A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA
Uma tentativa de visão a partir dos factos
Parte 4
por António Gomes Marques
Recordo, resumidamente, o que foi a evolução da Federação Russa com Putin nestes últimos 25 anos, repetindo o que atrás digo mais pormenorizadamente:
Como me disseram cidadãos russos, Putin devolveu-lhes o orgulho e, não fora a sua acção, a Rússia já não existiria.
Mais uma vez, socorro-me também do historiador David Teurtrie para lembrar que Putin se preocupou, desde início, em restabelecer o papel do seu país entre as grandes nações, recuperando a sua soberania, mostrando ter a Rússia a sua especificidade pois, sem rejeitar que faz parte da Europa, a Rússia é também — e sobretudo? — um país eurasiático, composto por muitas etnias e multiconfessional, cabendo-lhe na Eurásia um papel charneira e que lhe possibilita dispensar a colaboração do Ocidente, sendo claro, por exemplo, que a Europa é mais dependente da Rússia, se quiser recuperar o seu desenvolvimento que lhe permitiu construir o seu exemplar estado social, que está em franca perda, do que a Rússia dependente da Europa.
Com a pressão das sanções ocidentais, a Rússia virou-se para dentro, virou-se para a exploração das suas incomensuráveis riquezas que o seu subsolo lhe oferece, não se limitando à exploração do petróleo e do gás, para destes produtos não ficar dependente, nomeadamente da habitual oscilação dos preços no mercado mundial, conseguindo, praticamente, substituir todas as suas importações agro-alimentares e tornando-se independente nas novas tecnologias da informação; conseguiu fazer o pagamento das dívidas colossais que havia herdado da União Soviética e do período das presidências de Iéltsin; aumentou substancialmente as reservas em divisas e de ouro; procedeu à eliminação do dólar dos fundos soberanos russos; passou a utilizar as moedas nacionais para o comércio exterior; reinvestiu, e de que maneira, no complexo militar-industrial, nuclear, aeronáutico; o país tornou-se o primeiro exportador de centrais nucleares, o segundo exportador mundial de armamento e mantém-se como uma das três grandes potências espaciais.
Com a auto-suficiência alimentar garantida, a Rússia voltou a ser de novo uma das grandes potências cerealíferas, sendo o primeiro exportador mundial de trigo.
A Rússia, juntamente com a China, dispõe de soluções digitais capazes de enfrentar os gigantes mundiais da Web: Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft (GAFAM), garantindo assim a soberania russa no que toca à internet.
Voltou a ser uma potência capaz de enfrentar a OTAN/NATO, quer nas forças convencionais, quer nas forças estratégicas, possuindo, portanto, umas forças armadas modernas.
Para não ficar entalada entre os dois polos económicos poderosos, a União Europeia e a China, estabeleceu muitas parcerias com os países emergentes do chamado Sul global; impôs-se como uma das potências presentes no Médio-Oriente; curiosamente com uma boa relação com Israel, a que não será alheio o facto de muitos milhares de israelitas serem de origem russa; está a desenvolver laços com os países africanos, permitindo a estes não ficarem dependentes entre a China e o Ocidente; estabeleceu colaboração com a China na nova Rota da Seda, projecto iniciado pela China e onde a Rússia já tem papel de relevo, nomeadamente com as suas modernas linhas ferroviárias; é a Rússia aceite pelos países da Ásia Central como um garante de segurança.
Mas voltemos à actual Guerra na Ucrânia
Recapitulando:
Com a dissolução do Pacto de Varsóvia, em 1991, a OTAN/NATO apostou na expansão para Oriente, visando os EUA o desmantelamento da URSS, pensando que o golpe final seria a adesão da Ucrânia à OTAN/NATO.
O apoio por parte dos EUA às forças nacionalistas, com os mais aguerridos a serem os herdeiros de Banderas, o colaborador de Hitler e responsável pela morte dos judeus durante a ocupação da Ucrânia pelas forças nazis, destacando-se nestes nacionalistas o Batalhão Azov, com os seus membros cheios de tatuagens com os símbolos nazis, nacionalistas estes que se uniram contra o presidente democraticamente eleito Viktor Yanukovych, a pretexto de ele ter decidido a aproximação da Ucrânia à Rússia, envolvendo-se nos protestos na Praça Maidan, em Kiev, originando confrontos sangrentos, nos quais o envolvimento dos EUA, como já referi neste texto, foi claro, levando à demissão do presidente, hoje refugiado na Rússia.
Nomeado um novo governo, este logo se apressou a tomar medidas contra os habitantes da região do Donbass que eram pró-Rússia, como revogação da Lei de Línguas, ou seja, proibiram estes habitantes de falarem na sua língua, na língua que usavam no seu dia-a-dia, o russo, prendendo e torturando e até matando quem fosse apanhado a falar russo, às vezes, usando escutas telefónicas; lançaram operações militares contra Donetsk e Luhansk; cortaram a electricidade, a água e o gás; bloquearam economicamente estas regiões; proibiram o movimento destas populações entre estas regiões e mesmo para outras partes da Ucrânia. Tais medidas levaram à constituição da resistência armada formada por milícias pró-Rússia, apoiadas naturalmente pela Rússia, originando milhares de mortos, assim como milhares de deslocados e refugiados. Os rebeldes apossaram-se de prédios governamentais em várias cidades e vilas na região do Donbass, com partes de Donetsk e Luhansk nas mãos dos separatistas. Foi a Primeira Guerra da Ucrânia, designação que o Ocidente não reconhece.
Ainda em 2014 e temendo um ataque à base naval russa em Sebastopol, a Rússia anexa a Crimeia, em Março de 2014, o que não deixa de ser também uma resposta à questão do Kosovo e um aviso ao Ocidente.
O exército ucraniano sofreu uma primeira derrota no combate contra as milícias pró-russas, o que levou ao Acordo de Minsk I, em Setembro de 2014, acordo que falhou. Nova derrota dos ucranianos em Debaltseve (ou Debaltsevo), no Oblast de Donetsk.
Mapa mostrando o cerco e a retirada das forças ucranianas da cidade de Debaltseve e áreas vizinhas
in: https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Debaltseve
Entretanto, as forças separatistas já haviam declarado unilateralmente a independência em dois dos Oblast, criando a República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk. Hoje, a situação é diferente: com a Segunda Guerra da Ucrânia, iniciada com a invasão russa, estes Oblast foram anexados pela Rússia, após a realização de referendos.
