Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Marine Le Pen presidente em 2017?
Será bem necessário acabar de civilizar a Frente Nacional
Alain Nueil, Marine Le Pen présidente en 2017? Il faudra bien achever de civiliser le FN
Revista Causeur.fr, 13 de Março de 2015
A declaração de Manuel Valls quanto à possível vitória possível de Marine Le Pen nas presidencial de 2017 tem pelo menos um mérito. Só um. Esta declaração escapa a um pensamento preguiçoso de futuro que postula que este vai inevitavelmente reproduzir o rosto do passado recente. É assim que o exército francês de 1939 estava pronto para ganhar a guerra de 14-18. É assim que Lionel Jospin repetia em 2005 que a nova imigração se iria integrar na nação francesa, depois de algumas dificuldades, como estava integrada a velha imigração dos italianos, polacos, espanhóis, portugueses. Hoje, os homens políticos assim como os comentadores têm como adquirido que o 22 de Abril de 2002 tem fortes possibilidades de se reproduzir, com a filha no lugar do pai: será validada à primeira volta. Certamente, concedem que obterá mais votos que Jean-Marie, e mesmo que chegará talvez à cabeça, em número de votos. Mas na segunda volta, o 5 de Maio de 2002 ressuscitará inevitavelmente em todo o seu esplendor. Independentemente do candidato que se oponha a MLP – Hollande, Juppé, Sarkoz, ou Boutin – ela ganhará. O diabo surgiu, seguidamente enfiou-se na sua caixa em 2002, a diabrinha fará três pequenas voltas e seguidamente disparará em 2017.
Ora, eis que Manuel Valls, à maneira do modo histérico e vaticinador do tipo Pitias de Delfos, profere o inexprimível, o inconcebível, o inaceitável: Marine Le Pen pode muito bem tornar-se Presidente da República Francesa em 2017. Pois bem, pensemos o impensável. Acredito que é necessário tomar o Primeiro-ministro à letra e considerar esta profecia desembaraçando-a ao máximo da sua ganga de terror e de entusiasmo. Acredito que é do dever de cada francês e sobretudo daqueles que tomam por dever e por paixão pensar e escrever, encarar esta hipótese sem amor e sem ódio. O preço a ganhar a estas reflexões e a estes ajustamentos prévios: o evitar de uma guerra civil.
Como na Polónia “das lustrações”, como na África do Sul da reconciliação étnica, será necessário primeiro perdoarmo-nos uns aos outros. Designar os culpados não servirá para nada a não ser estar a agitar os ódios mortais. A esquerda tapou os seus próprios olhos face à realidade durante lustros, a direita imitou-a e nenhum dos seus chefes teve a coragem singular de se aliar à Front National para a asfixiar melhor, como o tinha feito Mitterrand com os comunistas. Giscard de Estaing tem a sua parte de responsabilidade com o agrupamento familiar, o general Bugeaud com a conquista da Argélia, e também os Bizantinos que, se tivessem lutado melhor contra os exércitos fatimidas teriam podido deixar-nos uma África do Norte cristã, o que simplificaria evidentemente o problema. E também o Cristo, que teria feito melhor se nascesse depois de Maomé.
Será com certeza o novo poder que terá de fazer os maiores esforços para evitar que a sua vitória se transforme em conflagração nacional. Vejo um sinal animador no facto que os dirigentes da Frente nacional eliminam impiedosamente os seus candidatos que expressam opiniões racistas. Eric Zemmour encontra Marine Le Pen demasiado à esquerda e tanto melhor: a mulher política e o comentador devem permanecer nos seus papéis respectivos. Como é uma manobradora fina, penso que não tenho mesmo nenhuma necessidade de lhe soprar ao ouvido uma terna recomendação: a de se dirigir, a partir do seu primeiro discurso, aos nossos compatriotas muçulmanos para os tranquilizar. Uma moratória sobre a imigração que continua a chegar certamente, mas a segurança da igualdade dos seus direitos e deveres aos muçulmanos franceses. E mesmo um abraço público com o reitor Boubakeur, Paris vale efectivamente uma oração de Sexta-feira.
Muito mais difíceis que as relações com os muçulmanos: evitar o pânico dos meios económicos, evitar a rejeição da França pelo resto da Europa. Os dois problemas estão ligados: a recusa do liberalismo económico e a recusa da Europa estão a par para a Frente nacional. A priori, há aí duas rupturas essenciais a temer: com o patronato, com o resto da Europa. Marine Le Pen e Florian Philippot, se sentirem todo o peso das responsabilidades que vão talvez pesar sobre os seus ombros, deverão iniciar um aggiornamento para o liberalismo e para a Europa. O malogro programado da Grécia de Syriza e a sua demagogia insensata dar-lhes-á matéria de reflexão. Diversos membros do Frente nacional, a começar pelo pai fundador, não aderem à nova catequese “esquerdista”[1] do partido. Pelo seu lado, o continente europeu vai deslizar inevitavelmente à direita sob a pressão da ameaça islamita. Uma concepção mais firme e mais defensiva da Europa, um patriotismo europeu reafirmado, seriam mais compatível com a Frente Nacional que o actual agregado sem fé nem orgulho.
Civilizar a FN, ou digamo-lo de forma o mais polida possível, acabar de a civilizar, será um sonho de louco? É em todo caso um trabalho a assumir a partir de hoje em cada um de nós e em volta de todos nós. É necessário recensear os campos de minas mais perigosas e extrair-lhes as matérias mais explosivas: o mesmo com a paz civil em 2017. Os mais sábios e mais pacientes terão o direito de sonhar numa alternância em 2022.
Alain Nueil, Revista Causeur, Marine Le Pen présidente en 2017? Il faudra bien achever de civiliser le FN, Março de 2015
*Photo : CHAMUSSY/SIPA. 00706047_000033.
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[1] Nota de tradução.As aspas são nossas.
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Ver o original em:
http://www.causeur.fr/marine-le-pen-fn-islam-2017-31848.html

