Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Europa da burguesia liberal, dos seus juristas, dos seus moralistas
Um mundo acéfalo e sem pensamento político
Jacques-Yves Rossignol
revista Metamag, le 02/02/2014
Nas suas grandes linhas, a história económica, ao contrário das teorias professadas por doutos professores nas Grandes Écoles, nas Universidades, pelos especialistas nos media, pelos políticos saídos das Escolas de Administração Pública, como a ENA em França é muito simples de compreender. Obviamente, aqui, apresentamos apenas um resumo denso e nada longo. E é um pouco inabitual.
Do mercantilismo ao liberalismo
Outrora, ainda mal se sabia o que era o enriquecimento. Este era ainda uma criança. Tal como a guerra ou a tortura, aliás. Não se pensava fazer mal por sadismo ou por perversão. Pensava-se ainda menos em enriquecer por meios complicados e tortuosos. Apertava-se contra si próprio o seu tesouro (que se tinha por exemplo roubado àquele a quem se tinha rachado a cabeça). Às vezes trocava-se ou comprava-se aquilo que não se podia fabricar ou roubar.
Um dia, descobre-se que o capital aumenta através da sua circulação. Por exemplo: não é catastrófico comprar mercadorias a um preço exorbitante a A se eu as for vender depois a um preço incrivelmente superior a B. Tudo mudou: a economia tornou-se uma moral. Este novo modo de funcionamento perfeitamente hipócrita, só é possível se se as pessoas se esforçam em manter “boas relações” com os seus “parceiros económicos”. Já não se rouba mais: temporiza-se, embala-se, adula-se. Assim nasceu a mentalidade no interior da qual se vive hoje: a hipocrisia como fundamento económico. Esta hipocrisia generalizada vai mesmo tornar-se uma ciência: esta será a economia política, a ciência da duplicidade moral, a única ciência incapaz de admitir qual é o seu fim último (a defesa incondicional da propriedade privada, a ganância levada ao seu ponto de incandescência ). Esta ciência vai ensinar a toda a gente a arte de temporizar, de suportar e de adular as pessoas que desejamos vigarizar, passar por cima ou mesmo destruir.
“Então vai nascer esta ideia estranha da humanidade: “ a humanidade” é finalmente o conjunto de pessoas que se podem vigarizar, enganar ou roubar, e feito de uma forma hipócrita e indescritível. E seguir-se-ão as intervenções humanitárias: é toda a conversa bombástica, bastante sorridente e serena, mas que é responsável por dissimular esta realidade brutal que é a concorrência generalizada, igualmente brutal quando vista em termos de atentado à civilização. A religião ir-se-á finalmente adaptar a essas novas necessidades: de ingénua e sincera ela tornar-se-á untuosa e hipócrita, uma fachada que permite esconder tudo o que precisa de ser escondido na ordem do desgaste e da mesquinhez.
Numa palavra como em mil : fazer subir o apreço pela moral e cada vez mais mas com as finalidades mais imorais que se possam imaginar. Isto explica as muitas conversas sem fim em torno da moral a que estamos agora a ser submetidos neste decadente capitalismo. O jogo habitual foi o de realizar operações em grande escala feitas pela polícia contra aqueles que se recusaram a participar da hipocrisia simpática acima descrita ( os índios americanos, por exemplo, conheceram esta situação) depois de ser repentinamente tomados de assalto de uma comoção moral pungente, a propósito de acontecimentos sem nenhuma relação real com o caso. As pessoas corajosamente também não ousaram levantar questões perante uma tal demonstração de moralidade. E pode-se recomeçar a operação: a economia de mercado, um treino intensivo « sobre a economia “liberal” , a manifestação de bons sentimentos.
A economia mecanizada: o cretinismo
Mas pouco a pouco, as coisas têm-se complicado: a superprodução de mercadorias para vender (a ‘transformar em dinheiro’) tornou-se crónica. Foi preciso enganar as pessoas mais dignas de crédito de uma outra nova maneira, ainda menos confessável do que a verborreia moral. Foi necessário transformá-las em seres cretinos. A única maneira de continuar a ter lucros, foi realmente a manutenção dos consumidores solventes numa situação de alienação permanente pela indústria cultural (“media a”). Triste, mas é a verdade !
Mudança total de paradigma! Em breve já não precisaremos da hipocrisia afectada e igualmente complicada: passará a haver somente cretinos que consomem mecanicamente, a consumirem o lixo imposto pela decomposição do capitalismo, mesmo nos países da antiga civilização! Mas então, os ocidentais são indiscutivelmente os grandes perdedores. Porque o nosso domínio, lá, onde se estava confortavelmente, era ainda era algo que se situava na ordem do pensamento.
O capitalismo clássico não tinha sido inteiramente atingido o pensamento. No capitalismo cultural (‘mediático’ e sobretudo ‘musical’ “), o pensamento coerente tornou-se impossível. Deste modo, encontramo-nos numa situação claramente inesperada: embrutecidos e incapazes de identificar os conflitos, as guerras travadas contra nós próprios. Incapazes de identificar os nossos verdadeiros assassinos: a burguesia “liberal”, os seus juristas e os seus moralistas.
Nós encontramos-nos como acéfalos e, portanto, sem pensamento político e esta situação é mesmo muito desagradável.
