NUNCA O FIZERAM, POIS NÃO? POIS FAÇAM-NO! Por Luísa Lobão Moniz
clara castilho
Nada melhor para comemorar o Dia da Criança do que pô-la envolvida na simulação de um motim a ser reprimido.
Crianças, desordeiras, atiram algo, como se fossem pedras.
Crianças, polícias de choque, investem sobre os desordeiros, com escudos.
O que se pretende com esta iniciativa permitida pela Escola, pela Câmara, pela Polícia?
Se calhar ando enganada tanto na minha profissão como na minha vida social, porque afinal eu e tantas, tantas outras pessoas tentamos, todos os dias, transmitir mensagens de não violência…
A Escola dá-nos a tranquilidade, apesar dos casos de violência que se têm visto na comunicação social, de que queremos um mundo melhor. Sem motins e sem carga policial!
Porque foi que estas crianças se manifestaram violentamente?
Porque foi que coube a algumas destas crianças baterem nas outras crianças?
Não seria melhor fazer uma demonstração de solidariedade?
Não seria melhor demonstrar o carinho que os idosos nos merecem e que estão a ser vítimas de maus tratos?
Nunca o fizeram, pois não? Pois façam-no!
Porque não fizeram uma demonstração para mostrar que há mais pessoas boas do que más?
Porque não fizeram uma demonstração de segurança para as crianças?
Porque não fizeram uma demonstração de como vivem as crianças noutros países, crianças ricas, pobres, crianças soldados, crianças mais felizes e outras menos felizes do estas?
Porque não fizeram uma demonstração contra a violência nas crianças?
Porque não fizeram uma demonstração contra a falta de tempo para brincar?
Porque não fizeram uma demonstração para mostrarem que têm os seus pais no desemprego?
Nunca o fizeram, pois não? Pois façam-no!
São tantas as situações que se poderiam abordar que este texto não teria fim.
Não é inocentemente que se fazem demonstrações em que os mais fortes (polícias) batem, protegidos por escudos, nos mais fracos que supostamente terão pedras para atirar e estão protegidos pela sua própria razão e pela roupa que vestem!
O papel dos mais fortes é oprimir e o dos mais fracos é de protestar, mas atenção que o protesto vai ser reprimido porque a população não se pode indignar com a maneira como estamos a ser (des)governados.
É bom, para um governo democrático, transmitir sinais de que se as pessoas tiverem consciência da maneira como vivem devem ser passivas, o poder dos governos é para o nosso bem, por isso é preciso reprimir os mais desassossegados.
“Democraticamente” vai-se dizendo que só se pode viver assim, e logo o poder começa a fazer sentido para a população que se torna conformista.