A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – 12. ESTA DÍVIDA QUE A ALEMANHA AINDA TEM PARA COM A GRÉCIA; ENTREVISTA COM O HISTORIADOR DE ECONOMIA ALBRECHT RITSCHL – por MICHAEL NEVRADAKIS
joaompmachado
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A caminho da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade
Esta dívida que a Alemanha tem ainda para com a Grécia: entrevista com o historiador de economia Albrecht Ritschl
Michael Nevradakis, CETTE DETTE QUE L’ALLEMAGNE DOIT ENCORE À LA GRÈCE: ENTRETIEN AVEC L’HISTORIEN DE L’ÉCONOMIE ALBRECHT RITSCHL
Okeanews.fr. 10 de Fevereiro de 2015
Numa entrevista que data de Novembro de 2014, Albrecht Ritschl, professor de História Económica da London School of Economics, fala sobre as dívidas de guerra da Alemanha e das reparações devida à Grécia depois da segunda guerra mundial. Na sua opinião, a Alemanha é o pais mais desonesto em termos de dívida do século XX.
Albrecht Ritschl, professeur d’histoire économique à la London School of Economics. (Capture d’écran viaProud2bGreek1 / YouTube)
Michael Nevradakis: Muitas pessoas ignoram tudo sobre o empréstimo que o regime nazi coercivamente obteve da Grécia durante a Segunda guerra mundial. Façamos um resumo deste problema.
Albrecht Ritschl: Os elementos essenciais são os seguintes: durante a ocupação, a Alemanha forçou o Banco da Grécia a emprestar-lhe dinheiro, este empréstimo forçado nunca foi reembolsado e é provável que nem nunca ninguém tenha tido a intenção de o fazer. Temos aqui, nesta matéria, uma tentativa de disfarce, de camuflagem, poderíamos dizer, de custos de ocupação através de um empréstimo forçado – e este empréstimo tinha muitos maus aspectos. Alimentou a hiperinflação grega, que tinha tido origem na ocupação italiana, e sobretudo, ele puncionou recursos vitais da Grécia. Isto teve como consequência uma baixa catastrófica da actividade económica; e também nada fez para tornar a ocupação alemã menos impopular do que o que ela já era . Este facto fortaleceu a resistência grega na sua determinação contra a ocupação e teve como efeito diversas coisas muito trágicas e nefastas.
Os Nazis forçaram outros países ocupados a concederem-lhes empréstimos?
Sim, era uma maneira muito frequente e largamente utilizada. Exactamente para vos explicar um pouco o que se passava então, os Nazis tinham instaurado um sistema monetário de taxa fixa nos países ocupados, alinhando as taxas de câmbio sobre o reichsmark, a divisa alemã da época, mais ou menos à sua vontade. O sistema era centralizado no Banco Central alemão, o Reichsbank de Berlim, graças a um sistema de créditos a curto prazo, com contas de crédito a descoberto, e a Alemanha estava a crédito a descoberto no que diz respeito aos países ocupados – o que criava a ilusão de pagamentos.
Quando os oficiais alemães iam às fábricas francesas, belgas ou neerlandesas – nos três países onde a Alemanha tirava mais a grande parte dos seus recursos e requisitava máquinas e matérias primas – eles pagavam efectivamente e estes pagamentos eram creditados essencialmente sobre as suas contas nacionais no Reichsbank. O empréstimo exigido à Grécia seguiu um esquema similar. Como já disse, o essencial destes empréstimos provinha maioritariamente dos países da Europa Ocidental. A Grécia, devido à sua economia reduzida, representava apenas uma fracção de tudo isto. No entanto, os efeitos sobre a economia grega foram devastadores.
Que se passou depois da Segunda guerra mundial no que diz respeito aos empréstimos forçados da Grécia e dos outros países atingidos – bem como quanto às reparações de guerra e aos reembolsos da dívida de guerra, em geral?
É surpreendente que nada se tenha passado e a razão é a seguinte: depois da invasão dos Aliados e da queda do regime nazi, a primeira coisa que as autoridades de ocupação fizeram foi bloquear todas as reivindicações contra o governo alemão, em virtude de uma ficção jurídica segundo a qual o governo e o Estado alemão já não existiam. A questão era então a de saber o que é que se iria fazer depois da criação de novas estruturas estatais a partir de anos 1940. O problema era muito controverso, porque muitos governos da Europa ocidentais diziam: “Estamos tão felizes em refazer negócios e em reatar relações económicas com a Alemanha ocupada e, de facto, temos sempre estas contas que não foram liquidadas com os Alemães… E se os Alemães nos entregassem simplesmente mercadorias para liquidar os défices destas contas?”
