De um escândalo a outro – do escândalo Baupin ao da lei El Khomri | 4. O caso Baupin: a esquerda hipócrita – por Alain Nueil

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

De um escândalo a outro – do escândalo Baupin ao da lei El Khomri
4. O caso Baupin: a esquerda hipócrita
O arcaísmo da esquerda francesa é também um moralismo

Alain Nueil

Incluindo no plano moral, a esquerda francesa nem sempre fez o seu BAD Godesberg e nem renunciou a querer fabricar um Homem novo. Nada de surpreendente pois a que Baupin e Cahuzac tenham ido pelos pés ao tapete.

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Denis Baupin. Photo: Numéro de reportage : 00670591_000061.

Existem controvérsias sórdidas e existem controvérsias muito nobres e necessárias: os conflitos de deveres.

Créon contre Baupin

Antigone considera que é do seu dever enterrar o seu irmão dado que os Deuses ordenam aos que estão vivos este gesto que permite aos mortes encontrarem o seu descanso. Ela só tem que cumprir as ordens do Estado, representado por Créon. Este considera que é do seu dever punir o seu sobrinho Polynice morto em combate a lutar contra a sua pátria: proibe o enterro do traidor. Comparar Denis Baupin ao personagem mitológico de Polynice não é absurdo, porque é também objecto de um conflito de deveres. Os assuntos são todos os que se reflectem nesta questão: é necessário denunciar a hipocrisia de esquerda ou é necessário denunciar a linchagem mediática ? Encontram-se em Causeur dois que defendem Antigona, Régis de Castelnau e Elisabeth Lévy, por se escandalizarem primeiramente com a linchagem. É justo que um Créon se manifeste para se escandalizar primeiramente com a hipocrisia de Denis Baupin.

Alto, ao feminismo desenfreado…

Entendo muito bem os argumentos contra a linchagem mediática e aprovo-a: é necessário condenar o feminismo quando este defende posições tais que se transforma numa ideologia irracional. O caso Jacqueline Sauvage demonstrou que o feminismo desenfreado leva-nos a não poder ignorar as decisões de justiça mais razoáveis e mais inatacáveis. Um presidente da República que rema sempre no sentido da corrente agraciou-a sem nenhum problema de consciência. Causeur é um dos raros meios de comunicação social onde se ousa virar o prego a este tipo de feminismo, corrente numa época onde o pior machista se acredita obrigado a glorificar a feminidade em público antes de espancar a sua mulher em casa. .

Mas aí está: os conflitos de deveres são ainda mais apaixonantes quanto opõem duas teses adversas que se valem mais ou menos a mesma coisa. É nisto que reside todo o sucesso de Corneille: devo eu defender o meu pai e perder o meu noivo ou vou eu obedecer ao amor e ser amaldiçoada pelo o meu pai? Os debates recorrentes sobre a eutanásia são exasperantes, mas não deixam de continuar a serem apaixonantes: to kill ora not to kill o doente que sofre gravemente em fim de vida, that is the question de que se debaterá por muito tempo e talvez para sempre.

mas a tartuferie está na esquerda

Hoje, o escândalo em denunciar em primeiro lugar parece-me ser a hipocrisia de esquerda. Hipocrisia, contrariamente ao que se diz para parecer imparcial, não se partilha de igual modo entre a esquerda e a direita. A esquerda é muito mais susceptível de cair nos piores lamaçais da hipocrisia porque pretende ser moral. Da mesma maneira que um ateu não pode ser um Tartufo, um homem político de direita, que não tem pretensões de reformar a humanidade e se limita a querer gerir o melhor possível o Estado, corre pouco riscos de se tornar um hipócrita tão resplandecente quanto Cahuzac ou Baupin. Mas os homens políticos de direita não gostam de passar por cínicos, não gostam “de deixar aos outro o monopólio do coração” e é nesse momento que se arriscam também a cair na hipocrisia.

Quando se fala do arcaísmo da esquerda francesa, quando se diz que não fez o seu congresso de BAD Godesberg, congresso no qual o SPD aceitou coabitar com o capitalismo, pensa-se somente em tudo o que é economia, direito do trabalho, funcionamento material da sociedade. Esquecem-se então de dizer que as esquerdas europeias, com excepção da francesa, renunciaram ao projecto marxista de mudar o homem, “criar um homem novo”. Pode-se imaginar por um segundo sequer que Tony Blair teve a ideia de propor uma lei que puna os clientes dos prostituídos? Pode-se imaginar um segundo que Gerard Schröder possa ter sugerido aos ministros da Educação dos diferentes Länder que se criasse um ABC da igualdade entre raparigas e rapazes e que façam com que as raparigas no recreio joguem à bola e que os rapazes brinquem com as bonecas?

A esquerda francesa, continuando com o projecto de transformar a humanidade pela repressão, toma os Franceses por crianças pouco inteligentes e mal educadas que é necessário melhorar nem que seja à força. A esquerda francesa é uma velha professora primária e polemista que prega a virtude às crianças, e depois passa a noite na Internet a procurar gigolos, perdão, “escort boys”. Enquanto ela continuar a permanecer moral, será capaz de dar à luz Tartufos como Cahuzac e Baupin. A mais urgente das reformas da esquerda sobre ela própria consistiria em considerar, finalmente, os franceses como adultos.

Alain Nueil, Revista Causeur, Affaire Baupin: la gauche hypocrite –l’archaïsme de la gauche française est aussi un moralisme. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/denis-baupin-gauche-cahuzac-38167.html

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