Quanto ao que se passa em Itália, onde a democracia já está aprisionada, e em particular ao possível papel que M5 possa vir a exercer diz-nos o autor de O Desastre Italiano:
Grillo personifica o Movimento Cinco Estrelas, como o seu principal fundador que é bem mais vasto que a vida do seu fundador e líder. Um autocrata que não tolera nenhuma dissidência, ele também opera fora do Parlamento, mantendo dentro margens de liberdade muito estreitas aos seus seguidores e capaz de proceder à expulsão sumária daqueles que quebrem a disciplina; enquanto o número daqueles que votam on-line nas deliberações do movimento permanece pequeno, não mais de trinta mil aproximadamente. A grosseria de muitas das intervenções do Grillo tanto podem repelir como atrair; o mesmo se pode dizer quanto à sua indeterminação ideológica de grande parte do seu apelo, a permitir inflexões tanto para a direita como para esquerda. A sua geral – não é completamente invariável – recusa em fazer acordos com os outros partidos ou coligações também tem sido uma atitude auto-destrutiva. Estivesse ele disposto , depois do sucesso do M5S nas eleições do ano passado, para dar apoio externo a Bersani em troca de um acordo sobre a reforma política, hoje o Quirinale estaria livre de Napolitano e Renzi ainda estaria no Palazzo Vecchio e a Itália poderia ter evitado um Neo-Porcellum.
Se o que se pretende é sermos eficazes então o protesto exige o trabalho da inteligência, juntamente com a intransigência da vontade. Talvez Grillo, aprendendo com a experiência, venha a mostrar ser mais versado e versátil e menos comandante, no futuro, e o movimento que ele criou seja na verdade mais do que um redemoinho resultante da passagem de uma turbulência. Os italianos devem esperar que assim seja, pois com o desaparecimento de toda e qualquer esquerda significativa e para a qual não há nenhum substituto, o M5S não só pode também emergir como a única oposição de importância no país e com todas as suas falhas e paradoxos, como ainda representa o único esboço algures em toda a Europa de uma contra-força para todos aqueles a quem roubaram a democracia representativa.”
A continuarmos assim é a Europa que iremos todos deixar morrer à porta dos novos bárbaros, dos novos Neros que impõem a politica da austeridade expansiva, da precariedade expansiva para punir e “salvar” a Europa e com ela Portugal segue o mesmo destino, talvez mais rapidamente até. Diremos até que a União Europeia, aproveitando-se da crise utilizou-a, aprofundou-a, para com isso aproveitar historicamente a situação e realizar o sonho de David Rockfeller e de todos os ultra-neoliberais, quando este na Time em 1 de Fevereiro de 1998 defendia que se devia transferir o governo dos povos para o sector privado (…) e transferir a definição da norma ao sector privado ». Mais precisamente[1] :
“Nestes últimos anos tem-se verificado uma tendência para a democracia e para as economias de mercado. Isto tem diminuído o papel do governo, o que o mundo empresarial defende. Mas o outro lado desta moeda é que alguém tem que assumir o lugar do governo e o mundo empresarial parece-me serem a entidade lógica para o fazer”.
Esta parece-me a agenda política da Troika. Com efeito em democracia, o social deve determinar o económico e este deve determinar o que é o sector financeiro que ao serviços destes dois sectores deve estar ao serviço. Ora assistimos ao inverso: depois de ditarem as suas leis a toda a economia, a finança determina agora as leis aos próprios Estados, impondo-lhes a sua própria desregulação como regra. As normas ditadas pelo privado, como dizia Rockefeller. Uma análise in fine destes últimos anos mostra claramente que este parece ser o objectivo, a agenda, da Troika.
Contra esta agenda, poupem-nos das aventuras que poderemos correr com a prática agora instalada por António Costa no PS e procuremos um espaço de acção colectiva para salvar o que é possível das garras da Troika e dos serventes da Troika mas pelo caminho que isso torne possível, não por aquele que me parece estar a ser seguido e imposto por António Costa no PS. E, como nota à margem, por tudo isto não votarei em António Costa.
Com o texto de Perry Anderson, que se segue, O Desastre Italiano, concluímos a longa série sobre Os leopardos que querem bem servir Bruxelas – da Itália, falemos então de um bom exemplar. Espero que tenhamos sido úteis.
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[1]“ In recent years, there has been a trend toward democracy and market economies. That has lessened the role of government, which is something business people tend to be in favor of. But the other side of the coin is that somebody has to take governments’ place, and business seems to me to be a logical entity to do it.”