Tornou-se uma preocupação enorme para os ocupantes, sobretudo para os Americanos, dado que temiam muito que as zonas ocupadas da Alemanha sangrassem a economia com tal sistema de reembolso dos empréstimos de guerra, e os Americanos procuravam sobretudo melhorar a situação alemã e relançar a sua economia. As razões da sua apreensão tinham as suas raízes na história das reparações do fim da Primeira guerra mundial, quando um sistema similar tinha sido posto em lugar após o final da hiperinflação alemã. Era um projecto americano de estabilização da economia alemã, o plano Dawes, que funcionava do seguinte modo: a Alemanha pagava as reparações aos aliados ocidentais e os Estados Unidos forneciam uma ajuda financeira à Alemanha. Entre 1924 e 1929 este sistema estava fora de controlo e era com efeito os Estados Unidos que financiavam as reparações alemãs.
Por conseguinte os Americanos, após a Segunda guerra mundial, temendo ver este esquema repetir-se, bloquearam toda a oposição aos alemães. Como o fizeram? Graças a um dispositivo um pouco engenhoso embora com uma ponta de maldade: todo o país que quisesse receber a ajuda do plano Marshall devia assinar um documento em que abdicava de toda e qualquer reclamação de indemnização de guerra contra a Alemanha em troca da ajuda do plano Marshall. Isto não significava bloquear completamente as reclamações mas afastava-as até uma época onde a Alemanha teria reembolsado a ajuda que tivesse recebido do plano Marshall. Em termos técnicos, isto colocava as reparações e os pedidos de reembolsos feitos à Alemanha numa escala inferior às do plano Marshall. E como todos queriam receber a ajuda do plano Marshall, todos assinaram as abdicações de má vontade. A situação durante o período do plano Marshall era por conseguinte esta: as dívidas existiam ainda sobre o papel, mas não valiam mais nada no sentido de que a dívida estava bloqueada.
Quanto é que se diz que a Alemanha deve a Grécia e aos outros países no que se refere as dívidas de guerra?
A dívida para com a Grécia era da ordem de um pouco menos de 500 milhões de ReichMarks; a dívida total devida à Europa Ocidental sobre as contas de compensação eram de 30 mil milhões de ReichMarks. Hoje em dia, isto parece ter o ar de não ser coisa nenhuma, mas faz todo o sentido se pensarmos que o total ascendia a cerca de um terço do produto nacional bruto da Alemanha em 1938, um ano antes de a Alemanha desencadear a segunda guerra mundial. Esta não era a única dívida, porque a Alemanha tinha manipulado o valor da dívida através do sistema de taxa de câmbio que ela própria controlava. Existem cálculos feitos por funcionários do governo alemão no final da segunda guerra mundial, então ainda sob o regime nazi, que tentam contabilizar o valor real da dívida total na Europa ocupada e chegam a resultados próximos de 80 a 90 mil milhões. O que se aproxima fortemente do PIB da Alemanha em 1938; digamos, 85 a 90%. Agora, estamos a falar de somas muito grandes. Só para dar uma ideia: o PIB da Alemanha [2013, nota do Editor], no ano passado foi um pouco mais de 2 milhões de milhões de euros, digamos então 90% deste valor. Estamos ainda acima de 2000 mil milhões de euros, só para lhe dar uma ideia do que a dívida estava então representava em termos de potencial económico da Alemanha.
Existe uma maneira de quantificar essa dívida e o seu valor actual, se o ajustássemos à inflacção e à taxa de câmbio das últimas décadas?
Existem várias maneiras de o fazer . O que eu acabo de fazer é uma delas e nós diríamos então que o total da dívida, se tomamos o PIB alemão como medida e em que não envolvemos a inflação, o valor total da dívida medido como sendo uma percentagem do PIB alemão durante um ano, hoje seria mais de 2000 mil milhões de euros.
Que argumentos avança a Alemanha, histórica e actualmente, sobre a questão das indemnizações e das dívidas de guerra?
Houve um importante período provisório com os acordos de Londres sobre a dívida alemã. No início de 1950, começaram as negociações entre a Alemanha Ocidental e os países credores. Foi encontrada uma solução – ou melhor uma solução novamente imposta pelos americanos e, em certa medida, pelos britânicos – que teve dois efeitos. Primeiro, reuniram-se as dívidas de guerra e as reparações – o que não era inofensivo. Em segundo lugar, eles defenderam propostas confusas que eram abertas à interpretação, dizendo que diferiam a resolução destes problemas até a reunificação da Alemanha. Porque são estes dois pontos tão importantes?
