ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A NECESSIDADE DE UM DEBATE NACIONAL E EUROPEU E TAMBÉM SOBRE AS RAZÕES PELAS QUAIS VOTAREI SEGURO – ASSIM COMO UMA SUGESTÃO PARA A LEITURA DE TRÊS TEXTOS DE ECONOMIA – por JÚLIO MARQUES MOTA.

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Algumas considerações sobre a necessidade de um debate nacional e europeu e  também sobre as razões pelas quais votarei Seguro – assim como uma  sugestão para a leitura de três textos de economia

Parte IV

(CONTINUAÇÃO)

Os críticos de António José Seguro poderiam falar disso, mas não, não o terão feito, porque o inimigo principal, de repente, passou a ser o Secretário-Geral do PS. Estranho, direi eu. Passa-se afinal em Portugal o mesmo que em Itália, com uma diferença de meses, com a subida de Renzi ao poder, por “golpe” interno, com a garantia que vai aplicar as reformas europeias. Entretanto o Banco Central Europeu encarregar-se-á de gerir as taxas de refinanciamento público da dívida italiana, como se diz que o terá feito com Mario Monti.  E fala-se a seguir de credibilidade dos mercados financeiros.

Do “socialismo” de Renzi[1], as  suas leis do mercado de trabalho aí estão já a mostrá-lo, como o despedimento sem justa causa, como a passagem dos contratos de trabalho temporário para uma duração de 3 anos, a  mostrar que estas leis não diferem das impostas pelos dirigentes da actual coligação no poder, em Portugal. Não esqueçamos o que se passou em França: com uma derrota histórica nas autárquicas devida às políticas de direita seguidas, o Presidente francês deu ainda mais do mesmo, nomeou um governo mais à direita e deu-se a hecatombe, Marine Le Pen tornou-se o principal partido nestas eleições. Releia-se o texto citado de Standard and Poor’s.

Tudo isto nos mostra a Europa a caminhar, a ritmo de cavalgada wagneriana, para a hecatombe total, e em Portugal a considerar-se que um secretário-geral, prisioneiro dos deputados fieis ao seu antecessor e prisioneiro do retorno que a direita a este mesmo antecessor organizou, é o principal responsável da não saída eleitoral e dos bloqueios de que estamos todos a ser vítimas, é coisa que nunca imaginaria que se iria verificar. E Bruxelas sai por esta via completamente branqueada do que se está a criar, graças à operação de tensão criada pelo António Costa no PS. Não será essa a sua intenção, acredito, mas será leviandade política pensar que os actos são independentes das suas consequências. Não, desde Hegel que sabemos serem os actos solidários com as suas consequências e que só à luz destas é que os mesmos podem ser interpretados.

Considerando como um dado que a saída para a crise só pode ser encontrada pela via democrática, pela via das urnas, a um homem com a experiência política de António Costa seria mais lógico que tomasse uma posição semelhante à de tantos outros que procuram interpretar os sinais destas eleições, para se desenharem as estratégias de mudança na política económica e social fiáveis, articuladas num quadro europeu, sem aventureirismo mas com radicalismo. Deste tipo de prático deixo-vos um excerto da profunda análise de um artigo de Zygmunt Bauman, publicado em Social Europe Journal, com o título:  As eleições europeias, a Política e a Desigualdade:

“ O que podemos aprender com as eleições para o Parlamento Europeu?

Podemos aprender muito sobre as consequências prováveis dessa mudança profunda que irá resultar dos resultados das recentes eleições para o Parlamento Europeu. Estas eleições, ao contrário das eleições para os parlamentos nacionais, são consideradas como de muito pouca importância e de muito pequeno impacto prático sobre as condições em que os eleitores esperam poder conduzir as suas vidas e os seus esforços no quadro de um futuro próximo e previsível e não num futuro muito distante. Estas eleições servem aos eleitores em vez disso como uma espécie de válvula de escape das suas tensões: são uma boa ocasião para deixar escapar o excesso de pressão, como a válvula de segurança numa panela de pressão, para desabafar e deitar fora ao vento as queixas que lhes envenenam a vida, que lhes envenenam o sangue, e para se livrarem por uns tempos das emoções potencialmente tóxicas – e tudo isso numa forma relativamente segura, porque inócua e sem consequências.

