Obviamente que, hoje, na Crimeia algumas pessoas estão contentes. Outras, na Crimeia e na Ucrânia, estarão revoltadas. Mas, mais óbvio ainda, é que as situações de tensão na região vão continuar, e, provavelmente, agravar-se.
Alguns sentir-se-ão vencedores. Putin consegue, para já, manter a Crimeia ligada à Rússia, impedir que a NATO se instale nas bases militares que ali existem, e travar o agravamento do cerco à Rússia. O governo recém-instalado em Kiev reforça-se como aliado ocidental, e obtém apoios para enfrentar Moscovo. Os Estados Unidos impedem um entendimento entre a União Europeia e a Rússia, muito pouco conveniente para a política de reforço da sua influência em todos os pontos do globo, que é a pedra angular de toda a sua política internacional. Só alguns líderes europeus se devem estar a interrogar sobre o papel que a União Europeia poderá ter no futuro neste conflito. E não só.
Claro que muitos habitantes da Ucrânia, da Crimeia, e de outras zonas da Europa Oriental se devem estar a sentir como carne para canhão. O entendimento dos jogos da geopolítica, dos mecanismos de influência político-financeiros é importante para se compreender o que se vai passando, mas esse entendimento, para os principais interessados, que são as populações afectadas, é dificultado pelas vagas de diferentes propagandas que incidem sobre estas. Mais ainda, a participação nas decisões políticas é extremamente precária, e o aventureirismo está muito facilitado pela grande instabilidade e pouca transparência reinantes. A falta de uma grande informação isenta é decisiva, e facilita a manipulação das populações.
Os jogos geopolíticos pouco ou nada têm a ver com a felicidade e o bem-estar das populações. Aceitam-nos quando os seus jogadores acham que isso lhes convém, recusam-nos no caso contrário. Neste momento, a Crimeia é um peão, a Ucrânia pouco mais, e a Europa parece um grande perdedor. Claro que se ouvirem Durão Barroso, Passos Coelho ou mesmo Angela Merkel eles não lhes dirão nada disto. Também não lhes importa muito.