A batalha de Debaltseve, foi a grande e última batalha no Donbass, no período de 2014-2015.
Seguiu-se o Acordo de Minsk II, acontecido em 11 de Fevereiro de 2015, celebrado no Palácio da Independência em Minsk, onde os líderes da Rússia, com a presença de Vladimir Putin, os líderes das regiões separatistas, por um lado, da Ucrânia, da França, com a presença de François Hollande, e da Alemanha, onde esteve Angela Merkel, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), pelo outro, concordaram com um pacote de medidas para acabar com a Guerra Civil no Leste da Ucrânia, estabelecendo o cessar-fogo a partir do dia 15, ou seja, quatro dias depois do acordo, confiscação dos armamentos pesados, libertação e amnistia de prisioneiros, retirada de tropas estrangeiras e controlo das fronteiras por parte da Ucrânia. Noutro dos itens, talvez o mais importante, ficou determinado que haveria uma reforma constitucional na Ucrânia para conceder maior autonomia aos territórios que se haviam revoltado, o que, se a Ucrânia e o Ocidente tivessem cumprido com o que assumiram, teríamos o Leste da Ucrânia incluído no seu território e ter-se-iam evitado centenas de milhares de mortos e a destruição de grande parte da Ucrânia, para além de milhões de deslocados e refugiados.
Evidentemente, não posso deixar de referir novamente o cinismo do Ocidente, quando Angela Merkel —como também François Hollande — tornou claro que o objectivo deste acordo foi o de ganhar tempo a fim de armar e treinar o exército ucraniano, num programa que incluía o treino, por parte do Ocidente, de 10.000 homens/ano. Perante esta grave ocorrência, e mais uma vez estou a falar de factos, coloquemo-nos no lugar dos dirigentes russos, a começar por Vladimir Putin, e perguntemo-nos: será que os russos poderão voltar a confiar no Ocidente?
É evidente que a Crimeia era e é para a Rússia uma questão arrumada, faz parte do seu território e julgo que assim permanecerá.
A anexação da Crimeia pela Rússia
De facto, a Crimeia nunca foi território ucraniano.
Lembro o que disse atrás e é bom fixar na memória colectiva que a Crimeia foi conquistada por Catarina II aos otomanos em 1783.
Depois, após a vitória da Revolução de Outubro, foi criada a república autónoma da Crimeia, que se juntou a mais 14 repúblicas com idêntico estatuto. Estaline, em 1945, decidiu acabar com este estatuto e tornou a Crimeia um oblast, termo que se pode traduzir para português como Província ou Região. É uma entidade política constituinte de uma União Federal e que tem representação no Conselho da Federação Russa, ou seja, para simplificar pode dizer-se que é uma divisão administrativa de primeiro nível. Cada oblast tem um Governador eleito pelos eleitores desse oblast, com uma legislatura, a Duma do Oblast.
Como já referi, Nikita Khrushchov transferiu a Crimeia para a República Socialista Soviética da Ucrânia (sublinho Socialista Soviética, não por acaso), um acto que, de acordo com a lei em vigor na URSS, foi ilegal. É bom referir que tanto a Crimeia como a Ucrânia faziam parte do mesmo país, a URSS.
Era Mikhail Gorbatchov presidente da URSS e a Crimeia foi colocada perante duas opções: permanecer como um oblast da Ucrânia ou readquirir o antigo estatuto de que gozou como uma república autónoma da União Soviética. Realizou-se um referendo em 20 de Janeiro de 1991 para os crimeus decidirem e o resultado desse referendo, com uma participação de 81,3% dos eleitores, foi, por 93,6% dos votantes, que a Crimeia se tornasse numa entidade integrante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o que foi depois devidamente aprovado, um acto legal, pelo Congresso dos Deputados do Povo da União Soviética, ou seja, pelo órgão supremo da URSS. Não é isto a democracia a funcionar?
Em 17 de Março de 1991, aquele Congresso dos Deputados realiza um novo referendo para saber se as Repúblicas aceitariam a transformação da URSS numa Confederação, tendo 83,5% dos ucranianos votado pela Ucrânia fazer parte de uma União de Estados Soberanos Soviéticos, com a Crimeia a ter um estatuto semelhante e, portanto, independente da Ucrânia.
Com a dissolução da União Soviética, possível por as Repúblicas que a haviam formado – Rússia, Ucrânia e Bielorrússia – assim terem determinado, a Ucrânia e a Bielorrússia decidiram não fazer parte da Federação Russa, criada após a dissolução da URSS. A Crimeia não renunciou a fazer parte da Federação Russa e, portanto, continuou a ser parte integrante da Federação Russa. O que houve depois foi uma anexação ilegal da Crimeia por parte da Ucrânia, sem respeito pela Constituição que os Crimeus haviam aprovado, aproveitando a fraqueza em que se encontrava Iéltsin.
Após o derrube do Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, no seguimento dos acidentes na Praça Maidan atrás referidos, o Parlamento da Crimeia declarou a sua independência e, por referendo realizado em 16 de Março de 2014, com uma participação de 80% dos eleitores, 96,77% destes votaram pela integração da Crimeia na Federação Russa. (1)
Paul Craig Roberts, em 8 de Março de 2014, em edição trilingue, no site de RÉSEAU VOLTAIRE, escreveu o texto Obama Comes Out Against Self-Determination, (http://www.voltairenet.org/article182587.html), texto que começa assim:
«Barack Obama declarou várias vezes, sem razão e de forma um tanto estúpida, que é “contrário ao direito internacional” para a Crimeia se pronunciar sobre a sua autodeterminação. A autodeterminação, tal como é utilizada por Washington, é um termo de propaganda que serve o seu império, mas que não é admissível. A 6 de Março de 2014, Obama telefonou a Putin para lhe dizer de novo que somente Washington tem o direito de intervir na Ucrânia. Contra qualquer lógica, insistiu que somente “o governo” de Kiev, instalado pelo golpe de Estado organizado por Washington, é “legítimo” e “democrático”.
Por outras palavras, o governo a eleger pela Crimeia é “antidemocrático” e “ilegítimo” porque organiza um referendo de autodeterminação, mas o governo não eleito em Kiev e imposto por Washington seria ele legítimo.
Washington está assim de tal forma arrogante que aquilo que o mundo pensa da sua flagrante hipocrisia nunca vem à cabeça destes loucos levados pela sua hybris.
