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DIA DA GALIZA. “17 de maio: hoje é festa-féria”- Xurxo Nóvoa Martins

*(Xurxo Nóvoa Martins é ativista, livreiro e ocasionalmente músico, poeta e arma-danças)

O 17 de maio é o Dia das Letras Galegas, um dia de celebração na Galiza em torno da língua galega, que é a maneira como chamamos por cá ao antigo galego-português, atual português da Galiza, que continua a ser a língua maioritária -apesar de séculos de marginalização, desprezo e punição- nesta região autónoma do reino de Espanha, uma espécie de Escócia ibérica, pois como ela é uma velha nação atlântica de espírito libertário, matriarcal e indomável. O Dia das Letras começou a celebrar-se no ano de 1963, coincidindo com a celebração do centenário, nesse mesmo dia, da primeira edição de Cantares Galegos, da universal escritora e intelectual galega Rosália de Castro.

Permitam-me que me apresente: chamo-me Xurxo Nóvoa e não é por acaso que seja um dos dois atuais sócios, junto a Loira Martínez, da Ciranda, à volta do português, sita em Santiago de Compostela, que é a única livraria especializada em língua portuguesa de todo o estado espanhol. Com certeza, às vezes a situação política e cultural da Galiza a respeito do resto da lusofonia semelha-se a uma ilha. A mim faz-me pensar na Islândia, que faz parte da cordilheira submarina que se estende, precisamente, para o Sudoeste até as ilhas dos Açores, um outro cume do mesmo sistema montanhoso.

Islândia, uma ilha na que os banqueiros são arrestados e enviados à cadeia e os ex-presidentes julgados por má gestão… Ai! que inveja temos disto no sul da Europa, não é?! e, musicalmente, berço de uma mulher poderosa, a pequena viquingue Björk. Porque… o tamanho, certamente, não importa neste caso, mais bem às avessas. Penso na Galiza tantos e tantos séculos isolada, mas que possui uma forte personalidade linguística, cultural e musical, comparável a outros lugares, talvez pequenos no mapa, mas imensos nos nossos corações, como Cuba, Jamaica, Irlanda ou Cabo verde.

Na Guiné-Bissau, outro pequeno país da costa ocidental de África que além do território continental, integra cerca de oitenta ilhas que constituem o Arquipélago dos Bijagós, encontramos algumas das melhores praias do continente. Praia é a capital de Cabo Verde, que no passado pôde chegar a formar um só país junto à Guiné, como sonhou Amílcar Cabral. Não me digam que não dá vontade de ir viver num país cuja capital tem por nome praia!

Neste 17 de maio tenho vontade de nadarmos nas águas da literatura e da liberdade com as 24 espécies de baleias e golfinhos que visitam os Açores e infelizmente, cada vez menos, a nossa querida Galiza. Com o espírito de Natália de Oliveira Correia poeta açoriana, lutadora contra a Ditadura de Salazar que destacou na defesa da cultura, dos direitos humanos e das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores, inventou o matricismo, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade. Dizia: “Sou até um ser profundamente afetivo. Coloco o amor na sua totalidade -o Amor que compreende Eros, Ágape (ou amor sublime), Líbido e Fília (amizade). Este amor é a própria essência da cultura portuguesa”, e eu engadiria “e da galega, da brasileira, da africana…”

Vontade de viajarmos até à Ilha Brasil, que misteriosamente aparece, desaparece e muda de lugar, como uma mancha vermelha em milhares de mapas desde o século XIV até meados do XIX. O antigo paraíso dos celtas, sempre cara o sol poente. Desde o oeste da Irlanda, a sua posição originária, migrou para os Açores, onde a atual ilha Terceira aparece por vezes com esta designação e onde, muito antes de 1500, data da descoberta “oficial” das Terras de Santa Cruz, o atual Brasil, já a península fronteira à cidade de Angra, um antigo vulcão extinto, ostentava o nome de Monte Brasil. Este vocábulo é o nome popular dado em gaélico irlandês ao sulfuro de mercúrio, mineral de cor vermelha brilhante utilizado desde a antiguidade como base para colorantes e usado em pintura corporal.

A lenda da ilha Brasil estava em boca dos marinhos atlânticos da Idade Media (escoceses, irlandeses, bretões, galegos, portugueses…) e é possível que a aplicassem ao paraíso que toparam, cheio, por outra banda, duma madeira chamada pau-brasil que, pela sua coloração avermelhada parecia estar incandescente ou “em brasa”, o que sem dúvida contribuiu a unir ambos nomes num, como acontece com o enigmático texto do basco Lope Garcia, que sobre 1475, situa na ilha do Brasil, ao mesmíssimo rei Artur, identificando-a com Avalon, ilha lendária da lenda arturiana, famosa por suas belas maçãs, lugar onde a espada do Rei Arthur Excalibur foi forjada e posteriormente para onde Arthur é levado para se recuperar das feridas após a Batalha de Camlann.

Pintemos o corpo de azul, branco e vermelho e gozemos pois das maçãs do paraíso, das ilhas esquecidas, da sororidade e da fraternidade lusófona, à que @s galeg@s pertencemos por direito próprio. Em palavras de Jimmy Hendrix: “Quando o poder do amor superar o amor do poder, o mundo conhecerá a paz”… ou em palavras da nossa Rosália de Castro “É feliz o que sonhando, morre. Desgraçado o que morra sem sonhar”. Continuaremos a sonhar, a amar e a fazer realidade os nossos sonhos… hoje é festa-féria na Galiza e na lusofonia toda!

Xurxo Nóvoa Martins

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