O primeiro ponto é o seguinte: se reunirmos as dívidas de guerra e as reparações alemãs, estamos a colocar tudo no mesmo saco. E não há nenhuma dúvida que a Alemanha pagou reparações consideráveis em espécie após a segunda guerra mundial, principalmente através de duas coisas: as entregas forçadas – entregas que foram muito importantes para o que se viria a tornar a Alemanha Oriental – e a cessação de territórios, que são agora parte da Polônia e, em menor medida, da Rússia, o que nós podemos chamar hoje, nos dois casos, de reparações em natura ou em espécie. Então se adicionamos as dívidas de guerra e as reparações, a escala é mais leve, porque as reparações em espécie foram consideráveis.
O segundo ponto são ainda as propostas confusas em que se diferia a resolução destes problemas para os amanhãs que se seguiriam à reunificação alemã, porque a grande questão era se esta cláusula, o artigo 5. dos acordos de Londres, constituiria uma obrigação depois da reunificação alemã, que se deu efectivamente em 1990.
Neste momento a imprensa e os meios de comunicação social falam muito da história de sucesso da economia alemã, da sua responsabilidade orçamental, que confrontam com a suposta irresponsabilidade orçamental dos países da Europa do Sul, como a Grécia. Mas no seu trabalho o senhor defende que a Alemanha representa o comportamento mais fraudulento sobre a da dívida que houve no século XX. Porque pensa que é assim?
Pois bem, podemos fazer falar os números e de forma séria e já tenho falado destas dívidas de guerras quase iguais ao rendimento económico da Alemanha em 1938, quando a Alemanha vivia uma situação de pleno emprego. Por conseguinte estas somas nunca foram reembolsadas. Temos, além disso, dívida pública da Alemanha que foi apagada por uma reforma monetária praticada pelos Americanos nas zonas ocupadas da Alemanha do Oeste e pelos Soviéticos nas zonas ocupadas da Alemanha Oriental em 1948. Os Soviéticos apagaram totalmente a dívida pública; os Americanos apagaram 85 %. Se agora adicionarmos tudo isto e tentarmos chegar a um valor total global, ao mesmo tempo interno e externo, do que foi apagado pela reforma monetária e os acordos de Londres, chegamos a um valor que é aproximadamente – é muito aproximativo, exactamente, para termos uma ordem de ideias – cerca de quatro vezes o rendimento nacional da Alemanha. Para darmos uma ordem de grandeza actual, se aceitarmos que o PNB é de aproximadamente 2 milhões de milhões de euros, o que equivale a mais de 2,5 milhões de milhões de dólares, nós falamos então de um incumprimento de pagamento e de uma redução de dívida de aproximadamente dez milhões de milhões de dólares. Pessoalmente, tenho tendência a pensar que é um valor sem equivalente na história do século XX.
Têm conhecimento de movimentos ou de activistas que tentam actualmente sensibilizar a opinião pública face às dívidas e às reparações de guerra?
Existe, mas relativamente de pouca importância. Para explicar isso, mergulhemos na situação jurídica na época da reunificação alemã de 1990. A Alemanha recebeu esta espécie de certificado de baptismo para uma Alemanha unificada que é redigido de maneira incrivelmente subtil e cujo único objectivo era, aparentemente, o de impedir qualquer queixa quanto às reparações ou às restituições contra a Alemanha unificada, sob o pretexto de que existia doravante um Estado alemão unificado e que o artigo 5 dos acordos de Londres poderia muito bem e em qualquer momento ser reactivado.
Do ponto de vista alemão, o tratado de 1990 não menciona as reparações ou as dívidas da Alemanha nazi, e dado que este ponto não é coberto pelo tratado, o problema é enterrado. Esta foi a atitude sistemática do governo alemão. E até agora esta atitude tem tido êxito… Numerosos ensaios foram apresentados para contestar este ponto ao Tribunal europeu mas têm falhado e parece-me que, de um ponto de vista legal, há relativamente poucas possibilidades que se venha a ter êxito.