Desde o regime Clinton, o que Washington tem feito é violar o direito internacional: a Sérvia, o Kosovo, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria, o Irão, o Paquistão, o Iémen, a Somália, as Honduras, a Venezuela, o Equador, a Bolívia.
Será que a Rússia possui um Comando militar para as outras regiões do mundo? Não, mas Washington sim.
A Rússia cerca ela os Estados Unidos com as bases militares? Não, mas Washington utilizou a OTAN, cuja razão de ser desapareceu há já 23 anos, para organizar na Europa ocidental, oriental e do Sul bases imperiais avançadas sobre as fronteiras da Rússia. Washington está determinado em estender os limites da Organização do Tratado do Atlântico Norte na Geórgia, na Ásia central e na Ucrânia sobre o mar Negro. A Geórgia e a Ucrânia são antigos elementos constitutivos da Rússia e da União soviética.»
Mais uma vez, a arrogância de Barak Obama manifesta-se sem vergonha, não esquecendo que foi ele que considerou a Rússia uma potência regional, como já referi.
Afinal, qual é o país antidemocrático?
Voltando à sequência da primeira guerra na Ucrânia
Entretanto, os novos governantes ucranianos continuaram a fazer a integração de grupos considerados nazis em unidades do Estado ucraniano, grupos esses seguidores e profundos admiradores do antigo colaborador dos nazis hitlerianos, Stepan Banderas, responsável por milhares de mortos judeus, havendo a suspeita de que ultrapassou um milhão de judeus soviéticos, quase todos ucranianos, aquando da ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial.
Em Abril de 2015, o novo Presidente, Petro Oleksiyovych Poroshenko, dá ordens para avançar a chamada «Operação Antiterrorista» com que o governo ucraniano pretendia derrotar os insurrectos do Donbass, força militar que incluía parte dos tais grupos admiradores de Banderas, tendo morrido mais de 14 mil pessoas no conflito entre 2014 e a invasão da Ucrânia pela Rússia no final de Fevereiro de 2022, invasão esta classificada pela Rússia como Operação Especial, mas que à luz do direito internacional não deixa de ser uma invasão.
A Rússia também não poderia ignorar que, contrariamente ao estipulado no Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance, assinado em 1987, os EUA instalaram primeiro na Roménia (2015) e depois na Polónia (2018) um novo sistema anti-míssel, mas que também poderia servir para acções ofensivas com mísseis que não gastariam mais do que 12 minutos a atingir Moscovo.
Já na presidência de Zelensky, é promulgada a Estratégia Nacional de Segurança, Setembro de 2020, e, em Março de 2021, a Estratégia Militar da Ucrânia, documentos onde se declara que a Rússia é o principal inimigo e que a Ucrânia se deve preparar para a guerra, para o que conta com a ajuda dos EUA e, claro, da OTAN/NATO.
Por parte da Rússia, a Ucrânia é acusada de violar os direitos dos russos étnicos e falantes de russo que vivem nos oblasts em disputa, no tal «estrangeiro próximo». Putin declara mesmo que naqueles territórios estava a ser praticado um genocídio.
É o regresso do conflito militar e geopolítico.
A agravar a situação, Andriy Melnyk, o embaixador ucraniano na Alemanha, declarou que a Ucrânia se armaria com armas nucleares se não fosse admitida na OTAN/NATO. Foi em Abril de 2021 que proferiu tais palavras.
Depois, em Setembro do mesmo ano, os EUA e a Ucrânia dão a conhecer a sua parceria estratégica, prometendo os EUA reforçar a sua ajuda militar à Ucrânia, enviando armas consideradas avançadas para este país, mas também impedir o funcionamento do gasoduto NordStream2, pouco se preocupando com os prejuízos que isso provocaria à economia alemã, a começar pela sua indústria, como se a Alemanha não fosse um aliado dos EUA.
A segunda guerra na Ucrânia
Com o não cumprimento por parte da Ucrânia dos Acordos Minsk II, a Rússia reconhece a independência das regiões do Donetsk e de Luhansk e, perante as ameaças de expansão da OTAN/NATO à Ucrânia e manifestando querer ir mais além, a Rússia, até respondendo aos apelos daquelas regiões que se haviam declarado independentes, decide invadir a Ucrânia, com início em 24 de Fevereiro de 2022, justificando a sua decisão com razões de segurança nacional e para protecção das populações de língua russa, o tal «estrangeiro próximo», assim como para desnazificar a Ucrânia, considerando que a Ucrânia se tinha deixado controlar pelas forças nazis em constante crescimento. Classificou esta acção como Operação Especial e assim continua a chamar-lhe passados mais de três anos de guerra, mas a que nenhum outro país ocidental, para não referir outros, deixa de chamar invasão. De facto, à luz da legislação internacional, que parece ter dois pesos e duas medidas — o genocídio do povo palestiniano praticado por Israel é disso uma demonstração clara —, não pode deixar de ser classificada a acção russa como uma invasão.
A guerra, que se vem desenrolando desde aquela data de 2022, já causou milhares de mortos e a destruição implacável de uma parte significativa da Ucrânia, para além de milhões de deslocados e refugiados ucranianos, o que poderia ter sido evitado se os governantes ucranianos tivessem ignorado as pressões ocidentais, nomeadamente dos EUA e da Grã-Bretanha, para não cumprir os acordos que atrás refiro em vez de, pelo contrário, se terem disponibilizado para o sacrifício do seu povo, na verdade transformado em carne para canhão.
Até quando vai desenrolar-se esta guerra?
É de lembrar, mais uma vez, que não se trata de uma guerra entre dois países, mas de uma guerra entre a Rússia e o Ocidente, em que a Ucrânia transformou as suas forças armadas em carne para canhão.
O apoio total do Ocidente, dos países da OTAN/NATO, com destaque para os EUA, em treino das tropas ucranianas, em armamento, em forças especiais no terreno, em sistemas de informação e em dinheiro permitiram que as forças armadas ucranianas tenham vindo a mostrar uma capacidade de resistência com que a Rússia talvez não contasse, daí resultando milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas se, nomeadamente, repito, os Acordos de Minsk tivessem sido respeitados pela Ucrânia e pelos países da OTAN/NATO, para além da perda territorial por parte da Ucrânia, com a anexação da Crimeia a ser diferente pelas razões que já referi. Veremos o que o fim da guerra nos trará.
Para além destas perdas, gravíssimas, os custos para a Rússia estarão a ser muito pesados, mas não menos pesados estarão a ser para o Ocidente.
