiro dia de Inverno no hemisfério Norte,.

 

Citando a conhecida fala do Ricardo III, de Shakespeare, diríamos que “o Inverno do nosso descontentamento” já começou há meses e que, com os cortes de subsídios de Natal e de Férias, o Inverno vai durar. Não teremos Primavera nem Verão. O inverno do nosso descontentamento vai ser prolongado. Talvez Passos Coelho aconselhe agora os que não vão ter dinheiro para alimentos e medicamentos, a hibernar.

 

Estamos a ser governados, se é que o termo faz sentido, por gente estúpida e sem escrúpulos. Executivos que dificilmente singrariam em empresas privadas bem geridas, desenvolvem como ministros toda a sua arrogante incompetência, desdobrando-se em medidas que consideram corajosas e que apenas se traduzem neste clima de terrorismo social que estamos a viver. Começa a pairar um sentimento generalizado de que estamos à beira do colapso, a chegar ao ponto em que a frágil cortina que nos separa do caos social se rasgará.

 

Esse sentimento é, em parte, favorável ao governo, cujas medidas de agressão serão recebidas como coisa já prevista. Mas não sei se os senhores que estão neste executivo se aperceberam de uma coisa. Esticar demasiado uma corda acaba por a partir. Salazar e Caetano não se atreveram a fazer o que este pomposo imbecil nos está a fazer. Porquê? Eram ditadores e temiam uma rebelião. Estes são democratas e em democracia não há rebeliões – há eleições. Estas medidas de uma inaudita agressividade, que vão lançar na miséria muitos milhares de pessoas e aumentar exponencialmente a marginalidade, provocarão a queda deste executivo e a subida ao poder dos seus clones  (ditos socialistas). Até agora o jogo tem sido assim. Estamos nas mãos de uma oligarquia composta por dois bandos que se alternam no poleiro. O que tem isto a ver com a Democracia?

 

Estamos indignados. Mas a indignação não chega. O Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro foi aguentando a canga e as albardas até que as sacudiu.

 

A Constituição, no seu artigo 21º, confere-nos o Direito de resistência. Diz assim:

 

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

 

Por falar em força – e as Forças Armadas? Precisamos de um novo 25 de Abril, mesmo que seja noutro mês, mesmo que seja no Inverno.

 

Quando começa o Ricardo III, na primeira cena do primeiro acto, a fala de Ricardo, ainda duque de Gloucester é assim:

 

“O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por este sol (…), e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano”.

 

Que bom seria podermos em breve dizer o mesmo.

 

Leave a Reply