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CONTOS & CRÓNICAS- Arco da governação e arco da reinação – por Carlos de Matos Gomes

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Não se apanham trutas de bragas enxutas – Gil Vicente

Confesso a minha perplexidade quando oiço alguns dirigentes partidários e opiniadoresavulso falarem do «arco da governação» como se fosse um labéu, como se um partido fazer parte de um governo constituísse uma mancha no seu currículo, um atentado à virtude política, uma nota infamante.

A acusação explícita e implícita não se dirige à forma como governaram, mas ao facto de pertencerem ao mundo, ao tal arco, que governou, que governa, que tem por objectivo governar. A mensagem sublimar é a de que um partido organizar-se e dispor-se a governar o seu país é uma prostituição! O que deixa a pergunta: para que servem então os partidos?

É que, sendo politicamente pecaminoso um partido pertencer ao arco da governação, o politicamente virtuoso será, por exclusão de partes, pertencer ao arco da reinação: ao faz de conta. Ao mundo onde as propostas e críticas não devem ser levadas a sério,pois nunca terão a oportunidade de serem testadas e confrontadas com a realidade.

Eu sou a favor do «arco da governação» e entendo que todos os partidos que aceitam a ordem constitucional deviam fazer parte dele.

Eu recuso-me a votar num partido que recusa participar na governação!

Como me recuso a participar numa claque. Não me disponho a pertencer e apoiar um grupo que existe apenas para assobiar os que se dispõem a ir para um campo, ou um palco jogar e representar. Atuar. Se jogam e atuam bem ou mal é outra questão.Porque a questão fundamental, aquilo que distingue os homens dos meninos, é uns estarem dispostos a subir à arena enquanto os outros apenas se dispõem a arranjar um assento na bancada para daíesbracejar e apupar!

Quem sabe faz, quem não sabe manda palpites (ensina). Quem se coloca de fora do jogo, pode ir rachar lenha…

O arco da governação conduziu-nos à actual situação? E o arco da reinação o que fez para impedir? Ou, mais modestamente, para alterar o rumo que aqui nos trouxe?

Gritou! Denunciou! Analisou! Manifestou o seu mais vigoroso repúdio! Obrigado. Isso também eu faço e, se precisar de companhia, inscrevo-me numa tertúlia. Não preciso de votar para outros “analisarem a situação” por mim.

O arco da governação é de direita? Que alternativa viável apresentou a esquerda em 40 anos?

O arco da governação é um trio? O que fizeram os que se colocaram de fora para alterar o triângulo e aumentar as ofertas de escolha e de soluções, para variar a geometria do arco?

O arco da governação levou-nos ao abismo? Onde estiveram os arautos dos perigos? A buzinar de longe quando era necessário pegar no volante, carregar nos travões, evitar o desastre!

Obrigadinho. Agradeço as vossas orações, mas dispenso-as!

Em resumo, não apoio treinadores de bancada, nem aprecio heróis de sofá, nem críticos de comando à distância, nem virgens intocáveis e puras. Dispenso conselho.

Gil Vicente bem nos disse: «Não se apanham trutas de bragas enxutas!»Para apanhar trutas é necessário enfrentar a corrente, molhar as calças, as mãos, arriscar…

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