As sanções, uma verdadeira guerra económica, não estão a produzir os efeitos que o Ocidente esperava, com a economia russa a resistir e as forças armadas russas a avançar no terreno. Dizem os comentaristas ocidentais, os que sabem tudo, que o avanço no terreno não é significativo, mas ouvi também um especialista militar a fazer uma distinção entre «guerra de manobra», a utilizada pela OTAN/NATO, e a «guerra de atrito», a que sempre foi utilizada pelas forças armadas russas com os resultados conhecidos, como Napoleão e Hitler puderam experienciar. Deixo apenas esta nota, por não ter competência para desenvolver tal discussão e os resultados que uma e outra «manobra» podem proporcionar.
Entretanto, o patético Biden, chamado — triste ironia — democrata, foi substituído pelo republicano Donald Trump, o tal que resolveria o conflito em 24 horas. Pelo menos, trouxe a palavra paz às discussões sobre o conflito, o que já não é pouco.
Recentemente, 29 de Março de 2025, o New York Times publicou um estudo da responsabilidade de Adam Entous, intitulado The Partnership: The Secret History of de War in Ukraine, apresentado como sendo a história «não contada do papel oculto dos Estados Unidos nas operações militares ucranianas contra os exércitos invasores da Rússia.» Ou seja, alguma verdade começa a ser divulgada em órgãos de referência ocidentais, este nos EUA.
“Ao longo de mais de um ano de reportagens, Adam Entous conduziu mais de 300 entrevistas com actuais e antigos formuladores de políticas, autoridades do Pentágono, autoridades de serviços secretos e oficiais militares da Ucrânia, Estados Unidos, Grã-Bretanha e vários outros países europeus. Enquanto alguns concordaram em falar oficialmente, a maioria solicitou que seus nomes não fossem usados para discutir operações militares e de inteligência sensíveis.”
Ficámos a saber que, pelo menos, o Pentágono forneceu à Ucrânia armamento no valor de 66,5 mil milhões de dólares, o que incluiu “mais de 500 mil de munições para armas ligeiras e granadas, 10 mil armas anti-navio Javelin, 3 mil sistemas antiaéreos Stinger, 272 obuses, 76 tanques, 40 sistemas de foguetes de artilharia de alta mobilidade, 20 helicópteros Mi-17 e três baterias de defesa aérea Patriot.”
Tudo isto é público, ou seja, são factos.
O governo de Biden — ao dizer-se que a decisão foi do próprio corre-se o risco de se estar a atribuir ao Presidente actos para os quais já não estava conscientemente habilitado, dado o seu estado de saúde —, autorizou operações clandestinas, para além de ter enviado para a Ucrânia Conselheiros militares, primeiro para a capital, Kiev, e depois para mais próximo da frente de combate — outros países da OTAN/NATO, nomeadamente a Grã-Bretanha, a França e a Suécia terão feito o mesmo, mas disso não fala Adam Entous nesta sua investigação—, para além de oficiais militares da CIA que, em Wiesbaden, ou seja, na estação da CIA nesta bela cidade alemã — em frente à cidade de Gutenberg, Mainz, locais que conheço relativamente bem —, planeavam e apoiavam ataques ucranianos na Crimeia e noutros locais bem no fundo da Rússia. (Consta que, agora, a CIA está a centralizar as suas operações a partir do seu quartel-general em Frankfurt).
O trabalho de Adam Entous está disponível na internet, mas trata-se de uma investigação que, ao ler-se, logo se conclui que toda a informação nele contida está bem controlada pelos serviços de inteligência americanos, mas não deixa de ser útil a sua leitura, até para conhecer as caras dos oficiais-generais envolvidos.
Há informações curiosas, algumas a fazer-nos rir às gargalhadas, especialmente aquelas em que as operações correram mal, em que a responsabilidade é de imediato atribuída ao facto de os responsáveis ucranianos não terem respeitado as directrizes dadas pelos generais americanos. Só falta que os desaires americanos pelo mundo, em todos os campos de batalha em que se envolveram depois da Segunda Guerra Mundial, com destaque para o Vietname e o Afeganistão, também possam ser atribuídos a outros, mas nestes casos já não poderão ser os ucranianos os bombos da festa.
Passados mais de três anos, a guerra continua e tudo parece indicar que a Ucrânia ou pede a paz sem condições prévias ou sofrerá muito mais destruição. Até o Presidente dos EUA já declarou que a responsabilidade desta guerra não pode ser atribuída à Rússia, para além de afirmar que a Ucrânia terá de encarar o facto de perder parte do seu território e, de uma vez por todas, renunciar a pertencer à OTAN/NATO.
A propaganda ocidental afirmava que a Rússia não aguentaria mais do que alguns meses de guerra e que a vitória da Ucrânia, com o auxílio dos países da OTAN/NATO, era certa. Vê-se!
Curiosamente, neste momento, Putin está a ser pressionado pelos nacionalistas a continuar a guerra até que a Ucrânia se declare derrotada. Mas, segundo o que tenho lido, o seu grupo no Kremlin tem uma posição diferente e não deixa de também pressionar Putin.
Pelo menos, já há conversações entre delegações dos dois beligerantes oficiais (os outros beligerantes contra a Rússia mandam armamento, forças especiais — quem acciona os mísseis, por exemplo? —, conselheiros e sistemas de informação para a Ucrânia), mas não prevejo uma rápida resolução do conflito.
Os EUA são apenas facilitadores, dado que não podem ser mediadores por terem sido sempre uma das partes do conflito pelo que, ao longo do texto, revelei, baseado sempre em factos.
Nunca tive a guerra como solução de conflitos, para além da tragédia que constitui para as populações indefesas, sempre os que mais sofrem.
Sucedem-se as acusações de crimes de guerra, de parte a parte. Talvez um dia se venha a provar, afinal, quem mais crimes de guerra cometeu, não sendo para mim fiável a propaganda espalhada por um lado e outro, embora a propaganda russa seja completamente, ou quase, impedida de ser conhecida no Ocidente.
E a Europa?
