Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014) – 4 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (cantados) de Vasco Graça Moura, há que aceder à páginaImagem2

http://nossaradio.blogspot.com/2014/05/em-memoria-de-vasco-graca-moura.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Morrer de Ingratidão

Poema: Vasco Graça Moura
Música: António Victorino d’Almeida
Intérpretes: Maria João Pires* & Carlos do Carmo (in CD “Maria João Pires / Carlos do Carmo”, Universal, 2012)

Vou sempre a jogo quando me convidas
e apenas sei que perco sempre a mão
há no baralho amor e solidão
e atraiçoa-me o tempo às escondidas.

As coisas sendo assim são o que são:
com gaivotas de sombra repetidas
e as cartas todas já distribuídas,
eu apostei a alma e o coração.

As ilusões passaram das medidas
e em noites tresloucadas de paixão
trazes um cheiro a fado e a perdição
e dás cabo de mim e não duvidas.

Nessas linhas que tens na tua mão
há estrelas cadentes esquecidas
e é na sina febril das nossas vidas
que eu vou morrer da tua ingratidão.

* Maria João Pires – piano;  Carlos do Carmo – voz;  Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Maio, Julho e Outubro de 2012; Engenheiro de gravação – Joaquim Monte;  Misturado e masterizado por Alfredo Almeida e Carlos Vales, no Bebop Studio.

Rosa Nocturna

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 43-44; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 218-219)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Ana Sofia Varela* (in CD “Ana Sofia Varela”, EMI-VC, 2002)

Dei-te uma rosa e no espelho
entre a sombra e o vermelho
estranhaste o seu clarão
agora só a debrua
a luz irreal da Lua
no vago da escuridão

nela vi quanto dizias,
davas, rias, prometias
vão murmúrio, vão rumor
louca, louca esta existência
tresloucada incandescência
que o sangue lhe vinha pôr

e era tão intensa a vida
que a fugaz rosa colhida
já nem no espelho perdura
fez-se rosa em desalento
que a noite mesmo sem vento
só de a tocar desfigura

vão-lhe as pétalas caindo
e à medida que fugindo
a Lua desaparece
e a manhã quando desperta
já só vê a forma incerta
de uma réstia que estremece

[instrumental]

triste vida a que me afoite
a fazer de cada noite
uma flor, uma quimera
mas rosa, a rosa terás
outra e outra e outra atrás
da que morre à tua espera

* Mário Pacheco – guitarra portuguesa;  Carlos Manuel Proença – viola;  Paulo Paz – contrabaixo;  Arranjos – Mário Pacheco;  Gravado e misturado por João Martins, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, entre Janeiro e Maio de 2001;  Assistentes – Artur David, Luís Caldeira;  Masterizado por Joe Fossard, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores

Crónica

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 16; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 194)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)

Eram barcos e barcos que largavam
fez-se dessa matéria a nossa vida
marujos e soldados que embarcavam
e gente que chorava à despedida

ficámos sempre ou quase ou por um triz
correndo atrás das sombras inseguras
sempre a sonhar com índias e brasis
e a descobrir as próprias desventuras

memória avermelhada dos corais
com sangue e sofrimento amalgamados
se rasga escuridões e temporais
traz-nos também nas algas enredados

e ganhou-se e perdeu-se a navegar
por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar
tão devagar nas rodas do destino

que ou nós nos encontramos ou então
ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão
sem que o canto sequer nos sobreviva

[instrumental]

e ganhou-se e perdeu-se a navegar
por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar
tão devagar nas rodas do destino

que ou nós nos encontramos ou então
ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão | bis
sem que o canto sequer nos sobreviva |

* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa;  Bernardo Couto – guitarra portuguesa; Francisco Gonçalves – viola;  Armando Figueiredo – viola baixo

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