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NINGUÉM SABIA ? por Luísa Lobão Moniz

Quantas mulheres sofredoras choram baixinho e já sem lágrimas porque se sentem humilhadas. Por vezes vão trabalhar com os hematomas na cara bem visíveis, caíram nas escadas, dizem elas.

Só elas sabem de que escada se trata, a estrada do horror.

Muitas vivem uma vida com medo tentando salvaguardar os seus filhos da mesma escada que a leva ao sofrimento.

As crianças sabem, sentem, vêem o pai bater e humilhar a mãe, alguns querem defendê-la, mas acabam por ser mais uma vítima que vai sofrer em silêncio, outros escondem-se, até debaixo da cama para que ninguém os veja. A cama é o seu refúgio, ou finge que está a dormir ou esconde-se debaixo dela.

Porque alguns homens agridem física e psicologicamente as mulheres a quem um dia disseram que a amavam?

Há uma raiz histórica e cultural muito forte em que a mulher era vista como a guardiã da casa e da prole enquanto o homem, esse ser forte e defensor da sua família, ia buscar alimentos, ia à caça. Os tempos mudaram mas os homens continuaram a ser o elemento da família que se quer mais forte, vai trabalhar, ganhar “o sustento” para a família. A mulher continuava nas suas lides de mãe e de “dona de casa”  . Dona de quê? Nem da casa, nem do tempo, nem do número de filhos, nem de viajar, nem de votar, nem de si própria!

O Homem, esse sim, era dono de tudo e de todos os que com ele vivessem. Era o guerreiro todo-poderoso que amiúde se embebedava e quando chegava a casa a cambalear implicava com tudo e com todos. Se não adormecesse era certo que alguém ia ser vítima da sua violência e, no dia seguinte, quando a mulher, fosse comprar algo para comerem, era vista como se ela fosse a culpada “Se te bateram alguma coisa fizeste”

Por vezes a mulher é a sua pior inimiga porque não conta o que se passa no seio familiar, acredita que o marido é bom homem, mas às vezes bebe ou droga-se e então…

Mas esse poderoso Ser, o marido, o companheiro, o ex-marido, o ex-companheiro ou namorado não admite que a sua imagem de macho, dono absoluto de mulher e filhos, seja afectada pelas queixas da mulher, pelo pedido de separação, da fuga de casa da mulher e dos filhos, da ida à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens ou da ida ao tribunal.

Os principais motivos da violência dentro de casa são o ciúme (20%), a dificuldade em aceitar a separação (10%).

Em 2014 morreram em média quatro mulheres por mês, uma por semana!

Na maior parte dos casos de violência dentro de casa (52%) o homem foi o agressor. 30% dos casos as mulheres morreram, vítimas da agressão, já depois da separação.

Em 2014 Setúbal foi a região que registou mais mortes de mulheres vítimas de violência.

Ficamos chocados com as mortes e quase esquecemos a agressão emocional, as ameaças, os insultos, as humilhações, que segundo as vítimas, deixam marcas profundas que nunca mais saem.

 O que se passa quando o homem mata a mulher e a seguir se suicida?

A violência é demasiado complexa para que seja, de imediato, entendida.

Publicamente todos a reprovam, mas nos seus círculos privados, o homem pensa “se fosse comigo, logo vias o que te fazia…”

Quantas mulheres foram vítimas de violência enquanto escrevia este texto?

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