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa quis ser um continente de paz, o que esteve na base da construção do que é hoje, depois de várias transformações e adesões que se foram sucedendo, a União Europeia, a qual hoje, e julgo não me enganar, não seria reconhecida pelos considerados pais fundadores. Foi a histórica Declaração Schuman, proferida pelo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman, em 9 de Maio de 1950, propondo a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), que instituiu um mercado comum do carvão e do aço entre os países fundadores — França, República Federal da Alemanha, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo —, que foi a primeira de várias instituições supranacionais de que resultou a actual União Europeia. A ideia inicial partiu do princípio de que a congregação das produções de carvão e de aço iria tornar impossível uma nova guerra entre a França e a Alemanha, com razão, demonstrado pelo período de quase 80 anos de paz na Europa, se esquecermos algumas guerras regionais que aconteceram, mas não opondo a Alemanha e a França, sendo importante realçar que a ideia desta construção europeia tinha a paz como o principal objectivo. Claramente, à formação do que é hoje a União Europeia presidiu sempre a promoção da paz e o desenvolvimento da economia e do comércio livre com todo o mundo para alcançar prosperidade e, assim, permitir uma vida saudável e sem problemas de subsistência aos europeus, dispensando a existência de um exército com capacidade para actuar com qualquer intenção ofensiva contra outros povos.
Agora, estamos perante uma guerra que se diz ser entre a Rússia e a Ucrânia, mas que envolve, praticamente, todo o Ocidente, ou seja, todos os países da OTAN/NATO, incluindo os dois, Suécia e Finlândia, que entretanto aderiram à organização que se diz de defesa e da qual Portugal faz parte.
Um dos temas mais propagandeados pelo Ocidente é a de que a Rússia, se sair vencedora da guerra, terá como alvo a Europa, ou seja, a Rússia ameaça só parar na ocidental praia lusitana. Quanto a isto basta o argumento que já referi neste texto: a Rússia tem um problema sério, que me atrevo a classificar como o mais sério pelas implicações que tem em todos os sectores da Federação Russa — o problema demográfico, o qual vai para além do que é habitual, como a redução da natalidade, o envelhecimento populacional e também algumas migrações. O mais grave é que, sendo a Rússia largamente o maior país do mundo, tem menos de 143 milhões de habitantes, um problema que mesmo com Putin se mantém por resolver e que não se resolverá nas próximas décadas.
A Europa tem um problema semelhante, embora ainda tenha uma densidade populacional bem maior do que a Rússia.
Para atenuar a falta de mão-de-obra, as autoridades russas têm aumentado a imigração, que é muito controlada por, obviamente, questões de segurança.
Como é que um país com um problema desta envergadura poderia ambicionar conquistar a Europa e, depois, manter a ocupação?
Não há qualquer indício de que a Rússia tenha ou venha a ter um projecto destes. E pergunta-se: para quê? Que interesse tem a Rússia em conquistar a Europa? Território é o que mais tem e, quanto a recursos naturais, não há outro país que se lhe possa comparar.
Os dirigentes ocidentais, incluindo os da OTAN/NATO sabem isto claramente, mas a propagação constante de uma mentira acaba por ser aceite como verdade pelos menos esclarecidos, uma percentagem maioritária da população ocidental, com alguns ainda a recearem o «papão comunista», como se a Rússia de hoje tivesse alguma coisa a ver com o regime soviético.
Se olharmos para a história, a Rússia é que tem razões para temer uma invasão por parte do Ocidente. E a expansão da OTAN/NATO não será uma tentativa de invasão e desmantelamento da Federação Russa?
A Rússia tornou claros os seus objectivos aquando do início da invasão, a que chama «Operação Especial»: impedir a entrada da Ucrânia na OTAN/NATO, que desde há muito, em vários avisos ao Ocidente, considerou como uma linha vermelha, estabelecer um estatuto de neutralidade para a Ucrânia, libertar da opressão e da flagelação militar as populações russófonas do Donbass, como tornei claro neste texto. Declarou também querer mudar o regime em Kiev.
A propaganda ocidental visa ainda outro objectivo: o aumento para mais do dobro da contribuição para a Defesa, onde se inclui o contributo para a OTAN/NATO, tendo Donald Trump exigido um esforço financeiro aos membros da organização de modo a atingir no curto prazo um contributo de 5% do PIB para a Defesa. Portugal, no momento, contribui com 1,24% e os EUA contribuem com uma percentagem que nem chega aos 3,5%., havendo mais de 11 aliados a gastar mais de 2% do PIB, sendo a Polónia o que contribui para a Defesa com a maior percentagem, cerca de 4,1% do seu PIB, tendo o Euronews.com informado que, em 2024, essa percentagem atingiu 4,7%.
Quando nos informam que o orçamento dos países europeus para a Defesa é o triplo do orçamento da Federação Russa, então muitas interrogações devemos colocar sobre o porquê de aumentar ainda mais tal orçamento. Será que a Europa quer expandir o seu território? Será que a Europa quer voltar a colonizar o mundo?
O novo Chanceler alemão, como refiro mais acima, já está a transformar as fábricas de automóveis em fábricas de armamento. Um senhor da guerra a querer pôr em prática o que pensa.
E se a Europa, com a União Europeia em primeiro lugar, pensasse em resolver os problemas gravíssimos que atravessa, de modo a evitar a desindustrialização em ritmo acelerado que está a sofrer, com as grandes marcas industriais a diminuir milhares de postos de trabalho em meses sucessivos, a começar na Alemanha e a acabar na Suécia, onde a Volvo anunciou há dias ir diminuir 3.000 postos de trabalho, não negando que poderá ir mais longe ainda este ano ou no próximo, passando por Portugal — quantas fábricas despediram trabalhadores em Portugal nos últimos tempos e até fábricas de automóveis (ou de componentes para) que fecharam? — e por outros países europeus. O novo Chanceler alemão pensa recuperar a economia alemã a fabricar armamento.
Afinal, as sanções à Rússia estão a ter mais efeitos negativos na Europa do que na Rússia e a Comissão Europeia responde com novo pacote de sanções. Quando até os EUA, com a nova Administração, já alteraram o discurso e começaram a falar de paz, a União Europeia, relativamente à Rússia, só fala de prolongar a guerra, com fornecimento de mais uns milhões e de mais armamento à Ucrânia.
Não seria de pensar que é tempo de não ter dois pesos e duas medidas, como acontece na apreciação da guerra na Ucrânia e no genocídio que está a ser praticado por Israel nos territórios palestinianos? Não seria de ter um só peso, uma só medida, mas sempre tendo como central a paz?
A Israel tudo tem sido permitido. Agora, tal é a evidência do genocídio do povo palestiniano que, apesar do controlo censório, entra todos os dias em nossa casa, começaram a surgir umas vozes tímidas dos dirigentes europeus a defender que se acabe com a situação na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, mas não mais do que isso. Até o novo Chanceler alemão, um senhor da guerra, é autor duma dessas declarações, mas não deixa, mesmo após tal declaração, de continuar a vender armas a Israel.
