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AS RAZÕES DA CRISE NA EUROPA. ANÁLISE DO CONTEXTO GLOBAL E DAS RESPOSTAS POSSÍVEIS À DRAMÁTICA SITUAÇÃO ACTUAL – INTRODUÇÃO por JÚLIO MARQUES MOTA – Parte II.

Falareconomia1

(conclusão)

Uma outra via para saír da crise é então necessária. Nesta linha de análise vale a pena ler o artigo de Bernard CONTE, membro do Comité Valmy e professor em Bordéus, sob o tema France: la ré-industrialisation pour un développement souverain et populaire, onde se toma como referência de base as linhas do programa de 1944 a partir do qual se reconstruiu a França com a consequente necessidade de reformulação dessas políticas para os dias de hoje, bem diferentes dos de então. Também na mesma linha pode e deve ser lido o texto de José Almeida Serra, sob o tema Euro: Sobreviver ou Perecer? pelas diversas linhas de saída que ao longo do texto também nos são minuciosamente indicadas.

Estes dois últimos textos talvez até mais directamente que os restantes,  mostram-nos à evidência  que a crise actual é também o reflexo de uma crise mais vasta, civilizacional, crise da Política  no verdadeiro sentido do termo, porque Políticos é hoje o que não temos, é hoje o que precisamos e queremos. Há pois, e primeiro que tudo, todo um trabalho político a fazer, o da consciencialização popular de que é necessário organizar a demissão e posterior julgamento político da nossa classe política no exercício do poder, a verdadeira responsável pelo que aconteceu, pelo que se fez, pelo se não fez e deveria ter sido feito[1]. Depois, há todo um trabalho de reconfiguração do tecido social e económico a fazer e  no sentido, necessariamente,  de reconstruirmos um outro Portugal que não o da miséria de agora. Ao mesmo tempo e, por esta via, estaríamos a trabalhar  e lutar por  uma outra Europa, que não a de muitos milhões de desempregados e já sem direito a nada, espaços pois onde a regulação a sério se aplique com conhecimento e seriedade. É sobretudo nesta perspectiva, e de entre todos, que devemos mais uma vez realçar os dois textos já referidos nesta série: o já citado de Bernard Conté e o de José Almeida Serra. Enquanto o primeiro está virado para a França, mas poderia estar virado para a Europa onde o modelo proposto seria mais facilmente aplicável, sem dor  e sem grandes convulsões internas diríamos, o segundo é um texto extraordinariamente angustiante, é um texto todo ele percorrido por um sentimento de tristeza e descrença nas lideranças actuais face à hecatombe que se desenhou e face ainda à degradação intensiva possível da situação presente e num futuro muito próximo. Lê-lo é um pouco como estar a ver um filme de Dryer, A Palavra, de Joseph Losey, filmes como Dois vultos na paisagem ou O criado, de Kubrick como Shining ou Nascido para matar, porque cada um deles, filmes e texto, sendo certo de nos aumentam a nossa capacidade de análise, simultaneamente levam-nos a ganhar uma clara noção da nossa própria impotência perante as nossas múltiplas realidades, até mesmo face à realidade com que colectivamente  nos debatemos, hoje. Vivemos num mundo de círculos, onde só um “milagre” parece ser a saída possível para os romper, como bem o ilustra Dryer na cena final de A Palavra, onde com o “milagre” se acertam, de novo, os relógios do tempo. No nosso caso seriam os relógios dos mercados e seria também o relógio da própria União Económica e Monetária que seriam acertados com o “milagre” feito pelos homens, pela rebelião das massas e não por aqueles  em que Almeida Serra também parece já não acreditar, as nossas elites actuais. É desta maneira que vejo o texto deste autor e tanto mais assim quanto o texto nos fala das medidas possíveis e exequíveis para salvar Portugal, para salvar a Europa, se houvesse vontade política para tal, para se sair da crise que ele vai descrevendo ao longo de 50 páginas. Simplesmente,  esta saída não é visível num horizonte bem largo. O círculo, pelo contrário aperta-se cada vez mais. E assim continuará, a menos que, pensamos nós, Bruxelas e Berlim se confrontem com a rebelião das massas.

