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CARTA DE ÉVORA – Bem-aventurada seja a Esperança! (à esperança que vem da Grécia!) – por Joaquim Palminha Silva

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            Entre as inumeráveis misérias que hoje danificam a alma, curvam e escravizam o Homem, a mais insultuosa é a pobreza de Esperança!

            Diz-se que a Esperança é a última a morrer, cabe-nos não permitir que ela fuja para os sepulcros… Nós sabemos que se o grão não morre nas tumbas paralelas das leivas, não pode dar fruto… Por conseguinte, acredito que a Esperança é uma das mais impressionantes virtudes do género humano.

            A Esperança é a essência que sempre permanece nas almas, e nunca desilude… Ela trepa em redor dos túmulos, como a hera sobe exuberante, com o seu fresco verde-escuro, sobre os troncos dos carvalhos envelhecidos, condenados. Entretanto, devo declarar que a Esperança a que me refiro não nasce do sonho idílico de um idealista sequioso ou de um alucinado inconsciente…

            Dos meus sapatos, por assim dizer, não sacudo o pó das ruínas nem a lama vermelha dos massacres… Eu sei, talvez melhor que os pessimistas de gabinete e os intelectuais de estufa, que a vida, hoje mais do que no recente passado, é multifacetada de vileza, animalidade, cegueira, crueldade, imbecilidade e maldade. Sou informado ou obrigado a comtemplar todos os dias, com vergonha e terror, o alastrar imundo da ignorância e da cobardia nas suas várias modalidades, da ignomínia e da infâmia. Tal e qual alguns meus semelhantes, torna-se-me difícil reprimir o vómito e é árdua tarefa reprimir o choro. Queira ou não, todo o meu ser oscila continuamente entre a náusea e a misericórdia, entre impulsos de furor e sentimentos de piedade.

            Devo confessar que em certas horas sorri ao meu espírito um pensamento inusitado, que me incute a ideia de que deveria haver uma hecatombe capaz de eliminar dos rebanhos humanos os disformes de espírito, os idiotas que comandam, os supérfluos que governam, os incuráveis que enriquecem, os intoxicados pela guerra, os insensatos que traçam fronteiras terrestres a régua e esquadro, os empestados de todos as vaidades maléficas. Enfim, todos os endemoninhados que nos amarguram a vida! – Na realidade, não consigo descortinar diferença essencial entre o rico que trama a sociedade e empobrece o próximo, e o pobre que inveja e insidia sem escrúpulos; entre o envenenador que usa o arsénico e o envenenador que recorre à demagogia política, entre o poderoso que prepara as guerras e o ladrão de estradas que, à mão armada, percorreu todo nosso século XIX, e regressa hoje do alto do Poder de Estado com a mão armada de impiedosos impostos, e rouba “por esticão” a reforma aos velhos…

            Que mérito tem a Esperança onde não há sol, nem cresce o loiro trigo da seara? – Acalenta a paixão da Liberdade que vigora nos cárceres!

O ímpeto da Esperança é tal que pode ser alimentado pelas trevas! – A escuridão da noite torna mais viva a chama do archote!

            A minha esperança é, como toda a Esperança, um desafio ao impossível! Mesmo quando tudo parece estar contra mim, sinto que tudo pode ser meu aliado: – Cada muralha é uma escada! A corrente impetuosa do rio tem sempre um vau de passagem!

            Finalmente, compreendo agora que suprimir é mais fácil do que salvar! – Fique esclarecido para todos, que estou pronto a acreditar que apenas o inverosímil tem direito a encarnar-se no verdadeiro! O meu herói preferido é Lazaro, que se desvenda e inicia a caminhada para a vida no limiar do túmulo escancarado!

            Contra todas as evidências, experiências e sofrimentos, eu creio, com pertinaz e obstinada Esperança que o espírito acabará por transfigurar a matéria, que a alma nobilitará a carne…

            Ao cabo e ao fim sou português! Como os meus antepassados, acredito que, depois de passar o conhecido Cabo Nãohá mais mundos para além do Bojador!

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