É esta a democracia que queremos para a União Europeia e para o mundo? Alguém nos perguntou se estamos de acordo com as posições assumidas em nosso nome sobre os vários e graves problemas em que temos sido envolvidos pelos dirigentes europeus?
Alguém nos perguntou se estamos de acordo com a existência da OTAN/NATO, sobretudo depois de o Pacto de Varsóvia ter terminado?
Continuamos subservientes em relação aos EUA e eu pergunto: são os EUA fiáveis?
No passado dia 27 de Maio, Paul Krugman escreveu um texto, que intitulou A Letter to Europe, de que transcrevo o seguinte:
“É verdade que o crescimento económico europeu tem ficado atrás do crescimento dos EUA durante uma geração, um ponto fortemente enfatizado pelo Relatório Draghi do outono passado, que foi um apelo muito necessário à reforma. Mas mesmo esse relatório reconheceu que o atraso da Europa está basicamente confinado ao sector tecnológico, que o resto da sua economia permanece bastante dinâmico:
Excluindo da análise os principais setores das TIC (produção de computadores e eletrónica e atividades de
informação e comunicação), a produtividade da UE tem estado globalmente a par da dos EUA no período 2000-2019…
Para 2013-2019, o papel das TIC é ainda mais marcante, uma vez que o crescimento da
produtividade da UE, excluindo os principais setores das TIC, excedeu o dos EUA por alguma margem.
Obviamente, ficar para trás nas indústrias do futuro é um grande problema e a Europa precisa de desenvolver uma estratégia para recuperar o atraso. Mas essa recuperação pode ser mais fácil do que o esperado, dada a determinação da administração Trump em envolver-se na automutilação, paralisando a investigação científica – e as universidades de investigação – que impulsionaram o sucesso dos EUA.
É claro que, se a Europa não estiver à altura da situação, a liderança poderá passar para a China. Mas isso é assunto para outro dia.”
Será que estamos assim tão dependentes dos EUA?
Não há outro mundo com quem estabelecer relações fiáveis e desenvolver uma relação saudável nas trocas comerciais?
Quando essas relações existiam com a Rússia, a Europa soube tirar bom proveito das trocas comerciais, com particular realce no campo energético, e a Rússia privilegiava essa relação. Agora, com a posição subserviente assumida pela Europa e pela União Europeia perante os EUA, o resultado está à vista, os EUA a desprezar a União Europeia e a querer obrigá-la a dedicar 5% do seu PIB à Defesa, comprando o armamento às empresas americanas. Donald Trump chega mesmo a dizer que, se quisermos vender os nossos produtos aos EUA, então que façamos lá as fábricas que desenvolvem esses produtos. Grande amigo ali temos!
Fomos envolvidos numa guerra contra a Rússia, sem nos perguntarem se estamos de acordo, com isso estando a destruir a economia europeia, numa submissão sem igual na nossa história aos EUA e ao capital financeiro. É este o futuro que queremos construir para os nossos filhos e netos?
Necessitamos mais da Rússia do que a Rússia de nós, embora esta potência não desdenhasse continuar as trocas comerciais com um mercado tão apetecível como ainda é a União Europeia e o resto da Europa, mas a Rússia tem outros mercados e, hoje, pode dispensar o Ocidente, como julgo ter demonstrado ao longo deste trabalho.
Curiosamente, não posso deixar de o referir, a Europa continua a receber produtos energéticos russos, não sei se outros também, mas através de outros países, ao que parece sendo a Índia um deles, o que tais países agradecem por receberem a sua percentagem como intermediários que são, ficando o pagante, a Europa, com os custos de tudo, ou seja, com os produtos que tinham o preço mais baixo do mercado e que agora têm um preço que não deve ser menor do que o que a Europa paga por produtos semelhantes vindos dos EUA.
Sabe-se também que há empresas europeias a continuarem a comprar directamente à Rússia o gás, que depois vendem ao actual preço de mercado, ou seja, ganham fortunas essas empresas e o consumidor é quem tudo paga.
Grande negócio faz a Europa!
Ainda mais uma achega.
Servindo-me de um texto de Alastair Crooke, publicado em aviagemdosargonautas.net, lembro que, em 18 de Março deste ano de 2025, ou seja, recentemente, na sessão plenária da RSPP – União Russa de Industriais e Empreendedores, Putin, no seu discurso, acabou por apresentar uma contrapartida ao que havia dito no Fórum de Segurança de Munique de 2007, demonstrando que a Rússia, para além de então ter aceitado o desafio militar da OTAN/NATO, aceitou também o desafio colocado pela ordem financeira do pós-guerra e mostrou que também nessa guerra não é a Rússia a perdedora.
Passo a palavra a Alastair Crooke:
“O discurso de Putin na semana passada não foi, em certo sentido, nada de realmente novo: reflectiu a doutrina clássica do ex-Primeiro-Ministro Yevgeny Primakóv [Setembro 1998 a Maio 1999]. Sem ser romântico quanto ao Ocidente, Primakóv entendeu que a sua ordem mundial hegemónica trataria sempre a Rússia como um subordinado. Por isso, propôs um modelo diferente – a ordem multipolar – em que Moscovo equilibra blocos de poder, mas não se junta a eles.
No seu cerne, a doutrina Primakóv era evitar alinhamentos binários; a preservação da soberania; o cultivar de laços com outras grandes potências e a rejeição da ideologia em favor de uma visão nacionalista russa.
As negociações de hoje com Washington (agora estreitamente centradas na Ucrânia) reflectem esta lógica. A Rússia não está a implorar o alívio de sanções ou a ameaçar qualquer coisa específica. Está a conduzir uma protelação estratégica: esperar ciclos eleitorais, testar a unidade ocidental e manter todas as portas entreabertas. No entanto, Putin também não se opõe a exercer um pouco de pressão própria – a janela para aceitar a soberania russa das quatro províncias [oblasts] orientais não é para sempre: “este ponto também pode mover-se”, disse ele.»
Será que o Ocidente ouviu? Não me parece.
Os EUA e o resto do chamado mundo ocidental têm subestimado a Rússia e também a China; evidentemente, como os factos mostram, estes países não esquecem que os EUA são um país poderosíssimo e que será ainda — até quando? — a maior potência mundial, mas sabem seguramente que os EUA já não são a grande potência industrial que foi, como também julgo ter demonstrado neste texto.
