SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – FIM DE SÉRIE – NOTA DE JÚLIO MARQUES MOTA
joaompmachado
Com o texto O desastre italiano a série SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR, está a chegar ao fim. Terminaremos esta série, com um grande trabalho de Perry Anderson, O Desastre Italiano.
Sublinho mais uma vez que a edição desta série surgiu da ideia de que a actual situação do PS ou se quiserem sobre o que se está a passar no PS e por imposição de António Costa teria algum paralelo com o que politicamente se tem passado na esquerda da Itália actual.
Na minha opinião, os paralelos são vários, a saber :
1.Matteo Renzi organizou “um golpe de Estado” no interior do PD para assumir o poder, levando à demissão de Enrico Letta. Nada diferente do que se estará a passar no PS, uma vez que se trata de eleições primárias para escolher o candidato a primeiro-ministro, situação imposta por um homem, António Costa, como em Itália o foi com Renzi a levar à demissão de Letta. Se Costa ganhar, Seguro cai, tal como no caso italiano . No então um mês antes da queda Renzi escrevia a Enrico Letta: ‘Enrico stai sereno nessuno ti vuolprendereil posto’ .
Com a ascensão de MatteoRenzi, com a demissão de Enrico Letta, a União Europeia comprou tempo, como agora se diz. Face ao desaire brutal das eleições legislativas italianas, era preciso salvar a pele nas Europeias com alguém que não afrontasse Bruxelas. Era preciso apresentar um homem que se mostrasse salvador da Itália, um homem que não se poderia acusado de nada porque não tinha sido ainda poder, um homem que podia de cara lavada prometer as reformas que Bruxelas pretendia. Precisava-se de um verdadeiro Leopardo e este estava encontrado na figura de MatteoRenzi. Deste ponto de vista Renzi foi bem claro: era necessário “a newgovernment, a newphaseand a radical programmeofreform. Numa declaração dirigida a Letta foi mesmo ainda bem mais claro, ao dizer que a economia da terceira maior nação da zona euro precisa urgentemente “a newphase” e um “radical programme” e por isso a “thenecessityandurgencyofopening a newphasewith a newexecutive”.
E assim se evitou a discussão em aberta sobre a zona euro, sobre a responsabilidade de Bruxelas, de Merkel, do Bundesbank a que de uma ou outra maneira o BCE está condicionado.
Em Portugal a analogia é imediata. A direita sofreu uma derrota uma derrota estrondosa mas o PS ganhou apenas por uma margem reduzida. Alguém ganhou então. Ganhou Marinho Pinto. Importava discutir a razão de ser dessa vitória, mas discuti-la seria ter de discutir as razões sobre o descontentamento geral e profundo que atinge praticamente toda a Europa e de que a votação em Marinho Pinto é um claríssimo sinal. Acusando o Secretário-Geral do PS, António José Seguro, como o responsável pela falta de vitória esmagadora do PS, seria a contra-imagem da derrota esmagadora da direita, deixa de se falar da derrota da direita, para se falar da oposição como um espaço onde ninguém se entende. Com a sua tomada de posição, simultaneamente deixou de se falar de derrota da Direita e António Costa contorna assim o problema europeu, contorna assim a crítica objectiva aos verdadeiros responsáveis pelo que se passa em Portugal e faz um favor a Bruxelas. Não se fala dos seus homens, no poder em Portugal nem dos mecanismos compressores da Troika, os principais responsáveis pelo que se está a passar. Do nosso ponto de vista, os principais responsáveis pelo aparecimento da crise e pelo seu aprofundamento não são em primeiro lugar os Passos Coelho, os Vitor Gaspar, os Paulo Portas, os Álvaros Santos Pereira, não são, pois estes nada mais são que leais servidores da potência ocupante, (adjectivo precisa-se, mas François Asselineau chama-lhe crime de alta traição) e premiados por isso logo que possível, como se exemplifica já com as nomeações havidas ou a haver quer para as instâncias internacionais ou mesmo para as nacionais. Das mais recentes, destaco Carlos Moedas já assinalado como Comissário Europeu para os Assuntos do Emprego e Helder Rosalino para Administrador do Banco de Portugal, premiado assim este último pelo assalto que fez aos direitos dos funcionários públicos, ou será que é nomeado para o Banco de Portugal para reduzir à escala dos funcionários públicos os direitos dos trabalhadores bancários e, sobretudo, os do Banco de Portugal? Do primeiro, basta lembrar a nossa série sobre a Itália, para nos situarmos contra esta nomeação e contra a crença de António Costa em Juncker em que aqui se assinala que surge ainda como um recuo face a Barroso e OlliRehn. Diz-se nessa série:
“Juncker mostra como é que a sua agenda não é senão mais do mesmo ou até mesmo um recuo. Seria suficiente lembrar a fraqueza intrínseca de uma União Monetária sem um verdadeiro refinanciador de último recurso e sem um orçamento federal, citando o que a própria Comissão Europeia afirmou antes da introdução do euro. Seria demais esperar de Juncker um discurso semelhante ao que foi feito pelo Comissário do Emprego, Laszlo Andor, há algumas semanas sobre a inevitável tendência da União monetária incompleta para descarregar sobre os trabalhadores o peso dos ajustamentos em termos de competitividade— em termos de aumento do desemprego e de redução de salário. Juncker, em vez disso, continua na melhor tradição de Barroso e de OlliRehn, coloca a tónica sobre as míticas “reformas estruturais”, uma expressão altamente nebulosa, atrás da qual se esconde a receita habitual de precariedade laboral em forma de submissão à teoria para a qual a rigidez salarial não permite uma alocação ágil e optimal dos recursos. Uma teoria empiricamente indemonstrável e, portanto, um excelente apoio para os homens de fé, como é o caso de Juncker. Enquanto isso, os trabalhadores europeus devem agarrar-se à esperança de que os próximos cinco anos passam rápido.”