Lamentavelmente o pessimismo do texto de José Almeida Serra  têm agora uma confirmação evidente da sua razão de ser: a actual composição da Comissão Europeia mostra-nos que iremos ter mais acção política europeia mas do pior que já nela se fez, mesmo que nos digam o contrário. Como muito bem nos assinala Peter Whal:

“Como um exemplo de como o modelo [ da actual Comissão Juncker] funciona, Valdis Dombrowski, antigo primeiro-ministro da Letónia e fundamentalista dos mercados, vai liderar um grupo responsável pelo diálogo social, pela reforma da União Económica e Monetária, ou a estabilidade do EURO, que inclui os referidos comissários Jonathan Hill [um lobista da City e agora responsável pelos mercados financeiros] e Pierre Moscovici [ o ministro francês que apoiou fortemente Hollande na sua viragem para o neoliberalismo]  e outros como Marianna Thyssen, responsável pelo trabalho (democrata-cristão belga). Hill e Moscovici também farão parte da equipa que garante “um novo impulso para o emprego, o crescimento e o investimento” e a competitividade, chefiada pelo Vice-Presidente, Jyrki Katainen, que foi um defensor da linha dura na crise do Euro. Além disso, o “super vice-presidente” Timmermans (um social-democrata holandês) terá um veto total sobre os outros comissários. Dada a constituição desta equipa, seria preciso acreditar em milagres para poder esperar uma mudança substancial nas principais áreas da crise.”

E, por ironia,  refira-se que também aqui se fala de milagre, mas não tem nada a ver nem com o sentido de Dryer, nem com o sentido por nós acima indicado, a rebelião das massas.

A série terminará com um texto que é um pouco a antevisão do que poderá suceder e dentro de muito pouco tempo à segunda potência da zona euro, a França, se Bruxelas e Berlim não inflectirem a trajectória das políticas impostas. Como se ilustra abaixo, o que poderá acontecer à França é poder vir a cair como se caiu na Grécia, como se caiu em Portugal, como se caiu na Irlanda, como se cairá noutros países, se não houver não apenas uma mudança de ampulheta mas também uma viragem do sentido dessa mesma ampulheta. Pedir demais, será?

A série terá a seguinte estrutura:

  1. Pierre Concialdi, Para uma convergência económica e social.

  2. José Almeida Serra, Euro: Sobreviver ou Perecer?

  3. Bernard CONTE, França: re-industrialisação para um desenvolvimento soberano e popular

  4. Blog LeBonDosage, A crise aprofunda-se. De espantar, não?

  5. Blog LeBonDosage, Situação comercial francesa em Abril de 2014

  6. O pior está ainda para vir: uma antevisão de um futuro já bem próximo. (textos de Huffington, Business Insider)

Quanto ao pior está para vir, uma imagem vinda de Wall Street sobre a segunda potência da zona euro, a França, criada por David Einhorn, uma das grandes estrelas do covil de ladrões de luva branca ou mesmo de luva apenas virtual, em que se transformou Wall Street:

“Embora os mercados obrigacionistas vejam a França como próxima da Alemanha, a França é actualmente muito mais parecida com a Grécia.

A Grécia já tomou os seus medicamentos de sabor bem amargo, reestruturou as suas obrigações e a sua economia, e está a recuperar a sua economia depois de ter estado à beira da morte. A França parece demasiado orgulhosa para ser capaz de aceitar fazer as reformas necessárias.”

Boa disposição para se disponibilizarem para esta série tão longa. Boa leitura, portanto,

Coimbra, 25 de Outubro de 2014.

Júlio Marques Mota

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[1] Exemplo disso, e agora bem próximo, é o descalabro em torno da PT que representa a existência de venda de títulos a descoberto, a especulação dita à vista ou short-selling. O mínimo de bom senso deveria ter levado, após a descoberta do “desvio” de 900 milhões, à proibição imediata de venda a descoberto de títulos PT. Mas isto seria o mínimo. Nem o mínimo é feito e com isso são os pequenos investidores que ficam espoliados das suas pequenas poupanças que estavam aplicadas na PT. Uma nova forma de roubar é o mínimo que se pode dizer e tão culpado é quem rouba como quem deixa roubar. Lembro aqui que no século final do século XIX se deu uma forte crise financeira na Alemanha. Uma das primeiras coisas que foi imediatamente feita pelos alemães foi a proibição da venda de títulos para entrega diferida, ou seja, o que agora se chama short-selling, ou especulação à vista. Eles sabiam o que havia a fazer e fizeram-no! Eles sabiam que numa fase de disfuncionamento dos mercados só há uma forma de evitar o pior, é bloquear a sua actividade e privá-lo das suas armas mais mortíferas. Sabiam e estiveram à altura do que sabiam nesta matéria. Isto é exactamente ao contrário do que agora os nossos dirigentes entendem, e estes entendem que um mercado é tanto mais eficaz quanto mais desregulado estiver, que é tanto mais eficaz quanto mais agressivos foram os agentes entre si, investidores que compram, investidores que vendem, empresas que são valorizadas ou desvalorizadas sem que nada na realidade a estas tenha acontecido que justifique estas variações, especuladores com força que incentivam e ganham fortunas com estes movimentos, e tudo isto porque na opinião destes neoliberais, este comportamento agressivo,  esta guerra permanente é uma peça chave na ”revelação” do valor dos activos! Nem com o chão juncado de mortos, empresas e pessoas, estes neoliberais entendem que não é assim! Não são cegos, não são surdos, só poderão então ser uma coisa: ladrões ou coniventes com eles, para a partilha do saque.

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