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EDITORIAL- Um caso de «violência doméstica» de há quase nove séculos

Imagem2Disciplina científica, a História é um instrumento político ao serviço de quem ocupando o poder, controla os meios de comunicação. No seu 1984, George Orwell cria um estado em que a “verdade” histórica vai sendo adequada aos interesses da clique dirigente. Fala-se de Espanha como se tal nação alguma vez tenha existido e como se as suas raízes mergulhassem num passado longínquo. Que num estado onde as raízes do franquismo ficaram sob a leve camada de uma democratização O Reino da Galiza é o mais antigo dos reinos cristãos e foi de uma cisão entre a nobreza galega e os barões portucalenses, unidos em torno de Afonso Henriques, que nasceu Portugal. Humoristicamente, chamamos ao episódio de São Mamede, um «caso de violência doméstica» bem sucedido, com o filho a «bater na mãe». Foi em 24 de Junho de 1128.

Na ocupação da Península Hispânica, os exércitos islâmicos usaram uma táctica que podemos considerar, tendo em conta as realidades tecnológicas do século VIII e do século XX, antecessora da Blitzkrieg, o conceito de “guerra relâmpago” criado pelas forças hitlerianas – ataques rápidos, concentrando-se a incidência do impacto num dado ponto. Os carros de combate das tropas nazis eram, nesses tempos substituídos pela cavalaria moura, com uma capacidade operacional acrescida pelas características das montadas e pela maior leveza dos equipamentos.

A partir de 711, a conquista muçulmana foi facilitada pela resposta lenta dos defensores num território onde só aos visigodos era permitido o uso de armas. Houve cidades que se renderam sem resistir. A Reconquista foi lenta e terá sido no processo de recuperação territorial que se foram criando os pequenos reinos peninsulares.

O primeiro a ser constituído foi o Reino da Galiza, em 791. Com a morte de Afonso III, o reino seria dividido entre os seus filhos – Leão, Navarra e Aragão, Portugal e Castela. É Afonso VI que entrega o condado Portucalense a Henrique de Borgonha que casa com sua filha a infanta Teresa. Desde o princípio do seu governo, o conde borgonhês orientou a sua política no sentido de atingir uma autonomia plena para o seu pequeno território. Quando morre, em 1112, Teresa assume a chefia do Estado durante a menoridade do filho, Afonso de Borgonha e, em 1121, começa a usar o título de rainha. Porém, a sua cumplicidade com nobre galegos, particularmente com um deles, Fernão Peres, que se diz se seu amante, gera conflitos com os apoiantes de seu filho, o jovem Afonso Henriques. Em 1125, com catorze anos, seguindo o costume dos reis medievais, arma-se cavaleiro a si mesmo e, rodeado de nobres portucalenses, desencadeia uma luta contra sua mãe. A luta palaciana passa para o terreno e em 24 de Junho de 1128 derrota os apoiantes de Teresa na batalha de S. Mamede. Estava aberto o caminho para a criação de Portugal. Um acto de violência doméstica perpetrado há quase 900 anos, resultou no que sabemos.

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