Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
UMA HISTÓRIA SOBRE LONDRES, SOBRE A GENTE NORMAL, SOBRE A GENTE BEM ESPECIAL
Nicholas Shaxson
Vanity Fair
Abril de 2013
Disponível em http://www.vanityfair.com/society/2013/04/mysterious-residents-one-hyde-park-london
PARTE VI
(CONTINUAÇÃO)
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Uma casa longe de casa
Quem são os proprietários em One Hyde Park? Um apartamento de US $39,5 milhões, abertamente, está registado em nome de Anar Aitzhanova: esta pode ser uma cantora cazaque, que não responde a perguntas de Vanity Fair. Outras duas, para um valor global de $49,8 milhões, são propriedade conjunta de Irina Viktorovna Kharitonina e de Viktor Kharitonin. A última é provável que seja co-proprietária do maior grupo farmacêutico na Rússia, embora os representantes do casal também não tenham respondido às nossas questões. Um outro apartamento está registado em nome de Rory Carvill, um corretor de seguros britânico; um outro está registado em nome de Bassim Haidar, que aparece como sendo o fundador e director executivo no Channel IT, uma empresa de telecomunicações com sede na Nigéria, e que também não respondeu às perguntas. Um apartamento de US $35,5 milhões está registado em nome de Karmen Pretel-Martines, que não pode ser identificada, como é o caso de um comprador registado em Pequim, chamado Hung Kei, que pagou US $11,6 milhões.
Um outro comprador, que comprou e juntou depois dois apartamentos num valor total de US $215,9 milhões, é Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia, com uma estimativa do seu património pessoal líquido em cerca de US $16 mil milhões. Ele tem interesses nas indústrias extractivas em carvão, minérios, produção de energia eléctrica, banca, seguros, telecomunicações e nos media e tem sido um grande beneficiário dos leilões de privatizações do seu país natal. Um porta-voz da holding de Akhmetov, System Capital Management, disse no ano passado que a compra foi um “investimento de carteira”; os registos ingleses sobre herdades dizem-nos que foi uma transacção realizada através de uma empresa B.V.I., Water Property Holdings Ltd…
Outro proprietário é Vladimir Kim, que preside em Londres a um verdadeiro gigante na exploração do cobre, a Kazakhmys P.L.C., uma empresa no Casaquistão. Kim foi, outrora, uma alta autoridade do partido político que está por detrás do presidente do Casaquistão. Nursultan Nazarbayev, que muitas vezes tem sido acusado de graves violações dos direitos humanos e da liberdade de imprensa. O Sheikh Mohammed Saud Sultan Al Qasimi, que dirige as Finanças do governo de Sharjah, comprou um apartamento por US $18.1 milhões, e há pelo menos um apartamento em nome do magnata do imobiliário russo Vladislav Doronin, que namora com a modelo Naomi Campbell.
Um apartamento de US $11,7 milhões foi comprado por Galina Weber, uma accionista muito importante da empresa de gaz russo, a Itera. Dois apartamentos, com um valor global de $43,7 milhões, são propriedade do Professor Wong Wen Young, com moradas em Londres e em Taipé. Isto é, presumivelmente, o empresário multi-milionário Winston Wong Wen Young nascido em Taiwan e que tem usufruído de um relacionamento muito próximo em matéria de negócios com Jiang Mianheng, o filho do ex-presidente chinês Jiang Zemin. Um apartamento de US $12 milhões foi comprado em conjunto por Desmond Lim Siew Choon e Tan Kewi Yong, um casal multimilionário da Malásia com um império grande em propriedades. Em Setembro passado a empresa imobiliária Jones Lang LaSalle estima que quase um sexto de todos os compradores recentes da novas habitações no centro de Londres são da Malásia — e apenas 19 por cento britânicos. As grandes fortunas estão actualmente a sair da Malásia antes das eleições já iminentes, que poderá ver a coligação no poder a ser eliminada por apanhada num enorme escândalo de corrupção e por isso deposta, o que aconteceria pela pela primeira vez desde a independência.
