EDITORIAL – Um «enxovalho para a Democracia»?

logo editorialNo jardim principal do Palácio Fronteira, em Lisboa, construído entre 1671 ou 1672, ao cimo das escadarias laterais há uma galeria ao longo da qual se alinham nichos decorativos com os bustos dos reis portugueses, com a excepção dos três Filipes. No jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco há também uma curiosa galeria de esculturas do século XVIII com todos os monarcas que até então se sentaram no trono de Portugal – os três Filipes castelhanos, lá estão. Mas com uma particularidade: as dimensões destas três estátuas é muito menor que a dos reis portugueses. Este jardim foi mandado construir pelo bispo da Guarda, D. João de Mendonça, cujo episcopado decorreu entre 1711 e 1736. Ou seja, quando o Jardim do Palácio Fronteira foi edificado, a guerra com Castela terminara três ou quatro anos antes– reconhecer os Filipes como soberanos legítimos estava fora de questão. A galeria do Jardim de Castelo Branco data de quase cem anos após a Restauração. Já se admitiu que os Filipes tinham reinado, mas eram reis «pequeninos»…

Na Assembleia da República, foi aprovada a peregrina ideia de realizar uma exposição com os bustos e fotografias dos 18 Presidentes que a nossa República teve desde a sua proclamação. Há agora grande polémica porque foram incluídos os chefes de Estado da ditadura militar e do Estado Novo. A exposição “Cem anos de Presidência” , iniciativa da Câmara Municipal de Barcelos (PS)  foi autorizada, em Junho passado, pela comissão de Educação, Ciência e Cultura, sem que alguém se opusesse. Obteve a aprovação da Presidente da Assembleia da República. Ontem de manhã começou a ser instalada nos corredores do andar nobre do Parlamento. E, ao lado dos outros 15, lá estão Carmona, Craveiro Lopes e Tomás.

Na Comissão de Assuntos Constitucionais, um deputado  (PCP) afirmou que. “É um enxovalho para a democracia”, apoiado pelo PS e BE. Comunistas e bloquistas queriam suspender a exposição cuja inauguração está prevista para hoje às 14h30. “A mera referência cronológica é contribuir para o branqueamento do fascismo e aqueles que a defendem contribuem para esse branqueamento”; a exposição «não está à altura da História nem da casa da democracia do século XXI»; que “se retire a exposição neste momento, se suspenda a inauguração de amanhã e se convoque uma conferência de líderes e que se impeça que uma lavagem da ditadura vá por diante” – eis algumas das apaixonadas frases suscitadas por tão importante tema. A maioria refugia-se na recusa de manipulação ideológica da iconografia histórica. Até tem razão, mas, sendo maioria, dela não precisa.

Nós sugerimos que os bustos de Carmona, Craveiro e Tomás, sejam minúsculos, ou seja que sigamos a receita do bispo da Guarda. Não sendo admissível que aqueles presidentes do período ditatorial tenham a dimensão do busto de Cavaco Silva, talvez assim os parlamentares pudessem ocupar-se de um assunto que sendo menos importante, carece de esclarecimento – o negócio dos submarinos e em que bolsos o dinheiro caiu.

1 Comment

  1. “Ao regime salazarista não pode conceder-se a honra de considera-lo como uma República, porquanto, nada mais foi que uma ditadura. Em sentido contrário, quaisquer formalismos constitucionais invocáveis, caso aceites, serão uma afronta inaceitável ao sentir nacional republicano, atraiçoado e silenciado, como foi e esteve entre 1926 e 1974”. Como comentário, envio esta passagem da minha autoria (2012) que escolhi para fazer parte da capa do meu livro “Outro Caminho”(Outra Constituição; Outra Democracia; A Terceira República).CLV

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