RECORDANDO JACQUES PRÉVERT, por Clara Castilho



 

PADRE – NOSSO

 

Padre nosso que estais no céu

Permanecei lá

Que nós ficaremos pela terra

Que é algumas vezes tão bela

Com os mistérios de Nova Iorque

E ainda os mistérios de Paris

Que se equivalem ao da Trindade

Com o pequeno canal de Ourcq

A grande muralha da China

O rio de Morlaix

Os confeitos de Cambrai

Com o oceano Pacífico

E as duas fontes das Tulherias

Com os bons meninos e os caras maus

Com todas as maravilhas do mundo

Que estão aqui

Na terra simplesmente

De graça para todo o mundo

Espalhadas

Maravilhadas elas mesmas por serem tais maravilhas

Mas que não ousam confessá-lo

Como uma bela moça nua que não ousa se mostrar

Com as assustadoras desgraças do mundo

Que são legião

Com os legionários

Com os torcionários

Com os patrões deste mundo

Os patrões com os seus padres poltrões e

Mercenários

Com as estações

Com os anos

Com as belas moças e com os velhos chatos

Com a palha da miséria apodrecendo no aço

Dos canhões.

 

Jacques Prévert – Poemas ,

tradução de Silviano Santiago,

Editora Nova Fronteira,

Rio de Janeiro, 1985

 

 

 

  

 

Jacques Prévert, a sua primeira esposa  Simone, André Breton e Pierre Prévert, em 1925, © Mairie de Paris

 

 

 

Férias, descanso, praia, mas também arrumações caseiras…

 

Deparei com este livro, com este poema que me fez sentido neste Agosto de 2011, em Portugal e no resto do  mundo.

Recordando:

 

Jacques Prévert (1900-1977), poeta surrealista parisiense no período áureo na década de 20, criou os roteiros e diálogos de grandes filmes franceses pertencentes à escola do realismo poético, realizados em sua maioria por Jean Renoir e Marcel Carné.

 

Como compositor, ele escreveu a música “Les Feuilles Mortes”, que foi muito famosa em seu tempo, na voz de Ives Montand.

 

Os usos e costumes, o clero, a igreja foram alvos favoritos… e quão actuais! Vale a pena mergulhar mais na sua obra! Fico ouvindo e dizendo as palavras, agora descobertas na minha memória – minha mãe era grande fã, tanto do Prévert, como do Ives Montand e o início da canção despertou a lembrança que desconhecia.

 

 

 

Yves Montand – Les Feuilles Mortes (3 de Novembro de 2007)

 

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