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CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – ESQUECEMOS QUE AS VÍTIMAS DA HISTÓRIA SÃO OS NOSSOS JUÍZES?

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Os deputados da direita e da esquerda – mas em que se distinguem uns dos outros, no tocante a estilos de vida, salários, mordomias e outro tipo de privilégios? – escorregaram ingenuamente em certos bustos de presidentes da República, expostos, a partir de ontem, no interior daquele palácio do poder. O episódio tem tudo de folhetim político rasca. Os senhores deputados da esquerda não suportam a afronta de terem de olhar, concretamente, para os bustos de Carmona, Craveiro Lopes, Américo Tomás. Parecem virgens pudicas que não podem ver-se, nuas, ao espelho, ao saírem do banho. Não vêem sequer o ridículo dos seus protestos. Se a presença destes e outros bustos naquele palácio do poder é uma afronta, o que dizer da regular presença ao vivo do actual presidente Aníbal, do vice-primeiro ministro PP, do primeiro-ministro PC, do cardeal patriarca de Lisboa, quando calha de lá ter de se sentar, mudo e quedo, num cadeirão? Tais bustos remetem-nos para presidentes de república, paus-mandados do ditador Salazar. E quem o nega? Expôs-los lá, não é uma afronta que se lhes faz? Ou desconhecemos que, lá, onde há bustos dos carrascos do poder político, financeiro, religioso-eclesiástico, há também os ensurdecedores gritos das suas inumeras vítimas? Esquecemos que, em última instância, são as vítimas da história os nossos juízes? E quem de nós, se não incluI as inúmeras vítimas de algum dos três poderes, pode dizer que não é, pelo menos, cúmplice dos carrascos institucionais que as produzem, e, hoje, aos milhões e em ritmo cada vez mais acelerado? “Não se pode apagar a história”, defenderam-se, de atabalhoado modo, os deputados da maioria. Mas manda a verdade que se diga que a história é feita pelas vítimas dos carrascos do poder, muito mais do que por estes. As vítimas só não figuram lá, porque a história é mandada escrever pelos carrascos vencedores, onde todos eles figuram como heróis. Para sua vergonha. O trágico de todo este folhetim político, é que até o sujo negócio dos submarinos e dos pandur, de novo aí a arder, está a deixar o antigo ministro dos negócios estrangeiros, PP, ganhar tempo, para poder sair oficialmente incólume de toda essa pouca-vergonha!

2 Outº 2014

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