Sabe-se menos sobre todos os outros, mas pistas podem ser encontradas. Os documentos de registo predial para quatro apartamentos fornecem detalhados contactos com Alastair Tulloch, um advogado britânico sobre quem Hollingsworth disse que é conhecido nos círculos do oligarca russo como sendo “o novo Stephen Curtis” — uma referência dos russos ao advogado de Londres que morreu num misterioso acidente de helicóptero em 2004. Tulloch tem representado os interesses de Alexander Lebedev, um oligarca bancário que é dono do Evening Standard do London e de uma considerável parte da companhia aérea russa Aeroflot, entre outras holdings, e tem trabalhado estreitamente com o oligarca russo encarcerado Mikhail Khodorkovsky.
Os apartamentos comprados por empresas com nomes particularmente extravagantes como Shoolin Investments Ltd., Wondrous Holding and Finance Inc., e Smooth E Co. Ltd. Indicam que possivelmente estão na posse de asiáticos, o último registado em Bangkok, Tailândia. Outros nomes de empresas são mais impenetráveis. Uma está sediada nas ilhas Caimão, a Knightsbridge Holdings Ltd., registada em Ugland House — um edifício modesto, onde estão registadas algumas 20.000 empresas e que o Presidente Obama num seu discurso de 2009 disse que é “ou o maior edifício do mundo ou a maior vigarice tributária no mundo ” (O que Obama queria dizer é que não há verdadeiramente nenhuma actividade económica: é apenas uma entrada nos livros dos contabilistas.)
Tentar penetrar por baixo dos véus das grandes empresas atraídos por estes apartamentos é uma tarefa ingrata. Dos paraísos fiscais utilizados, a ilha de Man é provavelmente o mais próximo: é possível obter facilmente relatórios de empresa on-line abaixo dos US $2 a peça. Mas mesmo aqui, cada um de nós não vai longe. Tome então Rose of Sharon 4, proprietária de um apartamento no valor de US $10,2 milhões, um apartamento do quinto andar. Rose 4 estabeleceu-se na ilha de Man em 2010 com cinco directores de empresa e as suas acções pertenciam a duas entidades de nomes quase idênticos: Barclaytrust International Nominees (Isle of Man) Ltd. and Barclaytrust (Nominees) Isle of Man Ltd. Em Abril de 2012, as acções foram transferidas para uma entidade B.V.I. registada como “Prospect Nominees (BVI) Ltd,” e os cinco directores da ilha de Man foram substituídos por dois novos: Craig Williams, um B.V.I. especialista em insolvências e Kenneth Morgan, que trabalha para o HSBC na B.V.I. Ambos recusaram pedidos para mais informações.
Tais estruturas tipicamente combinam e articulam várias jurisdições: uma empresa da ilha de Man pode ser propriedade de uma empresa B.V.I., que pode, por seu lado, pertencer a um trust nas Bahamas, com trustees de outros lugares; ou ainda uma estrutura pode possuir uma conta na Suíça e assim por diante. Em cada passo dessa dança global sobre o que é de quem, as taxas são laminadas e o sigilo aprofunda-se mais e mais…
Na verdade, os registos de propriedade mostram que cinco apartamentos, para um combinado de 123 milhões, são propriedade de empresas sob o nome de Rose of Sharon, todas elas situadas na ilha de Man. Estas foram amplamente faladas por serem propriedade de Folorunsho Alakija, uma multimilionária da Nigéria, que é co-proprietária da Famfa Oil Ltd. (esforços para contactá-la foram infrutíferas.) De acordo com um perfil de risco do sector para a empresa, Famfa terá recebido 600.000 barris de petróleo por mês do gigante da Nigéria com campos de petróleo em águas profundas, Agbami, nos primeiros quatro meses de 2010, em parceria com a companhia de petróleo americana Chevron, num acordo de longo prazo. O relatório cita um departamento da Nigéria em recursos petrolíferos como dizendo que Alakija era “uma das designers favoritas de vestidos para a primeira-dama [nigeriana] ” e que a participação de Alakija na empresa Famfa era “uma recompensa para um amigo leal.” Forbes classificou o património líquido de Alakija em US $600 milhões, mas no ano passado África Ventures, uma revista de negócios, recalculou o seu património com base em informação pública em US $3,3 mil milhões, tornando-a mais rica do que a Oprah Winfrey.
(continua)
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Para ler a Parte V deste texto de Nicholas Shaxson, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

