Poema: Vasco Graça Moura
Música: António Victorino d’Almeida
Intérpretes: Maria João Pires* & Carlos do Carmo (in CD “Maria João Pires / Carlos do Carmo”, Universal, 2012)
Vou sempre a jogo quando me convidas e apenas sei que perco sempre a mão há no baralho amor e solidão e atraiçoa-me o tempo às escondidas.
As coisas sendo assim são o que são: com gaivotas de sombra repetidas e as cartas todas já distribuídas, eu apostei a alma e o coração.
As ilusões passaram das medidas e em noites tresloucadas de paixão trazes um cheiro a fado e a perdição e dás cabo de mim e não duvidas.
Nessas linhas que tens na tua mão há estrelas cadentes esquecidas e é na sina febril das nossas vidas que eu vou morrer da tua ingratidão.
* Maria João Pires – piano; Carlos do Carmo – voz; Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Maio, Julho e Outubro de 2012; Engenheiro de gravação – Joaquim Monte; Misturado e masterizado por Alfredo Almeida e Carlos Vales, no Bebop Studio.
Rosa Nocturna
Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 43-44; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 218-219)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Ana Sofia Varela* (in CD “Ana Sofia Varela”, EMI-VC, 2002)
Dei-te uma rosa e no espelho entre a sombra e o vermelho estranhaste o seu clarão agora só a debrua a luz irreal da Lua no vago da escuridão
nela vi quanto dizias, davas, rias, prometias vão murmúrio, vão rumor louca, louca esta existência tresloucada incandescência que o sangue lhe vinha pôr
e era tão intensa a vida que a fugaz rosa colhida já nem no espelho perdura fez-se rosa em desalento que a noite mesmo sem vento só de a tocar desfigura
vão-lhe as pétalas caindo e à medida que fugindo a Lua desaparece e a manhã quando desperta já só vê a forma incerta de uma réstia que estremece
[instrumental]
triste vida a que me afoite a fazer de cada noite uma flor, uma quimera mas rosa, a rosa terás outra e outra e outra atrás da que morre à tua espera
* Mário Pacheco – guitarra portuguesa; Carlos Manuel Proença – viola; Paulo Paz – contrabaixo; Arranjos – Mário Pacheco; Gravado e misturado por João Martins, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, entre Janeiro e Maio de 2001; Assistentes – Artur David, Luís Caldeira; Masterizado por Joe Fossard, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Crónica
Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 16; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 194)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)
Eram barcos e barcos que largavam fez-se dessa matéria a nossa vida marujos e soldados que embarcavam e gente que chorava à despedida
ficámos sempre ou quase ou por um triz correndo atrás das sombras inseguras sempre a sonhar com índias e brasis e a descobrir as próprias desventuras
memória avermelhada dos corais com sangue e sofrimento amalgamados se rasga escuridões e temporais traz-nos também nas algas enredados
e ganhou-se e perdeu-se a navegar por má fortuna e vento repentino e o tempo foi passando devagar tão devagar nas rodas do destino
que ou nós nos encontramos ou então ficamos uma vez mais à deriva neste canto que é nosso próprio chão sem que o canto sequer nos sobreviva
[instrumental]
e ganhou-se e perdeu-se a navegar por má fortuna e vento repentino e o tempo foi passando devagar tão devagar nas rodas do destino
que ou nós nos encontramos ou então ficamos uma vez mais à deriva neste canto que é nosso próprio chão | bis sem que o canto sequer nos sobreviva |
* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa; Bernardo Couto – guitarra portuguesa; Francisco Gonçalves – viola; Armando Figueiredo – viola baixo