EM NOME DE ANA DE CASTRO OSÓRIO por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

A casa é o sítio mais perigoso, afirma a UMAR, no Jornal Público de 31 de Julho, dia em que saiu o relatório, do Observatório das Mulheres Assassinadas, sobre violência doméstica e em que se revela que neste primeiro semestre morreram 24 mulheres assassinadas pelos homens que com ela privavam, ou de quem já se tinham separado.

Ao longo da história do quotidiano português sabe-se que a casa, só por si, nunca foi um lugar onde reinasse a alegria e a paz.

A obediência ao pai, que era o ganha pão da família, assentava em castigos para os filhos e negligências várias para as mulheres.  Quando o marido levava os amigos para jantar ela não comia com eles. Não tinha estatuto para confraternizar com “outros homens” , tinha sim estatuto para cozinhar e servir à mesa.

A mulher, sempre boa esposa, cuidava dos filhos, tinha que estar sempre atenta à sua instrução e educação, transmitindo os valores da sociedade.

Nos meios mais favorecidos, criou-se um “pacto de silêncio” para a família perpetuar o lar como um lugar seguro para todos. Não havia denúncias à Polícia nem aos meios de comunicação social.

A família estava fechada sobre si própria, dentro da sua casa, agora, com paredes de tijolo que permitem a privacidade do lar.

Se o pai batia na mãe os filhos desmentiam porque não tinham visto nem tinham ouvido, se a mãe aparecia com nódoas negras era porque tinha caído ou batido com a cabeça na porta do armário…

A conhecida propaganda do Estado Novo ainda povoa a cabeça de muitos homens e de muitas mulheres.

O cartaz “DEUS, PÁRTRIA E FAMÍLIA” é um retrato que representa a submissão de todos os membros da família, através dos papéis de género atribuídos às mulheres/raparigas e aos homens/rapazes..

É essa a imagem que se queria transmitir, um lar feliz, cada um a desempenhar o seu papel, para mais tarde o reproduzir.

Hoje em dia vivemos a dualidade destas representações:  a propaganda do Estado Novo e a libertação da mulher.

A mulher trabalha fora de casa, destruindo o mito de que a mulher o que tem que fazer é a “lida da casa”: cozinhar, limpar, tratar dos filhos e obedecer ao marido.

A privacidade da família tornou-se num refúgio para as pressões sociais, mas também num sítio em que se mata, em que se violenta psicologicamente, arrastando consigo sequelas como o medo, a insegurança, o sentimento de culpa, o isolamento da família alargada e o isolamento social.

A violência não é doméstica, é no seio da família porque inevitavelmente, afecta outros membros da família, idosos, crianças e outros elementos.

A coragem para denunciar esta violência tem que vencer muitos tabus, muitos medos, por em causa muitos afectos…

A mulher queixa-se que alguns vêem e nada fazem, mas por outro lado não quer que ninguém saiba, outros sabem, mas assumem frases do Estado Novo “entre marido e mulher não metas a colher”. A violência é dentro de casa, no seio da família.

A violência não tem género, tem poder sobre os mais fracos: crianças, mulheres, idosos, deficientes, homossexuais…

Hoje em dia começamos a saber, pelos jornais, que há mulheres que maltratam os maridos, principalmente psicologicamente, a melhor maneira que encontraram para agredir.

Mulheres de Portugal ajudem a mudar mentalidades, não é a mulher que é igual ao homem  é o homem que é igual à mulher e, por isso, ele reage porque vê o seu território invado pela mulher (para além de outras razões).

 bia 2.8

Ana de Castro Osório fundou, em 1907,  o Grupo Português de Estudos Feministas.

 

 

 

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