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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A NECESSIDADE DE UM DEBATE NACIONAL E EUROPEU E TAMBÉM SOBRE AS RAZÕES PELAS QUAIS VOTAREI SEGURO – ASSIM COMO UMA SUGESTÃO PARA A LEITURA DE TRÊS TEXTOS DE ECONOMIA – por JÚLIO MARQUES MOTA.

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Algumas considerações sobre a necessidade de um debate nacional e europeu e  também sobre as razões pelas quais votarei Seguro – assim como uma  sugestão para a leitura de três textos de economia

Parte V

(CONTINUAÇÃO)

Estamos aqui com Zygmunt Bauman portanto num plano completamente diferente do que se passa em Portugal sob a égide dos partidos pertencentes actualmente ao arco do Poder, pois com a coligação temos por um lado o silêncio dos resultados eleitorais e a adesão total às políticas seguidas, a servir Bruxelas e a servirem-se de Bruxelas e, por outro lado, temos no PS o branquear de Bruxelas quanto à sua total responsabilidade da realidade da Europa e destes resultados eleitorais, quando pela mão de António Costa se personaliza numa pessoa, em António José Seguro, os resultados eleitorais como já referimos. Com esta posição de malabarismo político a favor de Bruxelas necessariamente, António Costa parece com isso querer projectar-se como o Matteo Renzi português e, ao fazê-lo, está a deslocar as atenções do povo português e do principal partido da Oposição da única via possível de saída da crise, que seria a de pressionar os centros de decisão comunitários, alto e bom som, que é necessário regular eficazmente os mercados financeiros e controlar as operações dos seus abutres, assim como é necessário aplicar políticas expansionistas enquadradas e apoiadas por Bruxelas e consequentes coim um plano articulado de desenvolvimento europeu, que agora não existe e que ninguém objectivamente reclama.

Porém, para isto há aqui uma questão prévia também eliminada AGORA nos três partidos citados do arco do poder e esta questão passa pela necessidade de ganhar uma consciência colectiva de que a responsabilidade da crise resulta basicamente tanto das políticas recessivas impostas via Bruxelas, via BCE, via FMI, porque estas instituições incrivelmente as consideram expansionistas, como pela responsabilidade daqueles que as levam a cabo, aplicando-as, ou seja os seus leais servidores, os partidos da coligação, interessados por isso mesmo em silenciar o debate. Por tudo isto, penso ser inaceitável, portanto, do meu ponto de vista o que politicamente se está a passar no principal partido da oposição, pela dinâmica criada por António Costa, na sequência das eleições e tanto mais quanto é cada vez mais urgente questionar os três centros de decisão externos citados sobre a Europa, sobre Portugal, seja no que importa sobre o presente seja do que importa sobre o futuro.

As famosas e dolorosas políticas contraccionistas-expansionistas que foram afinal apenas profundamente contraccionistas tiveram como justificação os trabalhos econométricos do FMI, da Comissão, do BCE, tiveram como pano de fundo o modelo teórico neoliberal em que assenta a arquitectura da União Europeia, a que neste mesmo quadro se acresce as imperfeições dessa mesma arquitectura, o que obviamente impede a resposta às crises que os mercados possam gerar, pela pura e muito simples razão de que no seu modelo as crises estruturais como a que atravessamos não existem e portanto não podem aí existir medidas que lhe respondam. De novo, ironicamente diríamos que a União Europeia está no lugar errado, um modelo em que a nossa realidade não existe, a fazer as políticas certas desse modelo, logo nada tem a ver connosco, mas sim com os fantasmas a que o modelo se refere.

O problema de base refere-se ao modelo de que se servem e depois às imperfeições da arquitectura. Demonstrá-lo é fácil e tomemos um exemplo que esclarece bem esta posição até ao limite. Em 2005, um manifesto de economistas neoliberais em fase de pré-campanha e contra as políticas de expansão como as que aqui defendemos lançou um apelo assinado por mais de 250 economistas alemães em que se tentava pela força das convicções impedir que o governo viesse a assumir os estímulos pelo lado da procura. Desse documento diz-nos Achim Truger:

“One of the most spectacular examples of the narrowness of the German debate is the ‘Hamburger Appell’ (‘Hamburg Appeal’) in 2005 (Funke et al. 2005). In this appeal more than 250 German university professors of economics2 – many of them prominent – collectively addressed the public in a pre-election appeal aimed at preventing German economic policy from taking demand-side measures and insisting instead on labour market deregulation, dismantling the welfare state, and fiscal austerity that had been boosted in 2003. The professors started their appeal with the following introduction:

“The economic policy debate in Germany is increasingly being coined by conceptions that show an alarming lack of economic expertise.  This is all the more reason for concern as Germany is in the midst of a deep structural crisis that calls for drastic and painful reforms. Precisely in pre-election times the willingness to bring this fact home to citizens with the necessary clarity will be small. Instead of that, important politicians yield to the temptation of propagating concepts that are not scientifically founded and aim at combining the agreeable with the useful: By adequate measures, it is suggested, an increase in domestic demand could be achieved, thereby leading to an overcoming of the structural growth crisis. This idea is wrong and dangerous. As academic teachers of economics we vividly caution against producing illusions thereby undermining the acceptance of necessary reforms. We appeal to the elected representatives‘ sense of responsibility to resist the temptation of easy solutions and to instead give non-sugarcoated answers to the pressing economic questions. (Funke et al. 2005: 1;)”.

Não se falava ainda de crise. Esta estalou em 2008 e a crise dita da dívida pública estalou em 2010. Repare-se porém que o que aqui é defendido é exactamente o que tem sido aplicado. Mas continuemos a citar o referido Apelo:

“The uncontrollably growing German government debt is quite correctly being perceived as future tax burden. […] Therefore, anybody who undermines the incentives to consolidate the government debt on the national or international level will damage the German interest. Any expansion of government debt will weaken domestic demand, because structural imbalances will be reinforced instead of cured, so that citizens and firms will have to act with increased caution. The (mass) purchasing power argument against “saving oneself to death” in times of economic stagnation may be convenient, however, it is wrong. […] Therefore, responsible fiscal policy must be strictly stability oriented. The consolidation of government finances calls for far reaching cuts in all areas of public spending. […] Anybody claiming anything to the contrary will not do justice to the economic challenges for Germany or he will mislead citizens in a populista manner”.O sublinhado é nosso, a caracterizar a brutal coincidência com as políticas de austeridade até agora impostas.

Um plano estabelecido em 2005 diríamos para a crise de 2010. Mas há aqui um detalhe importante, a sublinhar, o problema do tempo. Estamos em 2005 e onde ninguém aí falava de crise e o que temos aqui é o programa brutalmente agressivo que a Troika impões desde 2010, ou seja, este apelo expressa o verdadeiro modelo que a direita desejava implantar em toda a Europa. Consequentemente, confirma-se a máxima do “investidor-abutre” Paul Singer, para quem a confusão é óptima para os negócios pois é com ela que se conseguem os melhores resultados. O caos de 2010 deu então à direita europeia a possibilidade de implantar o seu programa tão bem estabelecido em 2005.

Nos subscritores do Apelo consta, entre muitos outros, um nome famoso, o Dr. Hans-Werner Sinn, director do IFO Institute. Os resultados destas políticas, estão bem à vista e bem reconhecidas pelo próprio Hans-Werner Sinn quando esta afirma e conforme nos informa, a 6 de Julho de 2014, a agencia Bloomberg:

“Households and companies are over-indebted, banks are over-indebted, states are over-indebted and national central banks are over-indebted” within the euro system. “It’s not nice for the creditor to recognize that he won’t get his money back, but the sooner he faces the truth, the better.”

Houve pois muito tempo para se chegar aos resultados que Hans-Werner Sinn agora denuncia, ao caos que muitos dos assinantes do Apelo dos Economistas alemães desejavam e assim se estoira com o Modelo Social Europeu. E para isso houve pois todo um caminho de manipulações, de produção de fantasias, de ilusões de que nos fala Bill Mitchell, de criação e de justificação para se aceitar a ideia de multiplicadores negativos, os tais multiplicadores negativos como se refere no Apelo dos Economistas alemães, ou alternativamente muito baixos  como eram apresentados pelo FMI.

Aqui vale a pena citar Blommberg :

“A posição de Sinn reflecte as apreensões na  Alemanha acerca dos resgates feitos na zona euro que começaram em 2010 com a crise da dívida pública Grécia  e actualmente  com o Banco Central Europeu a  pretender dinamizar a concessão de empréstimos  às empresas e aos agregados familiares e enquanto os dirigentes políticos, incluindo a  chanceler alemã  Angela Merkel, optam por  manter a actual configuração da União Europeia e Monetária como um todo.”

A mistificação aqui mais uma vez é total. O problema para Sinn não são as políticas de austeridade  que têm sido duramente aplicadas, o problema para Sinn  é o que há países que não devem estar na zona euro, será então o dos países que se portam mal apesar das políticas de austeridade e que, por isso mesmo, devem estar fora da zona euro!

Foi desta forma, foi  com a  mistificação do que é a ciência económica  e nesta, sobretudo,  com esta lógica dos multiplicadores que se justificaram  as políticas de austeridade, as políticas que geraram os resultados económicos agora denunciados por Hans-Werner Sinn,  e foi igualmente assim, com estes resultados que  se geraram os resultados eleitorais de agora, com partidos abertamente fascistas, os húngaros do  Jobbik e os gregos do  Chrysi Avgi,  no Parlamento Europeu inclusive,   e a partir dos quais, no caso português, António Costa quer agora a cabeça de António José Seguro.

(continua)

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Para ler a Parte IV desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A NECESSIDADE DE UM DEBATE NACIONAL E EUROPEU E TAMBÉM SOBRE AS RAZÕES PELAS QUAIS VOTAREI SEGURO – ASSIM COMO UMA SUGESTÃO PARA A LEITURA DE TRÊS TEXTOS DE ECONOMIA – por JÚLIO MARQUES MOTA.

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