ou seja, sai um senhor, Laszlo Andor, um especialista em questões do trabalho internacionalmente reconhecido e entra um servente, Carlos Moedas, para ir viver das mordomias que Marinho Pinto tão fortemente critica. Moedas sai assim premiado, mais um portanto. Mas dizíamos , do nosso ponto de vista, os principais responsáveis pelo aparecimento da crise e pelo seu aprofundamento estão algures, em Bruxelas, em Berlim, em Frankfurt, contra os quais é todo o povo português, francês, espanhol, grego, cipriota, ou ainda outros, que se tem de levantar, se querem sobreviver, se querem quebrar o torniquete que os afoga, se querem como países independentes viver. A alternativa a este levantamento popular nacional a ser feito país a país, e por isso um levantamento europeu é o que nos propõe Manuel Valls quando este afirma no Conselho Nacional do PS em 14 de Junho passado : «Oui, la gauche peutmourir.» A esquerda pode morrer, é a alternativa dos responsáveis pelo poder em França, e ditos socialistas. A alternativa a este levantamento popular e europeu, pode ser igualmente ser o que fez Renzi, ou seja capturar a democracia como nos mostra o extraordinário texto com que iremos terminar a série, O desastre italiano, de Perry Anderson .
Renzi ganhou mas não derrotou BeppeGrillo, não derrotou o descontentamento. Necessariamente assim, uma vez que houve com Renzi uma mudança do discurso para se poder continuar na mesma política e ficar tudo até eventualmente pior. Não vejo que em Portugal não venha a acontecer o mesmo que em Itália, que em França. Não há nenhum sinal de uma verdadeira mudança em António Costa face ao que afirmamos relativamente à responsabilidade das entidades que constituem a Troika em tudo o que se vai passando. E a saída da crise de um país, ainda por cima um pequeno pais como o nosso, não é questão de pessoas singulares, é uma questão de modelo a seguir que o país como um todo deve seguir, face á plutocracia europeia.
4.Como se vê no pequeno excerto de Renzi, “ thenecessityandurgencyofopening a newphasewith a newexecutive” , é isso que Renzi pensa. Pensar que é apenas uma questão de pessoa singulares releva do oportunismo político ou da ignorância, mas ignorância política o que não se pode atribuir a Costa. Daí, de novo, uma possível equivalência. Espera-se, diz-nos ele na Quadratura do Círculo, os novos sinais de Bruxelas, os sinais consequentes às afirmações de Juncker, que sinceramente não disse nada de importante, ou ainda às afirmações de Mario Draghi, o homem que quer salvar o euro matando-o, declarações estas feitas no final de Agosto nos Estados Unidos! Mas mesmo que seja assim, se a saída da crise passa pelo crescimento, e passa mesmo, se esse crescimento passa por esses sinais exteriores, então não passa pela responsabilidade de António José Seguro. Sendo assim, a situação criada no PS bem poderia pois ter sido evitada e em conjunto deveria ser determinada a estratégia a seguir .
E repare-se a amarga ironia que cada um de nós pode ter sentido ao ouvir os notáveis do PS falar de António Costa, queiramos ou não, como o salvador do país, o homem que nos vai trazer o crescimento! Como, não o disseram e assim estes notáveis colocam-se no mesmo plano que a actual ministra das Finanças que nos garante que vem aí o crescimento, mas quando e como, não o sabe! Inacreditável, mas sendo certo que a ministra não nos merece nem cientifica nem politicamente nenhuma consideração, o mesmo não se se passa com os nossos notáveis. Poupem-se e poupem-nos de os ouvir falar assim.
5.A continuar por este caminho de tensão , isto significa o descrédito de toda uma classe política à esquerda, creio eu, e com isso não se pode, não se deve, estar a brincar. Este descrédito acaba por ficar carregado de fortes ameaças. É pois preciso coragem e muita lucidez, escrevia um analista francês, para o enfrentar. Mas a “ lucidez é a ferida que está mais próxima do Sol, dizia-nos René Char.