O que nos leva à questão seguinte: porque é que não há uma maior sensibilidade para estes problemas na Alemanha ? E uma coisa nos coloca nessa via. É claro que Berlim não tem nenhuma intenção de falar destes problemas, porque os advogados temem sempre criar um precedente, Berlim permanece por conseguinte em silêncio sobre este tema. O único que falou, e é bastante revelador, foi o antigo Chanceler Helmut Kohl, a quem se interrogou sobre esta matéria à saída de uma conferência de imprensa aquando das negociações. Declarou: “Ouçam, afirmamos que não podemos pagar as reparações, porque se abrirmos a caixa de Pandora, tendo em conta a crueldade e a brutalidade nazis, dos genocídios – e os Nazis estão na origem de vários genocídios – tendo em conta estes factos horríveis e a escala incrível destes crimes aterradores, qualquer ensaio de quantificação e de queixa à Alemanha terminará, seja com compensações ridiculamente baixas ou então isso irá devorar toda a riqueza nacional da Alemanha. ” Esta é, de resto, a posição da Alemanha uma vez que : os prejuízos causados pelos Nazis, não somente em termos de sofrimento humano e moral, mas muito simplesmente termos de prejuízos materiais e financeiros, são tão elevados que isso ultrapassaria a capacidade de reembolso da Alemanha.
E como economista, tenho efectivamente medo de que isto não venha a ser arrancado totalmente pelos cabelos; há disso. O que afirmou seguidamente Helmut Kohl era de que em vez de abrir a caixa de Pandora e de entrar nas questões das reparações de guerra, seria certamente preferível continuar no que lhe parecia ser uma cooperação económica frutuosa na Europa. Na época, era uma boa ideia, e estávamos nessa época pré- euro onde todos éramos muito optimistas quanto ao futuro da cooperação económica na Europa. Tornámo-nos depois um pouco mais realistas, mas na época não era totalmente irrealista e insensato pensar regular assim estes problemas.
Na sua opinião, qual seria a melhor solução para regular o problema das dívidas e das reparações de guerra para os governos grego e alemão actualmente?
A melhor solução seria sem dúvida a de tentar despolitizar as coisas ao máximo. Mas sei efectivamente que isso é completamente irrealista porque é desde o início um assunto político. O que preferiria fazer, mais do que lhe dar uma opinião pessoal e ilusória, é de apresentar alguma previsões pessoais sobre o que se vai passar.
Deixe-me dizer-lhe algumas palavras sobre o que penso ser necessário fazer – não vou completamente subtrair-se à vossa questão. Acredito na verdade que temos necessidade de mais anulação de dívida, e acredito que vamos bastante rapidamente ter necessidade de a fazer . Sou daqueles que estão muito preocupados pela situação política actual na Grécia. O governo grego [estamos a falar do governo de Samaras] serve manifestamente dois donos. Um é o eleitorado grego, que está naturalmente muito insatisfeito com a situação, é o mínimo que se possa dizer, e o outro é composto pelos credores internacionais, tendo à sua frente a Alemanha e em menor escala o FMI. Incontestavelmente, os interesses, pelo menos a curto prazo, dos credores e os da população grega, não são concordantes; são mesmo opostos. Isto coloca o governo grego em má situação. E eu estou inquieto quanto ao futuro da democracia na Grécia, e como Alemão estou inquieto por duas razões.
Primeiro porque não se pode negar a responsabilidade histórica da Alemanha e, em seguida, porque a Alemanha atravessou uma experiência muito muito similar. Esta experiência fez-se a partir no fim dos problemas das reparações que se seguiram à Primeira guerra mundial, durante a Grande Depressão dos anos 1930. O governo alemão deveria pagar as reparações de acordo com um programa muito rigoroso. O programa, o plano Young, tinha começado em 1929; era duro, e sob vários aspectos, este programa fazia-me lembrar o que o ministro das finanças alemão e a Troika impõem à Grécia; os efeitos foram os mesmos: queda da produção económica de 25 a 30 %, o desemprego em massa, a radicalização política. Em síntese, o plano Young fez sair os Nazis da floresta . Sim, estou muito preocupado com a situação na Grécia e, por conseguinte, penso que deveríamos rapidamente tomar medidas para estabilizar a democracia grega. Pensarei eu que isso se vai realizar? Estou um pouco céptico. Tenho medo que duas coisas se passem: primeiro, que no fim haja uma anulação de dívida generalizada, mas isso chegará demasiado tarde e em que estragos profundos terão já sido provocados na democracia grega.
Michael Nevradakis, CETTE DETTE QUE L’ALLEMAGNE DOIT ENCORE À LA GRÈCE : ENTRETIEN AVEC L’HISTORIEN DE L’ÉCONOMIE ALBRECHT RITSCHL. Texto disponível no blog Okea news, no endereço: