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ESTÁ MORTA A DEMOCRACIA NO OCIDENTE? – por PAUL CRAIG ROBERTS

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Está morta a Democracia no Ocidente?

Paul Craig Roberts, Is Democracy Dead In The West?

Paulcraigroberts.org, 29 de Janeiro de 2015

Vamos descobrir a resposta à pergunta feita no título deste artigo nos resultados do conflito entre o novo governo grego, formado pelo partido político Syriza e o BCE e os bancos privados, com cujos interesses a UE e Washington alinham contra a Grécia.

Os espartanos, cujas capas vermelhas e poderio militar metiam medo aos invasores estrangeiros e aos opositores nas cidades-Estados gregas já não existem. Atenas em si é uma ruína da sua importância histórica. Os gregos que outrora em combate, foram capazes de, com 300 espartanos, e apoiados por alguns milhares de corintianos, tebanos e outros guerreiros, parar um exército persa de cem mil homens  nas Termópilas, tendo tido como resultado final a derrota da frota persa na batalha de Salamina e a derrota do exército persa na batalha de Plateia,  esses já não existem.

Os gregos da história tornaram-se um povo lendário. Nem mesmo os romanos foram capazes de conquistar a Pérsia, mas um pouco mais do que um punhado de gregos parou a tentativa de conquista da Grécia pelos persas.

Mas os gregos, apesar de sua história gloriosa, não puderam parar a conquista da Grécia feita pela UE e por um punhado de bancos alemães e holandeses. Se a Grécia da história ainda existisse, a UE e os bancos privados estariam bem encolhidos e cheios de medo, porque a UE e os bancos privados impiedosamente exploraram o povo grego e representam a mesma ameaça sobre  a soberania grega que outrora a Pérsia.

A Grécia, despojada de sua independência através da sua adesão à UE e da aceitação do euro como a sua moeda, perdeu a sua soberania. Sem controlo sobre a sua própria moeda, a Grécia não pode financiar-se a si própria. A Grécia tem de contar com os bancos privados de outros países.

 No século XXI os bancos europeus privados não podem correr o risco de perder dinheiro, simplesmente porque são incompetentes e emprestaram em excesso aos países da UE. Isto não pode ser considerado como culpa dos bancos, mas sim dos governos seus mutuários e das respectivas populações.

De acordo com alguns relatórios, a empresa americana bankster, Goldman Sachs, muitas vezes conhecida por Gold Sacks, (saqueia  ouro) manipulou as contas públicas da Grécia para que o volume total da dívida não fosse perceptível pelos outros bancos e estes outros bancos continuassem  a conceder mais créditos à Grécia, fazendo assim com que o povo grego viesse a ser passível, depois,  de uma verdadeira pilhagem.

O falso argumento da UE é que esta manhosa habilidade financeira, organizada por Goldman Sachs, terá beneficiado o povo grego. O povo terá usufruído destes créditos. Portanto, o povo grego tem de reembolsar estes mesmos empréstimos através da reduções nas pensões de reforma, através do desemprego da sua população, através dos cortes na saúde publica, através de salários mais baixos e através da venda de activos nacionais gregos.

Esta é a austeridade que foi imposta às pessoas na Grécia pela EU e pelos credores da Grécia.

 A Grécia está prostrada. Os gregos estão actualmente a ter uma enorme taxa de gente a suicidar-se, porque muitos  gregos não dispõem de condições materiais mínimas para sobreviver nas circunstâncias deprimentes que a UE e os bancos privados lhes criaram, e tudo isto sem nenhuma outra razão que não seja a de que os bancos privados não podem aceitar nenhum perdão sobre esses mesmos empréstimos.

Assim, como um resultado da “democracia” na Grécia temos o suicídio dos gregos. Com bastante democracia, nós podemos controlar a população de mundo e parar a destruição do capital da natureza. Tudo o que nós temos deixado fazer é permitir que os banksters pilhem o mundo inteiro.

O que pode o Syriza fazer?

Sem espartanos, muito pouco.

A intenção do partido e o facto de que os seus dirigentes são pessoas honestas leva a que mereçam o nosso respeito. SYRIZA é um Partido do povo e é isso o que o marca para o desejarem destruir. À voz do povo já não é permitido que possa afectar a política no mundo ocidental. A defesa dos múltiplos interesses dos poderosos ricos  que governam a Ocidente não suportaria que estes sejam contestados pelas pessoas sobre quem eles governam.

Mal o governo tinha tomado posse, a agência Bloomberg, um serviço de notícias de negócios, aconselhava o novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, que Syriza tinha necessidade de respeitar as regras estabelecidas para com os credores:

http://www.bloomberg.com/news/articles/2015-01-28/tsipras-plans-to-avert-catastrophe-as-greek-markets-sink-further

Tsipras afirmou que o novo governo grego não tem intenção de provocar um “catastrófico choque” com os seus credores, pretende apenas uma aceitável melhoria das condições razoáveis impostas à Grécia, para que Grécia pode dar alguma satisfação aos bancos privados que são os seus credores e também evitar a instabilidade social, política e económica na Grécia.

Em face da declaração bastante razoável de Tsypras, acima reproduzida, Bloomberg informa que o novo gabinete grego contém comunistas que favorecem a aproximação da Grécia para com a Rússia. Para lembrar o novo governo grego recém-eleito que os mercados financeiros mantêm o seu cutelo sobre o pescoço da Grécia, os títulos gregos e os preços das acções foram sujeitas a um verdadeiro assalto e os seus preços desceram fortemente.

O aviso feito pela União Europeia e por Wall Street é claro: Desafiem-nos e nós destruímo-los.

O castigo do novo governo grego foi imediato, naquele mesmo instante. Isto vindo de Bloomberg:

“As acções e as obrigações gregas caíram pelo terceiro dia consecutivo, depois dos novos ministros terem dito que iam acabar com a venda de alguns activos do Estado e iam aumentar o salário mínimo. Os rendimentos dos títulos do Estado a três anos subiu de 2,66 pontos percentuais, para 16,69 por cento. O índice geral de referência Athens General Index decresceu 9,2 por cento, para o mais baixo nível desde 2012, conduzido por um colapso no valor dos bancos. “

Será que Tsipras não entende que as instituições financeiras gregas continuarão a ser punidas se elas se mantêm como suporte do governo? Bloomberg deixa claro: “A Alemanha advertiu contra o abandono dos acordos anteriores por parte da Grécia em matéria de auxílios, depois de analistas terem dito que Grécia estava a entrar em rota de colisão com os seus pares europeus, o que a pode levar a sair da zona euro.”

As declarações dos ministros recém-nomeados “implicam confronto e tensas negociações num futuro próximo”, afirmou Vangelis Karanikas, director de investigação no Atenas Euroxx Securities, numa nota aos seus clientes. “

O que é “umas trajectória de colisão ” de SYRIZA? O novo governo quer moderar os acordos feitos pelos governos gregos anteriores que tinham arrasado o povo grego. O que o novo governo quer é parar que se continue a vender ao desbarato os bens públicos gregos aos clientes dos seus credores e o novo governo grego quer aumentar o salário mínimo grego de modo a que a população grega tenha bastante suficiente pão e água para viver.

No entanto, para os bancos privados seus credores, para a Alemanha de Merkel que está por trás dos bancos, para Washington, que estará menos preocupada com as condições de vida dos gregos, do que com elites gregas que se vêem elas próprias como fazendo “parte da Europa,” para todos estes,  Syriza é algo de que se têm de livrar.

E então os títulos gregos são atacados, a população grega é atacada, as ameaças são emitidas e que levantam o medo naquela parte da população grega que é passível de ser sujeita à propaganda e que acredita que a Grécia deve fazer parte do euro e da UE ou se assim não for, será ultrapassada e ignorada pela história.

Acontece, muito simplesmente, é que o povo grego, como os americanos, é um povo calmo. Somente 37% dos eleitores votaram Syriza. Isso é muito mais votos do que teve qualquer outro partido concorrente mas não é suficiente mostrar a Washington, à UE e aos credores que os gregos estão por trás a apoiar o seu governo.

Em vez disso, isto mostra que o novo partido teve de formar um governo com outro partido que, talvez, talvez seja manipulável, comprável. Isso mostra que Syriza pode ser diabolizado pelos media ocidentais e apresentado ao povo grego como uma ameaça à própria Grécia.

O novo governo está consciente da sua fraqueza. O novo primeiro-ministro diz que não quer confronto, mas que o novo governo não pode continuar a ceder como o fizeram os anteriores governos gregos. Um acordo aceitável deve ser alcançado

Um acordo é coisa pouco provável de se alcançar porque um acordo razoável não é o desejo de Washington, nem da EU e nem dos credores de Grécia.

Um objectivo “da crise financeira grega” é o de estabelecer que os membros da UE não são países soberanos e que os bancos que emprestam dinheiro a estas entidades não‑soberanas não são responsáveis por nenhuma perdas no que diz respeito aos empréstimos concedidos. A população dos países endividados são as contrapartes totalmente responsáveis. E estas populações devem aceitar a redução de suas condições de vida a fim de ser assegurado que os bancos não irão perder dinheiro nenhum.

Esta é “a Nova Democracia” [da Europa]. É uma ressurreição da velha ordem feudal. Uns poucos aristocratas super-ricos e todos os outros a serem seus servos e totalmente obrigados a apoiar a ordem reinante. A pilhagem que começou a ser feita na Grécia espalhou-se para a Ucrânia, e quem se lhes segue?

Com apenas com 37% dos votos, terá Syriza a força para em nome da Grécia se levantar contra os saqueadores?

Poderá a Grécia escapar a de uma situação comparável à idade das trevas que se verificou na Europa em que as populações eram devastadas por invasores que as assaltavam? Talvez se Grécia se consiga realinhar com a Rússia e obter o financiamento dos BRICS.

 Paul Craig Roberts,  Is Democracy Dead In The West? 29 de Janeiro de 2015 . Texto disponível em:

http://www.paulcraigroberts.org/2015/01/29/democracy-dead-west-paul-craig-roberts/

 

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