Camões recitado e cantado (II) – 11 – por Álvaro José Ferreira

Imagem4Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende. Este é considerado o mais autêntico do retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (os recitados e os cantados), há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/06/camoes-recitado-e-cantado-ii.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Poema (soneto) de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1595)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.
Notas:
Qualidades – aspectos
Soía – costumava

Cá nesta Babilónia, donde mana

Poema (soneto) de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1616); Recitado por Eunice Muñoz* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011);

Cá nesta Babilónia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá, onde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a Deus engana;

cá, neste labirinto, onde a nobreza,
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;

cá, neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da Natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Notas:
Mana – sai, brota
Matéria – riquezas
O puro Amor – o verdadeiro amor espiritual
Mãe – Vénus, símbolo da luxúria
Sião – Jerusalém celeste (Céu, Paraíso)

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