Terão os russos confiança no seu Presidente? Olhemos para o que nos diz uma fonte da qual não poderão dizer no Ocidente ser controlada pela Rússia.
O quadro abaixo foi retirado do RAPPORT D’INFORMATION, DÉPOSÉ en application de l’article 145 du Règlement PAR LA COMMISSION DES AFFAIRES ETRANGÈRES sur la politique française et européenne vis-à-vis de la Russie, Enregistré à la Présidence de l’Assemblée nationale le 12 février 2014 (pág. 38), que me escuso de traduzir.
Nesse Relatório, na Introdução, pode ler-se:
“A Rússia demonstrou uma capacidade real de superar as suas dificuldades e retornar ao crescimento com relativa rapidez. Após um período de liberalização económica e privatizações que culminou numa crise financeira sem precedentes em 1998, a Federação Russa retornou ao crescimento na década de 2000, após a desvalorização do rublo, graças à alta dos preços do petróleo e à tomada de controlo da economia pelo Estado. Vinte anos após o fim da URSS, a Rússia, com recursos naturais que objetivamente a tornam a principal potência energética mundial, vive uma recuperação económica e voltou a ser uma potência a ser reconhecida.
O actual regime político russo certamente não é irrepreensível em termos de respeito pelos procedimentos democráticos e pelos direitos humanos, mas parece, por enquanto, manter o apoio da maioria da população.”(https://www.assemblee-nationale.fr/14/rap-info/i1793.asp)
Na página 38, antes do quadro acima reproduzido, lê-se:
“Outras estudos de opinião sobre a confiança nas instituições iluminam a popularidade do Presidente – que aparece intuitu personae como a instituição que suscita a maior confiança – e o conservadorismo da sociedade, que coloca a sua confiança em instituições como o exército e a Igreja, mas desconfia muito mais das instituições que se supõem encarnar os valores democráticos, como a Douma e a justiça, talvez, é verdade, porque, dado o seu funcionamento, essas instituições não desempenham o papel que deveriam ter…”
Um pouco mais à frente, pode ler-se neste Relatório:
“Sobre a Ucrânia, a U. E. perdeu totalmente a oportunidade. Propôs 700 milhões, enquanto a Rússia colocou 15 mil milhões na mesa. A nossa resposta não está à altura dos desafios, tanto políticos como económicos. Assim, em Dezembro passado, o presidente Barroso recusou a sugestão russa de um diálogo a três, Europa, Rússia e Ucrânia. Além disso, se há pressões russas sobre a Ucrânia, que são denunciadas com razão, não se deve esquecer que também existem outras. Remeto-vos para as palavras desta diplomata americana relatadas há alguns dias: lembramo-nos, principalmente, da sua grosseria para com a União Europeia, mas é preciso ouvir o resto, onde esta pessoa explica quais os responsáveis da oposição que deveriam ou não participar no futuro governo ucraniano: que ingerência!” (pág. 134)
A diplomata americana referida no texto é a Senhora Victoria Nuland, Subsecretária de Estado dos EUA, já por mim referida neste texto.
Do mesmo Relatório, transcrevo ainda, agora da página 135:
“M. Thierry Mariani, co-relator. Todos concordam com a vocação europeia da Ucrânia. Para ver quem está a favor da sua adesão, olhem para quem se manifesta na Praça Maidan: polacos, suecos, bálticos. Ou seja, aqueles que estão no ambiente geográfico próximo e por isso têm todo o interesse, pois a adesão da Ucrânia afastaria um pouco a Rússia. Da mesma forma, no Conselho da Europa, aqueles que foram a favor da Parceria Oriental estão agora a acrescentar combustível ao fogo no dossier ucraniano. Em Bruxelas, quando perguntámos por que é que o acordo de parceria com a Rússia não foi relançado, dado que o acordo anterior expirou há vários anos, foi-nos dado a entender que a nossa pergunta era incongruente. Claramente, o dossier não está na agenda da União Europeia.”
Há outras referências neste Relatório, relacionadas com interesses geoestratégicos e com a cultura, que não posso deixar de traduzir para este texto:
“Interesses de longo prazo que convergem. Por fim, como confirmaram as entrevistas realizadas pelos seus relatores com personalidades como o Sr. Thierry de Montbrial, Director-Geral do IFRI, a União Europeia e a Rússia têm interesses geopolíticos de longo prazo em comum: – tanto uma como a outra terão de se posicionar em relação à ascensão da superpotência chinesa; – a União e a Rússia têm em comum serem países limítrofes de uma zona do mundo que continua a ser a mais carregada de crises e ameaças: conflitos insolúveis, excesso de armamento, riscos de proliferação química e nuclear, regimes tirânicos e revoluções, extremismo religioso, terrorismo: o Médio-Oriente. Esta proximidade geográfica partilhada dá-lhes uma responsabilidade particular e deve convidá-las a cooperar na região.
Por fim, a dimensão cultural não pode ser negligenciada, como lembrou magistralmente o Sr. Marek Halter numa contribuição dirigida aos vossos relatores: «Sempre pensei que não haveria Europa, refiro-me à Europa como potência económica e política, igual aos Estados Unidos da América ou à China, sem a Rússia. O que realmente liga os Europeus entre si é a cultura e certos valores que, infelizmente, nem sempre foram respeitados ao longo da História. Um dia, na minha presença, Jean Monnet, um dos Pais da Europa (…), afirmou que se tudo tivesse de ser feito de novo, começaria pela cultura. Ele não estava errado. De facto, Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov, Tchaikovsky, Prokofiev, Diaghilev, Malevitch e Kandinsky fazem parte desta Europa tanto quanto nós. Se tivéssemos associado a Rússia à Europa, os problemas enfrentados com a Ucrânia hoje não existiriam»”. (pág. 101)
Marek Halter é um escritor francês, nascido na Polónia, Varsóvia, em 27 de Janeiro de 1932, judeu de origem polonesa, que se naturalizou francês em 1980. A história do povo judeu constitui a temática dos seus livros.
São transcrições talvez um pouco longas, mas que confirmam o que eu disse também neste trabalho sobre as duas guerras na Ucrânia, com a diferença de que este Relatório emana da Assembleia Nacional Francesa.