A marca mais saliente das últimas eleições parlamentares europeias foi a de uma proporção sem precedentes de eleitores a aproveitarem totalmente aquela ocasião e virem para as mesas de voto sem nenhuma outra finalidade que não seja a de gritarem “Pobre de mim!”, “Meu Deus!” – e “Socorro!”: tais comportamentos são particularmente privados de um objectivo específico definido em termos políticos actuais. (…)

Há 28 Estados-membros e 28 variedades de infelizes. Alguns dos bem sucedidos partidos que protestavam eram realmente de extrema direita: na Hungria, por exemplo, Jobbik obteve três deputados e mais de 14% dos votos. Muitos partidos, como o vitorioso Ukip da Grâ Bretanha, captaram votos de direita e de esquerda, alimentaram sentimentos tais como “nós queremos o nosso país de volta ” e “muitíssimos estrangeiros a mais, muitíssimos empregos a menos ”. Mas na Grécia, o grande voto de protesto foi para a esquerda, para o partido anti-austeridade Syriza.

Eis porque é que eu acredito que as lições destas eleições devem ser especialmente esclarecedoras para o tema da nossa conversa. Infelicidade foi, de facto, ao que parece, o que levou os cidadãos da Europa a votar da forma que o fizeram, (observe que pela primeira vez na história da UE o número de eleitores não desceu), mesmo se os culpados assumidos/putativos da infelicidade deles diferem de um país para outro. Para todos eles se pode adivinhar, poucas pessoas que vieram expressar a sua infelicidade e desabafar em público a sua ira confiaram em alguém da lista de candidatos para poder aliviar a sua miséria e nenhum dos programas em disputa eleitoral era são para poder ser eficaz. O que é que motivou um grande número de eleitores foi sobretudo “a frustrante fadiga”, o quebrar das esperanças, de que já há algumas décadas Peter Drucker nos tinha avisado, da salvação prometida mas que não veio “de cima”. O protesto contra a direcção que as coisas têm vindo a tomar até ao momento, a mensagem mais vociferante destas eleições, não foi dirigida contra nenhum partido específico do espectro político existente – mas sim contra a política, na sua forma actual, usurpada como o está a ser – ou como se acredita amplamente que o seja – pelas elites, cada vez mais distantes e cada vez mais longe dos problemas que ocupam a maior parte do tempo e absorvem a maior parte da energia das “pessoas comuns”. Que a política como um todo é vista por muitos como uma quase situação de falência…(…)

A expropriação da política

Se havia um denominador comum para a infelicidade manifestada pelas muito diferentes categorias sociais, económicas e políticas de europeus, este era – ou tão pelo menos é o que me parece – no plano prático, se não mesmo no plano explícito, este denominador comum era a expropriação da política que foi feita contra os cidadãos para quem, afinal, esta tinha sentido e para quem foi concebida servir. Mas, como Abraham Lincoln propôs e insistiu há muito tempo, nenhum homem é suficientemente bom para governar um qualquer outro homem sem o seu respectivo consentimento. A auto-produção, a auto-afirmação são não somente alguns de entre os muitos inalienáveis direitos humanos mas são igualmente os pilares para “os cidadãos viverem diariamente em democracia” (…).

A liberdade de auto-afirmação individual combinada com a personalidade geradora leva a que se seja capaz de multiplicar a riqueza material e espiritual do mundo humano e com isso – e graças a isso – aumentar também o significado e a qualidade moral da existência humana e da convivência. Essa combinação, se formos bem sucedidos no esforço para com ela substituirmos o modo actual de auto-criação e de auto-afirmação baseado na rivalidade em vez de o ser na colaboração, tem uma chance de evitar o rebaixamento da humanidade ao nível de um jogo de soma zero. A liberdade de autodefinição individual unida com a prática de “excorporação” é uma garantia de crescente riqueza e de diversidade do potencial humano –, mas também de melhoria do espaço para todos nós e para a auto-definição e auto-constituição de cada um de nós. Solidariedade de destino e de esforços resultantes e apoiados pela criatividade não se irá situar em oposição ao propósito de auto-afirmação individual; muito pelo contrário, tornar-se-á o seu melhor aliado – o mais leal e confiável. Essa solidariedade é, na verdade, uma condição necessária e a melhor garantia do seu sucesso.”

(continua)

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[1] Pedi a um amigo meu que muito respeito como economista e como político a sua opinião sobre  Renzi e eis a resposta: “Renzi is a Christian Democrat, a big mouth and little substance, basically anti-democratic who resurrected Berlusconi; he won the European elections for the PD but is leading it nowhere. The pretense that the temporary Italian presidency of the EU is an important opportunity to launch a programme for employment and growth is a pathetic joke.”. Entretanto assistimos na imprensa  portuguesa, e não só,  ao endeusamento de Renzi.

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Para ler a Parte III desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A NECESSIDADE DE UM DEBATE NACIONAL E EUROPEU E TAMBÉM SOBRE AS RAZÕES PELAS QUAIS VOTAREI SEGURO – ASSIM COMO UMA SUGESTÃO PARA A LEITURA DE TRÊS TEXTOS DE ECONOMIA – por JÚLIO MARQUES MOTA.

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