Jacques Prévert, poeta e guionista francês, nasceu em 4 de Fevereiro de 1900 (morreu em 11 de Abril de 1977). O grande sucesso de Paroles, publicado em 1946, transformou-o num poeta com grande popularidade. Como guionista, trabalhou essencialmente com dois realizadores – Jean Renoir e Marcel Carné. É este escritor que Clara Castilho evoca no Livro & Livros de hoje.
Poeta ligado ao movimento surrealista, os usos e costumes da burguesia, o clero, a igreja foram os seus alvos favoritos… e quão actuais! Vale a pena mergulhar mais na sua obra! Fico ouvindo e dizendo as palavras, agora descobertas na minha memória – minha mãe era grande fã, tanto de Prévert, como de Ives Montand e o início da canção despertou a lembrança que desconhecia.
PADRE – NOSSO
Padre nosso que estais no céu
Permanecei lá
Que nós ficaremos pela terra
Que é algumas vezes tão bela
Com os mistérios de Nova Iorque
E ainda os mistérios de Paris
Que se equivalem ao da Trindade
Com o pequeno canal de Ourcq
A grande muralha da China
O rio de Morlaix
Os confeitos de Cambrai
Com o oceano Pacífico
E as duas fontes das Tulherias
Com os bons meninos e os caras maus
Com todas as maravilhas do mundo
Que estão aqui
Na terra simplesmente
De graça para todo o mundo
Espalhadas
Maravilhadas elas mesmas por serem tais maravilhas
Mas que não ousam confessá-lo
Como uma bela moça nua que não ousa se mostrar
Com as assustadoras desgraças do mundo
Que são legião
Com os legionários
Com os torcionários
Com os patrões deste mundo
Os patrões com os seus padres poltrões e
Mercenários
Com as estações
Com os anos
Com as belas moças e com os velhos chatos
Com a palha da miséria apodrecendo no aço
Dos canhões.
(Jacques Prévert – Poemas , tradução de Silviano Santiago, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985)