Chamo agora a atenção para um texto de Craig Murray [1958 – ] autor, radiodifusor e activista dos direitos humanos. Foi embaixador britânico no Uzbequistão de Agosto de 2002 a Outubro de 2004 e reitor da Universidade de Dundee de 2007 a 2010, texto publicado em aviagemdosargonautas.net: Putin não é Hitler (2):
«As ambições territoriais de Hitler não estavam escondidas. O seu desejo pelo “espaço vital” [Lebensraum] e, crucialmente, a sua visão de que os alemães eram uma raça superior que deveria governar as raças inferiores, estava claro na imprensa e nos discursos.
Simplesmente não há tal evidência de ampla ambição territorial de Putin. Ele não está a prosseguir uma ideologia nazi enlouquecida que leva à conquista — ou, nesse caso, uma ideologia marxista que procura derrubar a ordem estabelecida no mundo.
O projecto de alinhamento económico dos BRICS não foi criado para promover um sistema económico totalmente diferente, apenas para reequilibrar o poder e os fluxos dentro do sistema ou, no máximo, para criar um sistema paralelo que não seja distorcido em benefício dos Estados Unidos.
Nem o fim do capitalismo nem a expansão territorial fazem parte do projecto BRICS.
Simplesmente não há evidências de que Putin tenha objectivos territoriais além do problema na Ucrânia e dos pequenos enclaves da Ossétia do Sul e da Abkházia. É perfeitamente justo caracterizar a expansão territorial de Putin ao longo de duas décadas como limitada à reincorporação de distritos ameaçados de minorias de língua russa em ex-estados soviéticos.
Não está totalmente claro para mim que vale a pena uma guerra mundial e inúmeras mortes para decidir quem deve ser prefeito da cidade de Lugansk, de etnia russa e língua russa.
A ideia de que Putin está prestes a atacar a Polónia ou a Finlândia é um completo absurdo. A ideia de que o exército russo, que tem lutado para subjugar a pequena e corrupta, ainda que apoiada pelo Ocidente, Ucrânia, tem a capacidade de atacar a própria Europa Ocidental é claramente impraticável.
O histórico interno de direitos humanos da Rússia de Putin é pobre, mas neste ponto é marginalmente melhor do que o da Ucrânia do presidente Volodymyr Zelensky. Por exemplo, os partidos de oposição na Rússia têm pelo menos permissão para disputar eleições, embora num campo de jogo fortemente inclinado, enquanto na Ucrânia eles estão proibidos completamente.
Ainda menos convincentes são os argumentos de que as actividades políticas da Rússia em terceiros países exigem aumentos massivos de armamentos ocidentais para se preparar para a guerra com a Rússia.
A simples verdade é que as potências ocidentais interferem muito mais em outros países do que a Rússia, por meio de patrocínios massivos de ONGs, jornalistas e políticos, muitos dos quais são abertos e outros são secretos.»
Há ainda uma referência para a qual não posso deixar de chamar a atenção. Tem a ver com as declarações da maioria dos comentaristas nos canais televisivos em Portugal, que estão sempre a referir as debilidades da Rússia, nomeadamente a crise económica, a debilidade das forças armadas russas, a incompetência dos seus generais e, depois, vêm com o perigo que constitui a vitória da Rússia na Ucrânia que fará que os seus exércitos não se fiquem por aí e só venham a parar na ocidental praia lusitana. Não se apercebem do ridículo?
Hélène Richard, num artigo publicado no Le Monde Diplomatique, edição em português de Março de 2025, escreve “Os dirigentes do Velho Continente, turvados pela Rússia, não viram o golpe chegar… O presidente Donald Trump lançou, sem os europeus, negociações de paz que, acompanhadas por concessões importantes, oferecem ao Kremlin uma saída do pântano ucraniano, mas também uma vitória estratégica. E a era geopolítica aberta a seguir à Segunda Guerra Mundial parece chegar ao fim.”
E se todos reflectíssemos responsavelmente partindo destas palavras de Hélène Richards?
A finalizar
O meu amigo Paulo Almeida, no texto que me deu a conhecer e de que é autor, “O que é um europeu?”, lembra, a dado momento, uma resposta de Bertrand Russell a uma entrevista no canal BBC: “Quando você estiver a estudar qualquer assunto ou considerando qualquer filosofia, pergunte-se a si próprio apenas: quais são os factos e qual é a verdade que os factos confirmam. Nunca se deixe desviar, nem pelo que você deseja acreditar, nem pelo que você acha que teria efeitos sociais benéficos se acreditasse; olhe única e exclusivamente para quais são os factos.” Foi o que tentei fazer neste texto. Espero que o leitor tente o mesmo e leia o texto até ao fim antes de o criticar.
Portela (de Sacavém), 2025-05-31
NOTAS
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in: Soares, José Catarino, Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal, Editora Primeiro Capítulo, Julho de 2023; pgs. 39-49;
-
in: https://aviagemdosargonautas.net/2025/03/18/espuma-dos-dias-putin-nao-e-hitler-por-craig-murray/
Bibliografia
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Carvalho, Bruno Amaral de, A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Editorial Caminho, SA, 3.ª edição, Maio de 2024 (reimpressão);
-
Arutunyan, Anna, A Mística de PUTIN, Quetzal Editores, Lisboa, 2014;
-
Carrère D’Encausse, Helène, Seis Años que Cambiaron el Mundo, Editorial Planeta, S. A., Editorial Ariel, Barcelona, 2016;
-
Eltchaninoff, Michel, Na cabeça de Putin, Livros Zigurate, Lisboa, 2022;
-
Figes, Orlando, A História da Rússia, Publicações D. Quixote, Outubro de 2022;
-
Lopes, Domingos, Ucrânia e Rússia – Violência sem Tréguas Razões do Conflito, Edições Colibri, Lisboa, Outubro de 2024;
-
Rey, Marie-Pierre, La Russie face à l’ Europe – d’ Ivan le Terrible à Vladimir Poutine, Champs histoire, Flammarion, 2002
-
Soares, José Catarino, Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal, Editora Primeiro Capítulo, Julho de 2023
-
Stuermer, Michael, Putin e o Despertar da Rússia, Editorial Presença, 1.ª edição, Julho de 2009;
-
Teurtrie, David, Russie – Le Retour de la Puissance, Dunod Poche, janvier 2024, Armand Colin, 2021 para a 1.ª edição;
-
Todd, Emmanuel, Après l’ empire – Essais sur la décomposition du système américain, Éditions Gallimard, 2002, et 2004 pour la Postface;
-
Todd, Emmanuel, La Défaite de L´Occident, Éditions Gallimard, janvier 2024.



