SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – FIM DE SÉRIE – NOTA DE JÚLIO MARQUES MOTA

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Parte III

(conclusão)

Quanto ao que se passa em Itália, onde a democracia já está aprisionada,  e em particular ao possível papel que M5 possa vir a exercer diz-nos o autor de O Desastre Italiano:

Grillo personifica o Movimento Cinco Estrelas, como o seu principal  fundador que é bem mais vasto que a vida do seu fundador e  líder. Um autocrata que não tolera nenhuma dissidência, ele também opera fora do Parlamento, mantendo dentro margens de liberdade muito estreitas aos  seus seguidores e capaz de proceder à  expulsão sumária daqueles que quebrem a disciplina; enquanto o número daqueles que  votam  on-line nas deliberações do movimento permanece pequeno, não mais de trinta mil aproximadamente. A grosseria de muitas das intervenções do Grillo tanto podem repelir como  atrair; o mesmo se pode dizer quanto à sua  indeterminação ideológica de grande parte do seu apelo, a permitir  inflexões  tanto para a direita como para esquerda.  A sua geral  – não é  completamente   invariável – recusa em fazer acordos  com os outros partidos ou coligações  também tem sido uma atitude auto-destrutiva. Estivesse ele disposto , depois do  sucesso do M5S nas eleições do ano passado, para dar apoio  externo a  Bersani em troca de um acordo sobre a reforma política, hoje o Quirinale   estaria livre  de Napolitano e   Renzi ainda estaria no  Palazzo Vecchio e a Itália poderia ter evitado um Neo-Porcellum.

Se o que se pretende  é sermos  eficazes então  o protesto exige o trabalho  da inteligência, juntamente com a intransigência da vontade. Talvez Grillo, aprendendo  com a experiência, venha a mostrar ser mais versado e versátil  e menos comandante, no futuro,  e o movimento que ele criou seja na verdade  mais do que  um redemoinho resultante da  passagem de uma  turbulência. Os italianos devem esperar que assim seja,  pois  com o desaparecimento de toda e qualquer esquerda significativa e para a qual  não há  nenhum substituto, o M5S não só pode também emergir como a única oposição de importância no país e com todas as suas falhas e paradoxos, como ainda representa o único esboço  algures em toda a Europa  de uma contra-força  para todos aqueles a quem roubaram a democracia  representativa.”

A continuarmos assim é a Europa que iremos todos deixar morrer à porta dos novos bárbaros, dos novos Neros que impõem a politica da austeridade expansiva, da precariedade expansiva para punir e “salvar” a Europa e com ela Portugal segue o mesmo destino, talvez mais rapidamente até. Diremos até que a União Europeia, aproveitando-se da crise utilizou-a, aprofundou-a, para com isso aproveitar historicamente a situação e realizar o sonho de David Rockfeller e de todos os ultra-neoliberais, quando este  na Time em 1 de Fevereiro de 1998 defendia que se devia transferir o  governo  dos povos para o sector privado (…) e transferir a definição da norma ao sector privado ». Mais precisamente[1] :

“Nestes últimos anos tem-se verificado uma tendência para a democracia  e para as economias de mercado. Isto tem diminuído o papel do governo, o que o mundo empresarial defende. Mas o outro lado  desta moeda é que alguém tem que assumir o lugar do governo  e o mundo empresarial  parece-me serem a entidade lógica para o fazer”.

Esta parece-me a agenda política da Troika. Com efeito em democracia, o social deve determinar o económico e este deve determinar o que é o sector financeiro que ao serviços destes dois sectores deve estar ao serviço.  Ora assistimos ao inverso: depois de ditarem as suas leis a toda a economia, a finança determina agora as leis aos próprios Estados, impondo-lhes a sua própria desregulação como regra. As normas ditadas pelo privado, como dizia Rockefeller. Uma  análise in fine destes últimos anos mostra claramente que este parece ser o objectivo, a agenda, da Troika.

Contra  esta agenda, poupem-nos  das  aventuras que poderemos correr com a prática agora instalada por António Costa no PS e procuremos um espaço de acção colectiva para salvar o que é possível das garras da Troika e dos serventes da Troika mas pelo caminho que isso torne possível, não por aquele que me parece estar a ser seguido e imposto por António Costa no  PS. E, como nota à margem, por tudo isto não votarei em António Costa.

Com o texto de   Perry Anderson, que se segue, O Desastre Italiano, concluímos a longa série sobre Os leopardos que querem bem servir Bruxelas – da Itália, falemos então de um bom exemplar. Espero que tenhamos sido úteis.

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[1]“ In recent years, there has been a trend toward democracy and market economies. That has lessened the role of government, which is something business people tend to be in favor of. But the other side of the coin is that somebody has to take governments’ place, and business seems to me to be a logical entity to do it.”

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