Há temas recorrentes na comunicação social que fazem despertar a indignação dos cidadãos, um desses temas é a violência sobre as mulheres.
Digo sobre as mulheres porque a violência não tem nomes, é violência e ponto final. Há violências que causam mais e diferentes danos na vítima e no agressor.
Em 2013 morreram 32 mulheres vítima de violência dos maridos ou dos companheiros, d e ex companheiros, dos filhos e dos irmãos…
Em 2010 morreram 40 homens vítimas de violência, em 2013 morreram 10 homens vítimas dessa mesma violência.
Não tem havido subida de casos, mas estes, só por si, já merecem toda a atenção da sociedade.
O que se passa entre estas vítimas? Como viviam até decidirem matar? Porque matam também os filhos ou as amigas da mulher?. Porque matam e depois se vão entregar à Polícia?
Há homens que não conseguem aceitar a falta de poder, por ser o mais forte, quando se vê ameaçado com uma separação.
A mulher acredita quase sempre que o companheiro ou marido vai mudar de atitude, que só bate porque está bêbado, porque quando não está bêbado não é violento. Tem sido sempre assim, a mulher também não aceita ficar só com os filhos.
A mulher vai aceitando estas situações de violência por razões económicas, como pode proporcionar aos filhos o que eles precisam se ela está desempregada ou ganha o que não dá para pagar todas as despesas…
A mulher vai aceitando estas situações de violência por razões emocionais, provavelmente já foi maltratada enquanto criança culpabilizando-se por essa violência. A sua auto estima é muito baixa e, por vezes, recorre ao álcool, desleixa-se com a arrumação da casa, deixa de se vestir apropriadamente, já não tem forças emocionais para lutar contra a brutalidade.
Só a autoridade poderia tirar o sofrimento a esta mulher e aos filhos.
Apesar de haver muito mais informação sobre a violência que se passa em casa ou na rua, há ainda uma cultura de silêncio e de inibição na denúncia de quem é vítima, muitas mulheres ainda pensam que se forem à polícia vai ser pior. Esta violência é tolerada pela mulher e vista com normalidade porque certamente as suas mães também o foram.
Num estudo que fiz sobre violência verificou-se que as meninas aceitavam, melhor do que os rapazes, a violência que iam sofrendo.
Este tipo de violência atravessa todas as classes sociais e todas as idades. A maior parte sofre em silêncio a pancada, a humilhação, a privação de dinheiro… e a ameaça de ficar sem os filhos
Não têm com quem desabafar porque a família iria dizer que a culpa era dela.
Elas sabem que os filhos as defendem, às vezes interpondo-se fisicamente entre os adultos, acabando por serem também agredidos. Quando o agressor sai, mãe e filhos choram juntos e a mãe diz que foi só esta vez, e a mãe diz, não viram que o pai estava bêbado?
E as lágrimas correm como nascentes de um rio, e o corpo dói. Vão ao hospital e dizem que caíram nas escadas. As crianças vão para a escola e, por vezes, dizem a verdade e é na escola que a mãe chora e diz que já não sabe o que há-de fazer.
E é assim que começa um processo legal de defesa da mulher e dos filhos. O sofrimento continua, o medo aumenta e retiram a queixa porque estão novamente grávidas.
Esta violência é demasiado complexa para ser tratada com soluções avulso. A violência senta-se à mesa, deita-se na cama e acompanha a vítima durante o dia.
Normalmente quando há violência em casa sobre as mulheres também há sobre as crianças.
Já foram feitos muitos progressos em defesa da dignidade e segurança destas vítimas, desde a prisão efectiva, a pulseira electrónica, a formação à PSP e à GNR , mas não chega, há queixas que não são bem diagnosticadas e mais tarde é mais uma mulher morta…
Conheci mulheres que fugiam de casa, mas voltavam sempre porque ele é o pai dos seus filhos, conheci mulheres que sofriam, em silêncio, física e psicologicamente. conheci mulheres que desde criança que eram maltratadas pelo pai que também batia na mãe.
Conheci uma mulher que casou com um homem que sempre a maltratou, um dos filhos, o mais velho, seguiu o exemplo do avô e do pai, pois após a morte do pai começou a bate na mãe transmitindo assim aos seus irmãos mais novos que o homem pode bater na mulher.
A violência é uma trama cujos nós são difíceis, mas não impossíveis, de desatar…