Camões recitado e cantado (II) – 11 – por Álvaro José Ferreira
carlosloures
Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende. Este é considerado o mais autêntico do retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.
Nota prévia:
Para ouvir os poemas (os recitados e os cantados), há que aceder à página
Poema (soneto) de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1595)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto: que não se muda já como soía.
Notas:
Qualidades – aspectos
Soía – costumava
Cá nesta Babilónia, donde mana
Poema (soneto) de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1616); Recitado por Eunice Muñoz* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011);
Cá nesta Babilónia, donde mana matéria a quanto mal o mundo cria; cá, onde o puro Amor não tem valia, que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
cá, onde o mal se afina e o bem se dana, e pode mais que a honra a tirania; cá, onde a errada e cega Monarquia cuida que um nome vão a Deus engana;
cá, neste labirinto, onde a nobreza, com esforço e saber pedindo vão às portas da cobiça e da vileza;
cá, neste escuro caos de confusão, cumprindo o curso estou da Natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Notas:
Mana – sai, brota
Matéria – riquezas
O puro Amor – o verdadeiro amor espiritual
Mãe – Vénus, símbolo da luxúria
Sião – Jerusalém celeste (Céu, Paraíso)